Psicanálise e atualidade: teoria, clínica e cultura

Joel Birman, Editor do periódico Ágora – Estudos em Teoria Psicanalítica, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Psicologia, Professor do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Composto por 13 artigos inéditos, o novo número de Ágora – Estudos em Teoria Psicanalítica (v. 21, n. 2) abarca importantes contribuições para pensarmos a psicanálise, em sua dimensão teórica e clínica. A partir disso, evidencia-se não só como a psicanálise pode colaborar para pensar a cultura, mas também, como esta, conjuntamente com a clínica, convida a psicanálise a repensar suas coordenadas teóricas, permanentemente.

No que concerne à articulação psicanálise e cultura, encontramos discussões sobre a questão do traumático na atualidade; a experiência do recalque e do luto; a interação entre psicanálise e direito; a destituição do poder familiar; e, ainda, a relação entre temporalidade e sexualidade.

Em seu artigo “Novo retorno do traumático na psicanálise hoje: além do mal-estar?”, Marta Rezende Cardoso defende que a psicanálise está diante de um novo retorno do traumático. Tendo em vista o incremento das figuras do excesso e do trauma, configurações subjetivas limites que se tornaram mais marcantes a autora se debruça no problema do mal-estar na atualidade.

No texto “Função e campo do recalque e do luto no contexto da cultura: reflexões sobre o racismo, o banzo e o blues”, Nilda Martins Sirelli e Denise Maurano problematizam a dialética lembrança-esquecimento, sobretudo, no campo da cultura. Para isso, analisam como o recalcamento se inscreve no racismo e no banzo, como também, como o trabalho de luto permite a criação, o que propiciou a invenção do blues.

A questão da segregação também é discutida por Alexandre Dutra Gomes da Cruz e Ilka Franco Ferrari em “O inimigo nosso de cada dia: uma interlocução entre psicanálise e direito”. Para abordar a relação entre direito e violência, baseiam-se no trabalho do jurista Gunther Jakobs (2007), que formalizou a doutrina do direito penal do inimigo, com também, em depoimentos a respeito das operações da polícia nas favelas cariocas que evidenciam a criminalização da pobreza.

No trabalho “A família e a destituição do poder familiar: um estudo psicanalítico”, Suziani de Cássia Lemos e Anamaria Neves analisam os impasses da relação família-judiciário – como a aplicação protocolar de regulamentos que ignoram as singularidades subjetivas – a fim de discutir como o poder familiar está em franco processo de destituição.

Considerando a dimensão espectral da escrita foucaultiana, Victor Martins aborda a questão da transmissão da história. O autor analisa a problemática da temporalidade na História da sexualidade I, II e III (FOUCAULT, 1976/ 1999; 1984/1998a,b), a partir da teoria do traço mnésico (FREUD, 1925/2011) em seu artigo intitulado “Ler a História da Sexualidade de Foucault com o Bloco Mágico de Freud: do duplo lugar de A Vontade de Saber e do «paradoxo dos substitutos»”.

Um segundo eixo de discussão diz respeito aos desdobramentos teóricos, clínicos e éticos de certas formulações de Jacques Lacan sobre, por exemplo, o campo do desejo, a relação entre ciência e a topologia estrutural, a pluralização dos Nomes-do-Pai e a formação do analista.

No artigo “O conceito, o desejo e a ética – o desejo como móbil do conceito fundamental”, Ingrid Vorsatz, extraindo os desdobramentos éticos de apontamentos de Lacan (1964/1988), estabelece uma relação entre a fundação do campo conceitual da psicanálise – cujo marco foi a definição de seu conceito princeps, o inconsciente – e o desejo como operador central de uma formulação que não pode prescindir a enunciação de seu fundador.

Um estudo sobre as consequências da apropriação da noção de “ciência moderna” (KOYRÉ, 2011) na obra de Lacan é realizado por Vitor Triska e Marta Regina de Leão D’Agord, no artigo “As raízes científicas da topologia estrutural de Lacan”. Além de evidenciar como Lacan ressignificou as noções de estrutura, letra e real, os autores dão enfoque à definição da topologia estrutural, insistindo que esta transcende o campo científico da matemática e da lingüística.

No texto “Père-version: a relativização do nome-do-pai”, Julio Cesar Lemes de Castro discute como se deu o processo de relativização do Nome-do-Pai na obra de Lacan. Tendo sido iniciada a partir do jogo de palavras père-version (LACAN, 1975-1976/2005), que permitiu uma pluralização dos Nome-do-pai, o autor defende que esta relativização se completou com a topologia dos nós que colocou em xeque a preeminência do registro simbólico face aos outros.

Em “Elementos iniciais para uma crítica da formação profissional superior inspirada pelos dispositivos da Escola de Lacan e a formação do analista”, Roberto Henrique Amorim de Medeiros problematiza a formação do psicanalista. Para isso, o autor se pauta nos fundamentos da Escola Freudiana de Psicanálise, fundada por Lacan, enfatizando que a Escola deve propulsionar, inclusive, a formação de pesquisadores que se debrucem no problema da formação pautada no treinamento e reprodução técnica.

No que tange à discussão mais voltada para a clínica psicanalítica, há estudos sobre as relações entre a figura do canalha e do psicopata; entre transgressor e humor; entre anorexia e feminino; e ainda, entre esquizofrenia e criação artística.

Maria Josefina Santos destaca a posição canalha, tal como descrita por Lacan (1971-1972/2001; 1974/1993) e Miller (2001), como uma chave de leitura para se pensar a psicopatia. No artigo, que tem como título “Sobre o possível parentesco entre o canalha e o psicopata”, a autora não só busca depreender aspectos teóricos, mas, sobretudo, clínicos, considerando a advertência de Lacan de que se deve negar a psicanálise aos canalhas.

Em “A face transgressora da piada e do humor na vida e na obra de Freud”, Daniel Coelho e Sarah Figueiredo realizam um estudo sobre o humor em Freud, tanto em sua vida pessoal como em sua investigação teórica, evidenciando que o autor conferiu importância às piadas, sobretudo, por conta da sua dimensão transgressora.

Uma investigação a respeito da anorexia no campo feminino é realizada por Giovana Marochi e Maria Virginia Cremasco no trabalho “Entre Morrer e Existir: Da Falha na Inscrição do Autoerotismo aos Impasses da Passagem de Menina a Mulher na Anorexia”. As autoras interrogam se há alguma especificidade no funcionamento psíquico das mulheres que contribui para a manifestação da anorexia, como também, o que faz com que, por vezes, elas se deixem morrer.

No artigo “A esquizofrenia e a criação artística segundo Sabina Spielrein”, Fátima Caropreso apresenta as formulações de Sabina Spielrein (2014) a respeito do funcionamento psíquico, principalmente sobre a esquizofrenia, atentando para as relações desta experiência com os processos presentes no simbolismo e na criação artística.

Referências

FOUCAULT, M. A vontade de saber (1976). Rio de Janeiro: Graal, 1999. (História da sexualidade, 1).

FOUCAULT, M. O cuidado de si (1984). Rio de Janeiro: Graal, 1998a. (História da sexualidade, 3).

FOUCAULT, M. O uso dos prazeres (1984). Rio de Janeiro: Graal, 1998b. (História da sexualidade, 2).

FREUD, S. Nota sobre o bloco mágico (1925). São Paulo: Companhia das Letras, 2011. (Obras completas, 16).

JAKOBS, G. Direito penal do cidadão e direito penal do inimigo. In: JAKOBS, G.; MELIÁ, M. C. Direito penal do inimigo: noções e críticas. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. p. 19-50.

KOYRÉ, A. Estudos de história do pensamento científico. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2011.

LACAN, J. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. (O seminário, 11).

LACAN, J. O saber do psicanalista (1971-1972). Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2001. (O seminário, 19 – edição pirata).

LACAN, J. Televisão (1974). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

LACAN, J. Le sinthome (1975-1976). Paris: Seuil, 2005. (Le séminaire, 23).

MILLER, J. A. Fundamentos de la perversión. In: MILLER, J. A. Perversidades. Buenos Aires: Paidós, 2001. p. 15-38. (Colección Orientación Lacaniana).

SPIELREIN, S. A destruição como origem do devir (1912). In: CROMBERG, R. U. (Org.). Sabina Spielrein: uma pioneira da psicanálise. São Paulo: Livros da Matriz, 2014. p. 227-277.

Para ler os artigos, acesse

Ágora (Rio J.) vol.21 no.2 Rio de Janeiro May/Aug. 2018

Link externo

Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica – AGORA: www.scielo.br/agora

 

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BIRMAN, J. Psicanálise e atualidade: teoria, clínica e cultura [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2018 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2018/07/26/psicanalise-e-atualidade-teoria-clinica-e-cultura/

 

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