Poéticas da voz e do silêncio: estudo aproxima Luiz Gama e Machado de Assis

Tiago Seminatti, Assistente Editorial da Machado de Assis em linha – revista eletrônica de estudos machadianos, São Paulo, SP, Brasil

Em “Do ouvir e ler poesia: Luiz Gama e Machado de Assis”, Pedro Marques, da Universidade Federal de São Paulo, compara a obra poética de Machado de Assis com a de Luiz Gama de modo a mostrar que, no caso deste último, a produção tem como mola a ação política, servindo a poesia como meio a uma prática oratória; já em Machado, a poesia é predominantemente literária, mais voltada para sua dimensão escrita. Assim, afirma que os poetas apresentam “dois métodos artificiais ou técnicos”, ou seja, “o texto retórico valorizado enquanto teatro de discurso público; ou o texto literário entendido como experiência íntima de leitura individual.” (MARQUES, 2018, p. 30)

Marques empreende seu ensaio a partir do pressuposto de que predominam, nos textos poéticos, três modos de composição: oral, que é registro de produções orais e ligadas ao âmbito popular e voltadas para a escuta; o oratório, cuja escrita está voltada para a recitação e escuta; e o literário, escrito para ser lido. Nesse sentido, situa a poesia de Luiz Gama na segunda categoria, que pede a presença física da voz, e a de Machado de Assis na terceira, cuja leitura ocorre individual e silenciosamente.

Para fundamentar a diferenciação, analisa como Gama opera com traços da oralidade, embora dentro da lógica da escrita, objetivando estilizar a ação oratória, valor de distinção social no século XIX brasileiro.  Em leitura de “Lá vai verso!”, de Primeiras trovas burlescas (1859), o pesquisador estuda como a emulação de Os Lusíadas, de Camões, é crítica, alcança nível paródico e exerce importância político-cultural, principalmente com a introdução do dado africano e o desnudamento da violência da escravidão, por meio de um trabalho capaz de empreender cena declamatória diante de auditório.

Em Machado de Assis, por outro lado, Marques esclarece que predomina o modo literário na construção estilística dos versos, de minimizada eloquência e voltados para leitura privativa, conforme demonstra na leitura de “Versos a Corina”, de Crisálidas (1864), e de passagem do ensaio “A nova geração” (1869). O poeta, que em sua jornada inicia grandíloquo, ruma em direção ao literário sob a influência, por exemplo, do Tratado de versificação portuguesa (1851), de António Feliciano de Castilho (1884). Tal orientação, em século no qual a poesia loquaz é decisiva e apreciada, chama a atenção do pesquisador, que esmiúça a modernidade poética machadiana sem deixar de revelar o sentido da poesia de Gama (2000): “Daí a poesia de Luiz Gama (1830-1852), que pede a corporificação da voz, soar hoje menos natural se comparada à de Machado de Assis (1839-1908), que exige a concentração no livro, prática normalizada na sociedade letrada atual.” (MARQUES, 2018, p. 13).

Referência

ASSIS, M. de.  A poesia completa. Organização e fixação dos textos de Rutzkaya Queiroz dos Reis. São Paulo: Edusp; Nankin Editorial, 2009.

CASTILHO, A. F. de. Tratado de versificação portuguesa. Porto: Moré, 1874.

GAMA, L. Primeiras trovas burlescas e outros poemas. Organização e introdução de Ligia Fonseca Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Para ler o artigo, acesse

MARQUES, P. Do ouvir e ler poesia: Luiz Gama e Machado de Assis. Machado Assis Linha [online]. 2018, vol. 11, no. 24, pp.12-32, ISSN 1983-6821 [viewed 24 Octuber 2018]. DOI:  10.1590/1983-6821201811242. Available from: http://ref.scielo.org/vyjvr8

Link externo

Machado de Assis em Linha – MAEL: www.scielo.br/mael

 

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SEMINATTI, T. Poéticas da voz e do silêncio: estudo aproxima Luiz Gama e Machado de Assis [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2018 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2018/10/29/poeticas-da-voz-e-do-silencio-estudo-aproxima-luiz-gama-e-machado-de-assis/

 

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