Pesquisa garante longa vida para as línguas indígenas da Amazônia brasileira

Jimena Felipe Beltrão, Jornalista, Ph.D. em Ciências Sociais (University of Leicester, Reino Unido), editora científica do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, PA, Brasil

Silvia de Souza Leão, Jornalista, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Linguagens e Cultura da Universidade da Amazônia (Unama), Belém, PA, Brasil

Que a língua é um dos elementos da base da cultura e da identidade de um povo é inegável. Inegável, também, é o fato de que a língua representa um dos elementos mais dinâmicos de uma dada cultura. O uso e sua constante transformação fazem da língua elemento vivo representativo de distintos momentos históricos da vida de uma sociedade.

Para muitos, porém, mantê-la viva é um esforço contínuo exercido individualmente, mas que pode contar com a expertise de pesquisadores da área de Linguística. Fabrício Gãtagon Surui, biólogo do Centro Cultural Indígena Paiter Wagôh Pakob de Rondônia, fala da importância da pesquisa linguística para o seu povo e sua cultura: “Tive a oportunidade de trabalhar com o projeto de documentação e a linguagem do povo Surui, foi onde eu tive a oportunidade de aprender a entender a tonação das palavras. Existe umas palavras que são iguais para o povo Surui, por exemplo, assado, filho ou neto, velho. Você vai entender a diferença dessas palavras de acordo com a tonação que a gente procura entender através das pesquisas de linguística. A forma como essas palavras devem ser entendidas numa forma bem clara e através disso nós temos que preservar a linguagem que é bastante importante para a pesquisa e para o próprio povo falante da sua língua”. Assista a seguir o vídeo de Fabrício Fabrício Gãtagon Surui.

Assim é que em 1980, o Museu Goeldi estabeleceu um Centro de Culturas de Línguas Indígenas da Amazônia que registra e preserva línguas indígenas ameaçadas de desaparecer em razão da redução do número de indivíduos de uma determinada etnia ou em razão de que os mais jovens sob influência de costumes não-indígenas e no convívio mais e mais próximo com a sociedade não-indígena, deixam de aprender e usar a língua ancestral.

Ana Vilacy Galúcio, linguista do Museu Paraense Emílio Goeldi, explica que no final dos anos de 1980 havia uma preocupação muito grande sobre a extinção das línguas indígenas. E reconstitui a trajetória: “Foi quando o Museu Goeldi começou a fomentar a ideia de desenvolver aqui o Centro de Culturas de Línguas Indígenas da Amazônia que tinha como foco o estudo em campo, investigação em campo das línguas indígenas, com um fator preponderante de documentação, de registrar as línguas em uso, de valorizar o uso dessas línguas, e promover capacitação para que os indígenas falantes dessas línguas tivessem a formação técnica para contribuir na documentação técnica das suas próprias línguas. E um outro fator que foi decisivo para a atuação do Museu Goeldi foi a formação de estudantes, desde o nível de graduação com uma orientação técnica específica em como desenvolver o trabalho de campo na Amazônia”. A seguir o depoimento dos pesquisadores Ana Vilacy Galúcio e Hein van der Voort.

O Museu Paraense Emílio Goeldi, tem um acervo digital representativo de cerca de 80 línguas. Os produtos gerados pelos pesquisadores têm sido utilizados para incentivar e apoiar o processo de revitalização das línguas em risco de extinção. “A história do Museu Goeldi em desenvolver coleções científicas vai desde a fundação da instituição, a cerca de 152 anos atrás. Nas ciências humanas, especialmente, junto com as ciências biológicas. Mas na parte de línguas indígenas, especificamente, a gente começou na década de 1960 com os estudos focados nessa temática”, relembra Ana Vilacy Galúcio, do MPEG.

O primeiro desafio em uma pesquisa linguística é registrar a língua falada. Como não há um sistema de escrita, a etapa inicial consiste em gravar, ouvir e transcrever a língua. A fonologia é também um dos primeiros aspectos observados durante o trabalho científico. Ao coletar as informações, o pesquisador também está atento às questões da morfologia e sintaxe.

Vilacy Galúcio explica que foi a partir dos anos 2000 que se intensificou o registro e captação das línguas indígenas para fins de estudos científicos: “As línguas no Brasil, em geral, têm um número reduzido de falantes. São grupos pequenos que falam essas línguas na Amazônia. Muitas línguas têm uma quebra na transmissão, assim que as gerações mais novas não estão aprendendo, então isso as coloca em uma situação de risco de desaparecer. E, desde a década de 80, e mais precisamente do ano 2000, a consciência da comunidade acadêmica como um todo de que as línguas do mundo todo tinham um sério risco de desaparecer, sem que a gente pudesse estudá-las e conhecê-las melhor, criou uma demanda enorme e uma ação dos pesquisadores de documentar essas línguas, de gerar dados, informações sobre as línguas em uso. Então a gente intensificou trabalhos com gravação em áudio e vídeo, e esses projetos de documentação de forma mais sistematizada geraram um acervo enorme de dados dessas línguas”.

O trabalho de campo, com câmeras e gravadores gera produtos, como CDs e DVDs, que são devolvidos às comunidades, além de serem utilizados nas análises científicas.  Além disso, os próprios indígenas aprendem a utilizar as tecnologias disponíveis para documentar sua cultura em treinamentos realizados com os próprios pesquisadores ou em oficinas realizadas no Museu.

Um dos projetos em andamento trata da “Enciclopédia Digital da Língua dos Gavião e Suruí de Rondônia, com Foco na Cultura Tradicional”.  Com financiamento do Programa para a Documentação de Línguas Ameaçadas (Endangered Languages Documentation Programme), o objetivo é documentar, por meio de gravações de áudio e de vídeo, a língua e cultura tradicional dos Gavião de Rondônia e dos Suruí de Rondônia. Já são cerca 120 tópicos documentados, principalmente em vídeo. Cada gravação tem seus metadados (quem gravou, com quem, quando, sobre o que, etc.) registrados e cada gravação é traduzida para português. O projeto prevê acesso aos dados através da página do patrocinador e também a distribuição às duas comunidades indígenas. Um vídeo de divulgação do projeto falado em Suruí e legendo em português está disponível no Facebook <https://www.facebook.com/Enciclopedia-Digital-Paiter-Surui>

Um dos grandes propósitos da pesquisa sobre línguas indígenas em risco de extinção está, segundo informa Hein van der Voort, linguista do Museu Paraense Emílio Goeldi, “no conhecimento tanto das suas estruturas e relações históricas, quanto das suas conexões com as culturas indígenas e a história do povoamento do continente, conhecimento que emerge a partir do trabalho intensivo de descrição e documentação da língua. Hein fornece exemplo disso ao revelar que “a distribuição das famílias e troncos (agrupamentos de famílias da mesma origem) linguísticas no mapa da América do Sul é representativa de evidência sobre as migrações dos povos, de vários milhares de anos antes da chegada dos europeus. Para perguntas científicas sobre qualquer assunto relacionado à linguística, as línguas devem permanecer vivas.

Confira alguns dos artigos sobre Linguística publicados em 2018: Alves (2018), Carvalho (2018) e Freitas e Facundes (2018).

No prelo para 2019, há dois dossiês: o primeiro é intitulado “Novas perspectivas na terminologia de parentesco nas línguas Tupi e Caribe”; e, o segundo, “Partículas.”

Para ler os artigos, acesse

ALVES, F. C. Sujeito dativo em Canela. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. [online]. 2018, vol.13, n.2, pp.377-403. ISSN 1981-8122. [viewed 29 November 2018]. DOI: 10.1590/1981.81222018000200007. Available from: http://ref.scielo.org/rsjc8g

CARVALHO, F. O. de. The historical phonology of Paunaka (Arawakan). Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. [online]. 2018, vol.13, n.2, pp.405-428. ISSN 1981-8122. [viewed 29 November 2018]. DOI: 10.1590/1981.81222018000200008. Available from: http://ref.scielo.org/f6gyp2 

FREITAS, M. F. P. and FACUNDES, S. S. Considerações sobre a posse nominal em Apurinã (Aruák). Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. [online]. 2018, vol.13, n.3, pp.645-662. ISSN 1981-8122. [viewed 29 November 2018]. DOI: 10.1590/1981.81222018000300009. Available from: http://ref.scielo.org/tfykqy

Links externos

Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas – BGOELDI: www.scielo.br/bgoeldi

Dossiê “Variação em Línguas Tupi”: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issuetoc&pid=1981-812220150002&lng=en&nrm=iso

Boletim: www.editora.museu-goeldi.br/humanas

Boletim no Issuu: www.issuu.com/bgoeldi_ch

Facebook: www.facebook.com/boletimgoeldiCH

Sobre Ana Vilacy Moreira Galúcio

Ana Vilacy Moreira Galúcio

Ana Vilacy Moreira Galúcio

Doutora em Linguística pela University of Chicago. Atualmente é pesquisadora titular do Museu Paraense Emilio Goeldi, professora do Programa de Pós-graduação em Letras: Linguística e Estudos Literários (Mestrado e Doutorado), da Universidade Federal do Pará. Dedica-se à descrição, análise e documentação de línguas indígenas, com ênfase em documentação linguística e cultural, linguística histórica, morfossintaxe, fonética e fonologia, estudos do tronco tupi, especialmente das línguas das famílias Tupari e Puruborá. E-mail: avilacy@museu-goeldi.br

Sobre Fabrício Gãtagon Surui

Fabrício Gãtagon Surui

Fabrício Gãtagon Surui

Bacharel e Licenciatura em Ciências Biológicas pela Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal, Rondônia. Interesse em ecologia de primatas Amazônicos e conservação in situ das espécies, com ênfase em Ecologia. E-mail: fabriciosurui@gmail.com

Sobre Hein van der Voort

Hein van der Voort

Hein van der Voort

Doutor em Linguistica pela Universidade de Leiden. Atualmente é pesquisador titular do Museu Paraense Emílio Goeldi. Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Teoria e Análise Linguística, atuando presentemente nos seguintes temas: línguas indígenas do Brasil, descrição e comparação linguística, documentação linguística e etno-histórica. E-mail: hvoort@museu-goeldi.br

 

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

BELTRÃO, J. F. and LEÃO, S. S. Pesquisa garante longa vida para as línguas indígenas da Amazônia brasileira [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2018 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2018/11/29/pesquisa-garante-longa-vida-para-as-linguas-indigenas-da-amazonia-brasileira/

 

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