A clínica psicanalítica: entre entornos e contornos

Joel Birman, Professor do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil

O periódico Ágora – Estudos em Teoria Psicanalítica (v. 22, n. 1), é composto por 13 artigos que versam sobre diversos aspectos da clínica psicanalítica, sendo eles pensados a partir de diferentes vertentes teóricas. São lançadas novas luzes sobre temas presentes desde os primórdios da psicanálise como, por exemplo, os estados maníacos e esquizóides e a experiência do inconsciente e a do trauma. Além disso, discute-se as especificidades da abordagem psicanalítica em contraste com os discursos médico-psiquiátrico, sobretudo, no que tange à clínica com crianças. A experiência da adolescência também é abordada sob diferentes aspectos. Investiga-se, ainda, a noção de passagem ao ato, a subjetividade capitalista, bem como a construção de casos clínicos.

Em “O olhar e a prova do estrangeiro”, Rajaa Stitou trabalha a noção de estrangeiro, articulando-a à experiência do inconsciente (FREUD, 1919/1990). Considerando que este se apresenta como enigma, na medida em que revela algo que escapa ao sujeito, a autora sustenta que o estrangeiro é fonte de inventividade.

Tendo em vista a centralidade da noção de trauma no texto freudiano — e sua relevância para pensar a experiência clínica — Luciana Caruso de Azevedo e Eduardo Ponte Brandão discutem, em “Trauma e a transmissão psíquica geracional”, a relação entre trauma e transmissão, sublinhando que os efeitos dos traumas podem ser transmitidos pelas gerações.

Um estudo sobre a esquizoidia, a partir da teoria das relações de objeto, é realizado por Gabriel Cunha Nunes e Carlos Augusto Peixoto Junior, em “A experiência esquizoide segundo Fairbairn e Guntrip”.  Contrastando as colaborações desses dois autores, busca-se analisar as falhas ocorridas no desenvolvimento subjetivo que contribuem para as tendências esquizóides.

Partindo de diferentes concepções teóricas a respeito dos “estados maníacos” — em especial em Freud e Melanie Klein — Julio Vertzman e Nelson Ernesto Coelho defendem que a tentativa de compreendê-los a partir da lógica da melancolia (FREUD, 1917/1980) é problemático. Neste sentido, sustentam, em “Mania: um bairro pouco visitado”, a importância de se debruçar em aspectos que caracterizam essas vivências e que são, comumente, negligenciados.

No artigo “A criança entre a subjetividade dos pais e o ideal médico-científico”, Daniela Paula do Couto e Júlio Eduardo de Castro analisam como o processo de subjetivação da criança é influenciado pelas figuras parentais e pelo ideal médico-científico. Considerando que este toma a criança como um objeto de intervenção, os autores o contrastam com a psicanálise que, por sua vez, escuta a criança como sujeito, supondo que ela tem um saber sobre seus sintomas.

A clínica psicanalítica com crianças também é tematizada no artigo “‘Acordar’ para o simbólico: uma investigação psicanalítica sobre os efeitos de um ateliê musical para crianças com TID”, no qual Alexandra Tavares, Júlia Soares-Vasques, Mae Soares da Silva et al. sustentam, a partir de uma pesquisa realizada com crianças diagnosticadas com Transtornos Invasivos do Desenvolvimento, que a música —conjuntamente com a psicanálise — contribui para o desenvolvimento da linguagem e da vinculação social.

Em “A prática das escarificações em moças: uma abordagem psicanalítica das questões com a feminilidade”, Ana Augusta Rodrigues de Miranda e Lucas Protti discutem como a psicanálise pode contribuir para a compreensão da prática de escarificações em moças, por exemplo, a partir do conceito de “pulsão de morte” (FREUD, 1920/2006). Para isso, os autores analisam algumas situações clínicas através de duas chaves de leitura: a sexualidade feminina e a relação mãe-filha.

Em “A relação entre conceito e objeto na obra de Lacan e uma hipótese sobre a adolescência”, Daniela Dutra Viola investiga a função do pensamento lógico na adolescência a partir da articulação entre conceito e objeto no pensamento lacaniano (LACAN, 1962-1963/2005).

A experiência da adolescência também é abordada no artigo “Amarração do quarto elo borromeano na clínica adolescente: contingências da paternidade”, onde Carla Capanema e Angela Vorcaro sustentam a hipótese de que a paternidade pode exercer a função de nominação para o adolescente, produzindo uma amarração entre os registros Real, Simbólico e Imaginário.

Em “A Garrafa de Klein como Método para Construção de Casos Clínicos em Psicanálise”, Christian Dunker e Tiago Ravanello propõe uma modalidade de construção de caso clínico pautada na figura tipológica “Garrafa de Klein”, partindo do princípio de que um caso clínico é composto por, no mínimo, duas séries transformativas e até quatro modalidades temporais. Os autores concluem que diferenciadas formas de amarração narrativa possibilitam distinguir estratégias construtivas distintas.

No artigo “As apresentações de paciente sob a lógica dos discursos”, Cristiana Ferreira e Jésus Santiago investigam o dispositivo da prática de apresentação de pacientes, salientando suas inscrições em diferentes discursos e as implicações disso no campo da técnica e no próprio objetivo desta prática.

Em “A homologia entre mais-valia e mais-de-gozar nas bases da subjetividade capitalista”, Daniel Pereira Silva parte da homologia entre a mais-valia e o mais-de-gozar, proposta por Lacan (1968-1969/2008) para pensar sua incidência na subjetividade capitalista, o que implica em investigar as relações entre valor, dinheiro e fetiche.

Por fim, o artigo “O Ato Lacaniano e a passagem ao ato: estudo de caso dos efeitos subjetivos do crime num criminoso”, Sandie Iffli, Christelle Andrau e Laetitia Petit analisam as diferenças entre os conceitos de ato e de passagem ao ato a partir de uma abordagem lacaniana. A partir disso, os autores sustentam que o ato criminoso pode ser entendido como uma tentativa do sujeito se reorganizar estruturalmente.

Referências

FREUD, S. Luto e melancolia (1917). Rio de Janeiro: Imago, 1980. (Ed. standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 14).

FREUD, S. L’inquiétante étrangeté et d’autres essais (1919). Paris: Gallimard, 1990.

FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). Rio de Janeiro: Imago, 2006. (Ed. standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 18).

LACAN, J. De um outro ao outro (1968-1969). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. (O seminário, 16).

Para ler os artigos, acesse

Ágora (Rio J.) vol.22 no.1 Rio de Janeiro jan./abr. 2019

Link externo

Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica – AGORA: www.scielo.br/agora

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

BIRMAN, J. A clínica psicanalítica: entre entornos e contornos [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/05/22/a-clinica-psicanalitica-entre-entornos-e-contornos/

 

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