Os ecos do regime autoritário português no seio da ditadura militar brasileira (1968-1974)

Maria Thereza Magalhães Gomes de Santana, Estagiária voluntária na Varia Historia, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil

Varia Historia (v. 35, n. 68), apresenta o artigo “Marcello Caetano no (Jornal do) Brasil: Repercussões da direita portuguesa na ditadura militar (1968-1974)” de Francisco Palomanes Martinho, professor Livre Docente de História Ibérica junto ao Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP) e autor também de “Marcello Caetano. Uma biografia” (MARTINHO, 2016). O artigo analisa a presença de Marcello Caetano, último ditador do Estado Novo português (1933-1974), no Jornal do Brasil, importante órgão da imprensa brasileira.

O artigo desenvolve-se em duas partes. A primeira delas busca refletir sobre as repercussões e debates em torno da escolha de Marcello Caetano para a sucessão de Antonio de Oliveira Salazar, figura que esteve à frente do governo português por mais de 40 anos. A segunda parte, trata das reverberações, no Brasil, da crise portuguesa e das críticas proferidas ao ditador no fim do Estado Novo.

No que tange à forma como a indicação e a escolha de Marcello Caetano como sucessor de Salazar foi noticiada pelo JB, Martinho percebe que as preocupações mais marcadamente estampadas naquele jornal diziam respeito à liberalização do regime salazarista e à centralidade da questão colonial frente à crise sucessória. O jornal afirmava que a chegada de Caetano ao poder poderia implementar a liberdade de imprensa em Portugal e encabeçar certa flexibilização na economia – no momento ainda excessivamente estatista –, mas haveria pouca margem de manobra para alterar o colonialismo português. Martinho conclui que, a partir das expectativas presentes no JB,

as mudanças em curto prazo seriam poucas, mantendo, sobretudo a guerra colonial a fim de não criar dissenções junto ao Exército, e a estrutura do regime. Das mudanças esperadas, destaque para a liberdade de imprensa e certo afastamento da política econômica anterior. (…) Deste modo, o texto, ainda que esperançoso quanto à possibilidade de algumas mudanças, reconhecia que elas seriam, de imediato, bastante superficiais. (MARTINHO, 2019, p. 643-644)

Entretanto, nem mesmo as melhores expectativas se confirmaram. Ao afirmar que “as esperanças de reformas liberalizantes ou de alteração da política ultramarina com Marcelo Caetano resultaram em profunda frustração” (MARTINHO, 2019, p. 644), Martinho volta sua análise para as vésperas do Golpe de Estado de 1974, que derrubou o Estado Novo português. Neste momento, o JB noticiou a crise política e militar em Portugal e o agravamento – em âmbito nacional e internacional – da questão colonial, denunciando a utilização de armas químicas por parte do Exército de Lisboa e a intransigência portuguesa em não aceitar a autodeterminação dos povos.

Neste sentido, embora o JB não previsse o Golpe de Estado do dia 25 de abril, em suas páginas já estava marcado o crescente isolamento da ditadura lusa e, inclusive, já havia sido aventada “a possibilidade de um golpe de Estado protagonizado por correntes favoráveis à perpetuação da política ultramarina portuguesa” (MARTINHO, 2019, p. 649).

Já caminhando para o fim de seu artigo, o autor conclui que as matérias e editoriais no Jornal do Brasil sobre Marcello Caetano nos períodos analisados guardam certa unidade e padrão. Martinho ressalta que, tanto em sua posse em 1968, quanto em sua queda em 1974, as críticas ao regime e à figura de Caetano giravam em torno da manutenção das guerras na África e ao não reconhecimento da possibilidade das independências dos países africanos. Vez ou outra, se falava em democracia e necessidade de eleições.

Quanto a essa discreta menção à democracia e às eleições, ressalta-se a coincidência das duas datas com importantes eventos e momentos da ditadura civil-militar brasileira, quais sejam: o início do endurecimento da ditadura, com a publicação do AI-5 em 1968, e a posse do general Ernesto Geisel, em 1974, que deu início ao processo de transição lenta, gradual e segura que marcou a passagem da ditadura para a democracia no Brasil. Neste ponto, o autor afirma que “É também de salientar que em plena ditadura militar a imprensa fizesse, ao menos no breve período aqui tratado, uma oposição clara e aberta ao regime português” (MATINHO, 2019, p. 656).

Uma versão inicial deste artigo foi apresentada no Colóquio “Pensar las derechas en America Latina en el siglo XX” realizado no Campus da Universidade Federal de Minas Gerais entre 20 e 22 de agosto de 2018. Na ocasião, o Canal Varia Historia entrevistou três participantes do colóquio: Gerardo Caetano, professor da Universidad de la República (Uruguai), Ernesto Bohoslavsky, professor da Universidad Nacional General Sarmiento (Argentina) e Stéphane Boisard da Université de Toulouse (França).

Convidamos os leitores a acessarem as entrevistas no nosso canal no YouTube

Referência

MARTINHO, F. C. P. Marcello Caetano, uma biografia (1906-1980). Lisboa: Objectiva, 2016.

Para ler o artigo, acesse

MARTINHO, F. P. Marcello Caetano no (Jornal do) Brasil: Repercussões da direita portuguesa na ditadura militar (1968-1974). Varia hist., v. 35, n. 68, p. 631-660, 2019. ISSN: 0104-8775 [viewed 9 June 2019]. DOI: 10.1590/0104-87752019000200010. Available from: http://ref.scielo.org/w4nq7j

Link externo

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Site Varia Historia – www.variahistoria.org

Canal Varia Historia – https://www.youtube.com/channel/UCD4EbWEXNyTAirlemvy3UPw

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SANTANA, M. T. M. G. Os ecos do regime autoritário português no seio da ditadura militar brasileira (1968-1974) [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/07/24/os-ecos-do-regime-autoritario-portugues-no-seio-da-ditadura-militar-brasileira-1968-1974/

 

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