Covid-19, Desigualdades e Privilégios na Educação Profissional Brasileira

Hellen Vivian Moreira dos Anjos, professora de Didática e Fundamentos da Educação no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Norte de Minas Gerais  – Campus Avançado Janaúba, doutoranda em Desenvolvimento Social na Universidade Estadual de Montes Claros e integrante da Rede Internacional e Interdisciplinar sobre Desigualdades, Janaúba, MG, Brasil.

Antônio Dimas Cardoso, professor e orientador no Departamento de Ciências Sociais e Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Social da Universidade Estadual de Montes Claros e integrante da Rede Internacional e Interdisciplinar sobre Desigualdades, Montes Claros, MG, Brasil.

O artigo Covid-19, Desigualdades e Privilégios na Educação Profissional Brasileira trata do acesso às tecnologias educacionais no contexto da pandemia da Covid-19, com foco no problema das desigualdades sociais na Educação Profissional, considerando a excepcionalidade de um momento histórico marcado pelas crises sanitária, econômica e social sem precedentes no mundo contemporâneo.

O nosso intuito é problematizar a situação de precariedade dos estudantes matriculados no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Norte de Minas Gerais (IFNMG), condicionada pela crise ao ensino remoto, durante o período letivo de 2020, e compreender como as características ligadas à origem social e aos fatores culturais da desigualdade revelam-se nas condições e expectativas dos estudantes em tempos de pandemia da Covid-19, analisando até que ponto os efeitos dessas desigualdades ou da diferenciação social divide essa instituição de ensino a partir das assimetrias identificadas. Informações oficiais de um relatório técnico produzido pela instituição mostram que o precário acesso pelos estudantes às ferramentas tecnológicas, notadamente no ápice da pandemia, foi assimétrico, aflorando desigualdades e marginalização social.

O trabalho é um dos resultados da pesquisa de doutoramento em Desenvolvimento Social de Hellen Vivian Moreira dos Anjos, orientada pelo professor Antônio Dimas Cardoso, publicado no periódico Educação e Realidade, vol. 47 (2022) e discute, a partir da análise do relatório técnico do IFNMG, as condições e expectativas dos discentes dos cursos presenciais para realização de atividades não presenciais mediadas por tecnologias neste contexto de pandemia da Covid-19.

Parte-se do pressuposto de que a pandemia não atinge todos os estudantes matriculados na instituição de Educação Profissional na mesma proporção. Há uma assimetria nesse contexto emergencial, com ênfase para a inacessibilidade daqueles desprovidos de recursos tecnológicos básicos. No entanto, podemos afirmar que o problema material, de acesso às tecnologias educacionais, é associado à esfera dos bens simbólicos, que interfere nas expectativas e formas de participação dos estudantes.

As formas de capital, como o capital cultural, podem ser discutidas considerando diferenças qualitativas no comportamento dos estudantes, à luz de nossa interpretação dos dados presentes no relatório produzido pelo IFNMG. No caso, implicam a capacidade de os estudantes se distinguirem entre si e no status adquirido, e pela maior acessibilidade e facilidade de assimilação mesmo em condições sociais adversas, como ocorreu em período de distanciamento social. Isso cria uma situação de vantagem para uns, em prejuízo àqueles que ficaram para trás, durante a pandemia da Covid-19.

Um homem a esquerda e uma moça do lado direito. No fundo árvores secas, um portão de madeira e chão de terra. O homem entrega uma caixa com tablet para a moça. Ambos usam máscaras de proteção contra covid-19.

Imagem: Arquivo Comunicação IFNMG

Figura 1. Entrega de tablet pelo IFNMG à estudante na zona rural de Araçuaí – MG, em 2020.

Os resultados da análise demonstram que, mesmo que se trate de uma instituição pública de ensino, existem assimetrias em relação às condições sociais, técnicas, familiares e psicológicas entre os estudantes, o que demonstra que, para alguns, dar continuidade aos seus estudos durante a pandemia configura-se como um sobre-esforço, sem poder usufruir das mesmas oportunidades e possibilidades dos demais providos de recursos tecnológicos básicos, como se fosse um problema de mérito individual e de desempenho escolar.

Ao situarmos a nossa análise na experiência do cotidiano de estudantes do IFNMG frente à pandemia da Covid-19, para além do mero recenseamento, torna-se possível detectar uma apropriação diferenciada do capital cultural. Às desigualdades sociais, a escola acaba por acrescentar suas próprias desigualdades. O fenômeno das desigualdades é estrutural e historicamente contingente. No entanto, a especificidade da pandemia provocada pelo Novo Coronavírus, na maior parte do ano de 2020, deu visibilidade social a cenários dos mais complexos e multifacetados do mundo moderno.

A pandemia incidiu decisivamente no local, nas ruas, nas habitações, no cotidiano dos indivíduos. Mas as atividades escolares tornaram-se um dos símbolos emblemáticos da premente necessidade de distanciamento social. Nesse contexto dramático, as instituições educacionais acabam por ser instâncias catalisadoras da reprodução de desigualdades sociais, cada vez mais multiplicadas (Dubet, 2003). Além disso, é sabido que as desigualdades levam à perda da autoestima e à consciência infeliz – o que pode ser compreendido como um dos sintomas da desmotivação dos estudantes durante essa pandemia da Covid-19.

Foi no sentido de compreender como as características ligadas à origem social e aos fatores culturais da desigualdade revelam-se nas condições e expectativas dos estudantes da Educação Profissional brasileira em tempos de pandemia que dirigimos o nosso olhar. Refletir sobre os efeitos das desigualdades ou da diferenciação social é imprescindível para perceber privilégios onde muitos percebem apenas oportunidades, acesso e universalização.

Ao analisar o relatório técnico elaborado pelo IFNMG, partimos de algo concreto, ou seja, um compilado de informações importantes que nos deram um panorama, mesmo que limitado, de como se encontram os principais envolvidos e, em muitos casos, vítimas desse processo: os estudantes de estratos vulneráveis socialmente. As condições de existência não são dadas da mesma maneira a todos os indivíduos. Por isso, a adoção de modalidades e estratégias de ensino remoto pode revelar privilégios de classe e pode, ainda, não se configurar como uma estratégia acertada para a Educação Profissional brasileira.

O grande desafio para esta modalidade da Educação, especialmente para os Institutos Federais, será pensar sobre qual é o papel da escola na vida comunitária e como as instituições públicas de ensino podem atuar no enfrentamento das desigualdades de todas as ordens. Se a pandemia nos impôs um novo normal, o que se espera é que o nosso retorno, seja presencial ou virtualmente, se dê com base em outros paradigmas.

Referências

BOURDIEU, P. and PASSERON, J.C. A Reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

BOURDIEU, P. and PASSERON, J.C. Os Herdeiros: os estudantes e a cultura. 2. ed. Florianópolis: Editora da UFSC, 2018.

DUBET, F. As Desigualdades Multiplicadas. Ijuí: Unijuí, 2003.

IFNMG. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Norte de Minas Gerais. Pró-Reitoria de Ensino. Relatório técnico sobre as condições e expectativas dos discentes do IFNMG frente aos estudos remotos ou a distância durante o período de distanciamento social ocasionado pela pandemia da Covid-19. Montes Claros: IFNMG, 2020.

Para ler o artigo, acesse

ANJOS, H.V.M. and CARDOSO, A.D. Covid-19, Desigualdades e Privilégios na Educação Profissional Brasileira. Educ. Real. [online]. 2022, vol. 47, e109351 [viewed 10 August 2022]. https://doi.org/10.1590/2175-6236109351. Available from: https://www.scielo.br/j/edreal/a/YmRmyC7rgMcVrtwWnRHgNxc/

Links externos

Portal Instituto Federal do Norte de Minas Gerais: https://www.ifnmg.edu.br/

Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Social – Unimontes: https://www.posgraduacao.unimontes.br/ppgds/

Página Institucional – Educação & Realidade: https://seer.ufrgs.br/educacaoerealidade

Educação & Realidade – EDREAL: https://www.scielo.br/j/edreal/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

ANJOS, H.V.M. and CARDOSO, A.D. Covid-19, Desigualdades e Privilégios na Educação Profissional Brasileira [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2022 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2022/08/10/covid-19-desigualdades-e-privilegios-na-educacao-profissional-brasileira/

 

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