Psicanálise, cinema e adolescência: é possível profanar a educação?

Rose Gurski, Psicanalista, Professora do Programa de Pós-Graduação de Psicanálise: clínica e cultura (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil

Jane Fischer Barros, Psicóloga, Professora de graduação do IPA (RS), Porto Alegre, RS, Brasil

Stéphanie Strzykalski, Psicóloga, Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise, Educação e Cultura (NUPPEC/UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil

O artigo “O enlace entre psicanálise, educação, cinema e a experiência adolescente”, publicado no periódico Educação & Realidade (v. 44, n. 2), teve como direção da pesquisa discutir com os jovens o que se produzia no encontro entre eles, as narrativas imagéticas e a escuta psicanalítica das pesquisadoras. Ao profanar o uso utilitário, escolarizado e didatizante do cinema, apostou-se na abertura ao inusitado que poderia surgir por meio do convite aos adolescentes que deslizassem das produções cheias de certeza aos sentidos plurais.

No que se refere à adolescência, as pesquisadoras acreditam que a utilização de filmes relacionados ao que se problematiza nesse tempo de passagem pode configurar um dispositivo potente de intervenção nas bordas da saúde mental e da educação (GURSKI; STRZYKALSKI, 2018). A criação de um espaço de escuta e intervenção com jovens que, além de terem acesso limitado aos bens culturais, dentre eles o cinema, muitas vezes, carece de espaços para falar de si e das questões que os inquietam, parece um caminho potente a fim de esburacar o cotidiano frequentemente rígido da instituição escolar.

Sustentando-se na escuta psicanalítica, o Cine na Escola funcionou como um outro lugar de transmissão e de relação com a palavra que não deixou de acolher os modos de vida que os adolescentes tem experimentado, mas que entende que esses não se constituem como verdades absolutas e imutáveis desses sujeitos no laço social.

Para Agamben (2007), uma nova experiência da palavra se dá para além dos fins comunicativos da linguagem, se dá a partir dessa polissemia, da brincadeira com as palavras, do jogo, da profanação, de um outro (novo) uso. Para Agamben (2007, p. 67) “[…] as formas desse uso só poderão ser inventadas de maneira coletiva”, ou seja, “[…] fazer com que o jogo volte à sua vocação puramente profana é uma tarefa política” (p. 60). Trabalhar com o cinema pode contribuir para trilhar este caminho, ou melhor, para a construção de certa metodologia de intervenção, na medida em que possibilita a convocação do outro, da profanação da palavra, da inscrição de alguma espécie de novo. Para além da ilustração e da representação, a narrativa fílmica instiga a produção de outro texto a partir de uma sequência de imagens. A irredutibilidade entre imagem e linguagem, entre o que se vê e o se diz, pode abrir espaços potentes de criação, ao invés de repetição e fechamento de sentidos (BARROS; GURSKI, 2013).

Com o Cine na Escola, por meio de uma certa profanação de lugares e saberes, apostou-se na possibilidade de que os adolescentes pudessem dar à palavra a dimensão de plenitude, no sentido que a Psicanálise dá à palavra plena, a palavra escutada, a partir da dimensão do inconsciente: que dos enunciados possam surgir as enunciações, aquilo que vai para além do que se quer dizer. As pesquisadoras afirmam ainda que a criação de novos dispositivos de intervenção passíveis de incluir a dimensão da experiência e da desconstrução dos sentidos, daquilo que os jovens recebem nas diferentes dimensões das transmissões, é o que pode viabilizar a produção de efeitos de sujeito, em seus processos de subjetivação. Por fim, acreditam que a construção e experimentação de dispositivos como esse, no campo da educação, pode produzir giros e movimentações passíveis de qualificar o lugar do sujeito adolescente na escola e na vida.

Referências

AGAMBEN, G. Profanações. São Paulo: Editorial Boitempo, 2007.

BARROS, J. and GURSKI, R. A experiência do cinema na adolescência: novas nuances, outros olhares. In: SIMPOSIO INTERNACIONAL INFANCIA, EDUCACIÓN, DERECHOS DE NIÑOS, NIÑAS Y ADOLESCENTES, 4., 2013, Mar del Plata. Actas… Mar del Plata: Universidade Nacional de Mar del Plata, 2013. p. 107.

GURSKI, R. and STRZYKALSKI, S. A pesquisa em psicanálise e o “catador de restos”: enlaces metodológicos. Ágora (Rio J.), v. 21, n. 3, p. 406-415, 2018. ISSN: 1516-1498 [viewed 17 July 2019].  DOI: 10.1590/s1516-14982018003012. Available from: http://ref.scielo.org/tk2hgr

Para ler os artigos, acesse

GURSKI, R.; BARROS, J. F.; STRZYKALSKI, S. O Enlace entre Psicanálise, Educação, Cinema e a Experiência Adolescente. Educ. Real., v. 44, n. 2, e85002, 2019. ISSN: 0100-3143 [viewed 17 July 2019]. DOI: 10.1590/2175-623685002. Available from: http://ref.scielo.org/nsb63j

Links externo

Educação & Realidade – EDREAL: www.scielo.br/edreal/

www.ufrgs.br/nuppec

Facebook: www.facebook.com/nuppec

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

GURSKI, R., BARROS, J. F. and STRZYKALSKI, S. Psicanálise, cinema e adolescência: é possível profanar a educação? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/08/19/psicanalise-cinema-e-adolescencia-e-possivel-profanar-a-educacao/

 

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Post Navigation