Encontros marcados pelo outro é debatido pelo periódico Ágora

Joel Birman, Editor de Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, Professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

O primeiro número de 2017 de Ágora: Estudos em Teoria Psicanálise é composto por treze artigos que, por meio de diferentes ângulos e coordenadas teóricas, versam sobre uma temática comum, a saber, a relação do sujeito com o outro, ou ainda, o encontro com a alteridade. De modo geral, essas questões são trabalhadas a partir de três eixos distintos: o outro como condição da constituição do sujeito, da memória e dos fantasmas; os limites que se impõe no encontro com o outro; o encontro com o outro na relação transferencial.

No primeiro eixo, são abordados os componentes psíquicos que atravessam os vínculos familiares — como a transmissão psíquica, a filiação adotiva e a transgeracionalidade — e o encontro do sujeito com o Outro e com a linguagem.

Em “A transmissão psíquica do fantasma patológico enquanto objeto transgeracional: uma análise do filme ‘Volver’”, Anna Thereza Abdala, Caio Próchno e Luiz Carlos Avelino Da Silva exploram os processos de transmissão psíquica, dando ênfase a constituição do fantasma patológico enquanto objeto transgeracional em casos de incesto.

Claudine Veuillet Combier e Gabriel Binkowski, em “Adoção e mito: os destinos do ‘mito familiar’ na cena da família contemporânea — Estudo a partir de um caso clínico de adoção na França atual” trabalham as questões psíquicas conjugais e familiares mobilizadas no momento da filiação adotiva, no contexto francês.

Em “A criança entre sujeito e objeto”, Alain Vannier aborda duas dimensões da criança para o Outro primordial, a saber, o sujeito e o objeto. Para tanto, o autor discute como que, por um lado, a criança ocupa um lugar de objeto para a mãe, mas, por outro, a mãe “supõe o sujeito” em seu filho.

O lugar da criança como sujeito também é tematizado no artigo “O desejo e a aprendizagem da leitura e da escrita” no qual Martha Hoppe e Maria Folberg realizam um estudo sobre o encontro da criança com o mundo da linguagem falada e escrita. Considerando que a escola e a família demandam que a criança mude de posição, as autoras discutem, a partir de Lacan, como que a criança é desafiada a romper com o imaginário, lançando-se na existência simbólica.

Considerando que os seres falantes são possuidores de um corpo de gozo afetado pela linguagem, Andréa Campos Guerra também discute o encontro com o Outro no trabalho “Impacto clínico da topologia borromeana no estruturalismo lacaniano”. Tomando o caso de Joyce como ponto de partida, a autora extrai os efeitos, para a clínica psicanalítica, das três modalizações da relação entre real e linguagem ao longo da obra de Jacques Lacan, como também, da incidência da teoria dos nós para a doutrina estruturalista.

A relação do sujeito com a alteridade também é abordada por Sergio Prudente e Miriam Debieux no artigo “À guisa de uma compreensão psicanalítica sobre a responsabilidade”. Os autores pensam o supereu como uma instância política que internaliza uma lei e, além disso, defendem a possibilidade de se delinear uma teoria da responsabilidade a partir da teoria do tempo lógico de Jacques Lacan.

A questão da relação e da lógica, no pensamento de Jacques Lacan, também é trabalhada no artigo de Paulo Vidal e Angélica Bastos, intitulado “O passo do Parmênides”, cujo objetivo é mostrar como Lacan procedeu a uma leitura do Parmênides de Platão para elaborar uma lógica pautada na não relação e independente de uma ontologia. Para isso, os autores discutem a função de nomeação na cadeia borromeana e a não relação sexual, como também, a relação e a não relação entre Ser e Um, pensadas em termos de sujeito barrado, significante e gozo.

No segundo eixo de discussão, a relação com o outro é pensada em sua dimensão fundamentalmente pulsional e a partir dos limites que se impõe neste encontro com o outro. Um olhar sobre a crueldade é proposto por Cesar Kiraly em seu artigo “Freud e Lobato: metafísica política dos personagens”, no qual o autor, a partir da publicação de Lobato “N’O Saci-Pererê: resultado de um inquérito”, pensa uma metafísica política do personagem, articulando-a com o pensamento do Freud, sobretudo, sobre a guerra.

Em “Corpo pulsional e seus desvarios: voz e corpo anorético”, Ana Maria Rudge e Betty Fuks discutem a relação entre anorexia, pulsão de morte e supereu, trabalhando a hipótese de que a  anorexia almeja abrir um furo no Outro  e discutindo como a  pulsão de morte é um obstáculo para o psicanalista.

O corpo e a relação com o outro também é discutida por Marie-Victoire Chopin em seu artigo “Exibindo-se: a função de espelho do psicólogo na cirurgia digestiva aguda”. Partindo da clínica com pacientes diagnosticados com a doença de Crohn e internados em cirurgia digestiva aguda, a autora questiona os fundamentos psíquicos de uma falha das funções do Eu-pele. A autora trabalha a hipótese de que a falta de distância em relação a outro está inscrita em um registro narcisista no qual o sujeito busca o olhar reparador do outro.

O narcisismo e os limites entre eu e o outro também é tematizada no artigo “Acerca da Metapsicologia dos Limites”, onde Nelson Coelho Junior e Camila Junqueira delineiam — a partir das formulações de Freud, Winnicott, Green e Brusset — uma hipótese etiológica para as patologias-limite, situando-as no interior das neuroses narcísicas, mas diferenciando-as das melancolias.

Um terceiro eixo de discussão sobre a relação com a alteridade diz respeito ao campo da transferência no processo analítico. No artigo “Pesquisa em psicanálise: questões a partir do transitivismo com pacientes esquizofrênicos”, Luciane Loss Jardim discute o fenômeno do transitivismo, que ocorre na transferência com pacientes esquizofrênicos, na tentativa de pensar a direção de tratamento com esses pacientes.

No artigo de Mônica Lima, intitulado “O grafo do ato analítico”, a autora analisa o grafo do ato analítico apresentado por Lacan e o esquema de Klein (cujas operações são: operação alienação, operação verdade e operação transferência), para demonstrar como Lacan se apropriou deste esquema, articulando-o ao percurso da análise e aos termos do cogito cartesiano: ser e pensamento.

Para ler os artigos, acesse

Ágora (Rio J.) vol.20 no.1 Rio de Janeiro Jan./Mar. 2017

Link externo

Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica – AGORA – www.scielo.br/agora

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

BIRMAN, J. Encontros marcados pelo outro é debatido pelo periódico Ágora [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2017 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2017/06/23/encontros-marcados-pelo-outro-e-debatido-pelo-periodico-agora/

 

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