Além do físico: mudanças ao ambiente e construção de paisagens culturais

Jimena Felipe Beltrão, Jornalista, Ph.D. em Ciências Sociais (University of Leicester, Reino Unido), editora científica do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, PA, Brasil

Silvia de Souza Leão, Jornalista, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Linguagens e Cultura da Universidade da Amazônia (Unama), Belém, PA, Brasil

A paisagem pode conter vestígios de acontecimentos culturais, sociais e naturais. Esses aspectos, vistos de forma integrada, onde humanidade e natureza possuem suas histórias entrelaçadas, contêm efeitos cumulativos da longa duração dessas relações. Tanto grupos indígenas como grupos pastoris têm sua forma de adaptação do homem ao meio, ao longo do tempo. Um dos objetivos da ecologia histórica é analisar as relações dos seres humanos com os ambientes ao longo do tempo por meio das paisagens, investigando a interação entre ambos.

Assim, verifica-se como a humanidade tem alterado o ambiente e como este modifica as atividades humanas. Para esta área, não é relevante se as ações humanas sobre o ambiente foram feitas de forma consciente ou inconsciente, pois o que se pretende investigar é como essas interações vão formando as paisagens, que são, portanto, as manifestações materiais dessas interações e, em consequência disso, apresentam um processo de alterações cumulativas, conforme mudam as relações entre seres humanos e ambiente.

Os grupos pastoris da porção andina do noroeste argentino Acha (2018), especializados no tráfego de longas distâncias e em animais resistentes ao frio e à altitude, mantiveram-se nas serras desde o período pré-colonial, convivendo com as mudanças que se estabeleceram a partir do avanço incaico, hispânico e capitalista, e persistindo, preservando a sua autonomia e memória espacial, dentro do possível. Nas regiões de maior altitude, e mais distantes dos centros urbanos, pode-se destacar a persistência de muitos hábitos e tradições dos tempos pré-hispânicos.

Já para a paisagem de Carajás, no Estado do Pará, estudá-las, então, possibilita compreender que elas são o resultado de encontros entre fatores naturais e culturais, devendo ser lidos por meio de uma metodologia própria, a qual envolve múltiplas abordagens, que vão desde a Arqueologia, passando pela História, pela Etnografia e pela Etnoarqueologia. “[…] A paisagem, portanto, está em contínuo processo de formação.”, explica Tallyta (2018, p. 347) doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), Mestre em Antropologia e Arqueologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que, atualmente, desenvolve pesquisa sobre as ocupações indígenas no período pré-colonial em Serra Leste de Carajás e sobre o garimpo de Serra Pelada, no Pará. A seguir assista o vídeo de Tallyta Suenny Araújo da Silva.

 

 

No entanto, para grupos como os pastoris, o uso recorrente de certas áreas passa a ter importância fundamental para a elaboração da memória e da noção de pertencimento a determinados lugares e territórios.

[…] As paisagens tornam-se culturais e os seus marcos e as suas características, índices de identidade. Portanto, compreender os diferentes aspectos da mobilidade também é uma forma de entender como os grupos ordenam-se dentro do espaço, dando significado a ele a partir de suas próprias percepções a respeito do mundo que os cerca e sobre si mesmos. (ACHA, 2018, p. 73)

E o que explica Milena Acha, no artigo “Os processos da paisagem pastoril: caracterizando lugar e movimento”.

Habitus — O processo de simbolização implica, primeiramente, uma aproximação da pessoa à paisagem e, segundo uma relação de identidade do grupo em relação ao meio, pois as ideologias e as formas culturais de ver o mundo têm um papel fundamental na simbolização da paisagem, relata Acha (2018). A mobilidade dos pastores corresponde principalmente a situações nas quais estes se deslocam com o rebanho para acessar os recursos, apresentando movimentos mais longos durante a estação de estiagem em comparação à chuvosa, visando melhor aproveitamento deste ambiente árido.

Um dos aspectos que fez com que essas populações se tornassem transumantes pode ser definido pelo movimento vertical, o qual compreende grupos que se deslocam através de distintas altitudes, como é o caso dos pastores na serra do Cajón, do vale de Santa María. A aridez e a dificuldade de irrigação fizeram com que estes vales não fossem favoráveis à agricultura em larga escala e as condições geográficas e climáticas, por sua vez, também fazem com que os vales sejam aptos para o pastoreio apenas por um período do ano (correspondendo ao final da primavera e do verão), obrigando os pastores a apresentarem movimentos distintos, de acordo com as épocas do ano.

Já nos estudos da paisagem da Serra Leste de Carajás, Silva (2018) explica que abrigados em cavidades, os ocupantes deixaram vestígios materiais diversos: material lítico de oito mil anos de grupos caçadores-coletores; objetos cerâmicos de mais de três mil anos; que circularam pelas cavidades; e de ocupantes mais recentes dedicados à exploração mineral. No tempo presente, garimpeiros são os atores sociais que menos foram considerados em estudos na região, reflexo do colonialismo aplicado pelos donos do poder de cada momento histórico. Lançando mão de fontes históricas variadas, a autora menciona o informativo “Destaque Amazônia”, publicado pelo Museu Goeldi e pioneiro da divulgação científica na região, com circulação suspensa desde 2013.

O estudo trata de uma história que se iniciou “[…] há mais de 10.000 anos antes do presente, quando indivíduos selecionaram algumas cavidades na área atualmente conhecida como Serra Leste de Carajás, as quais funcionavam como local de passagem e abrigo, deixando no solo diferentes vestígios […]” e se estende até o “[…] intenso processo de ocupação, devido à descoberta de ouro” (SILVA, 2018, p. 335) no início da década de 1980.

No noroeste argentino, os caminhos andados e os locais de parada representavam o ritmo do pastor junto ao seu rebanho, e os marcadores da paisagem eram registros materiais da atividade pastoril nesses caminhos e lugares, visíveis nos currais que aparecem ao longo do trajeto, na vegetação e nos indícios da passagem dos animais. Neste caso descrito, todo o processo de apreensão da paisagem está ligado à mobilidade pastoril, sendo que os caminhos e os lugares são utilizados para levar os animais aos locais onde há os recursos necessários nas diferentes temporadas de um ciclo anual e, assim, criam familiaridade das pessoas com o meio.

No entanto, a paisagem de Carajás tem, de forma contínua, revelado como as transformações no passado remoto se fazem presentes nos tempos recentes e como o que fazemos hodiernamente afeta as memórias materiais do passado. Com isso, a análise das paisagens possibilitou-nos ver tanto as florestas antropogênicas deixadas pelas populações indígenas desde 10.000 A.P. quanto a cava produzida pelos garimpeiros na década de 1980 como elementos igualmente importantes para contar a história do habitar em Carajás.

Para ler os artigos, acesse

ACHA, M. Os processos da paisagem pastoril: caracterizando lugar e movimento.Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. [online]. 2018, vol.13, n.1, pp.69-87. ISSN 1981-8122. [viewed 26 November 2018]. DOI: 10.1590/1981.81222018000100004. Available from: http://ref.scielo.org/rt29w7

SILVA, T. S. A. Paisagens e temporalidades em Serra Leste de Carajás. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum., v. 13, n. 2, p. 331-352, 2018. ISSN: 1981-8122. [viewed 26 November 2018]. DOI: 10.1590/1981.81222018000200005. Available from: http://ref.scielo.org/kb9vw3

Links externos

Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas – BGOELDI: www.scielo.br/bgoeldi

Boletim: www.editora.museu-goeldi.br/humanas

Boletim no Issuu: www.issuu.com/bgoeldi_ch

Facebook: www.facebook.com/boletimgoeldiCH

Sobre Tallyta Suenny Araújo da Silva

Tallyta Suenny Araújo da Silva

Tallyta Suenny Araújo da Silva

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPA. Tem cinco anos de experiência como técnica de laboratório em arqueologia e participou de escavações em sítios históricos e pré-históricos na área de Santarém, Carajás, Barcarena e Igarapé-Açu. Atualmente desenvolve pesquisa sobre as ocupações indígenas no período pré-colonial em Serra Leste de Carajás e sobre o garimpo de Serra Pelada. Tem experiência na área de Arqueologia, com ênfase em Arqueologia Amazônica e Tecnologia Lítica. E-mail: tallytasuenny@gmail.com

 

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

BELTRÃO, J. F. and LEÃO, S. S. Além do físico: mudanças ao ambiente e construção de paisagens culturais [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2018 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2018/11/27/alem-do-fisico-mudancas-ao-ambiente-e-construcao-de-paisagens-culturais/

 

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