Existem barreiras para o uso de criatividade nas áreas científicas?

Jacques Grégoire, Professor da Université Catholique de Louvain, Bélgica

Estimular a criatividade científica significa não apenas estimular o pensamento criativo, mas também levar em conta os fatores que dificultam a criatividade. Muitos projetos de pesquisa não são muito criativos, seguindo as regras das teorias dominantes. Um projeto de pesquisa baseado em uma teoria bastante difundida é menos arriscado do que um projeto baseado em uma estrutura teórica própria, podendo ser mais facilmente aprovado e financiado. Este assunto é tema do artigo “Superando obstáculos à criatividade na ciência”, publicado no periódico Estudos de Psicologia (Campinas) (v. 35, n. 3).

Para entender essa tendência e aumentar a confiança em teorias mais conhecidas, temos que entender os obstáculos à criatividade. Esses obstáculos estão dentro e fora da mente do pesquisador. Os obstáculos mais importantes dentro da mente do pesquisador são os obstáculos epistemológicos e o viés cognitivo. O filósofo francês Gaston Bachelard introduziu o conceito de “obstáculo epistemológico”, que é o conhecimento proveniente de experiências e teorias anteriores, impedindo a aquisição de novos conhecimentos científicos. A observação de obstáculos epistemológicos é muito comum durante o desenvolvimento do conhecimento científico por parte da criança. Por exemplo, quando as crianças aprendem a sequência dos números naturais, observam que os números maiores são também os mais longos, isto é, possuem mais dígitos (por exemplo, 5 <15 <115). Mas quando descobrem os números racionais, essa regra geral não é mais verdadeira para elas. Um número com dois dígitos pode ser maior que um número com quatro dígitos (por exemplo, 0,5> 0,255). Por causa de sua representação de números naturais, as crianças geralmente dão uma resposta errada quando precisam selecionar o maior entre dois números racionais, escolhendo o número com mais dígitos. Os vieses cognitivos foram profundamente estudados por psicólogos sociais. É um desvio sistemático da racionalidade no julgamento, que leva a afirmações incorretas. Nenhum pesquisador está imune ao viés cognitivo, que pode representar um obstáculo à sua criatividade (GRÉGOIRE, 2016). Entre os tipos de vieses cognitivos, o viés de confirmação é um erro comum. Em vez de levar em consideração todos os eventos observados, selecionamos apenas as informações que confirmam nossa hipótese inicial, enquanto as hipóteses alternativas não são consideradas. Os obstáculos mais importantes fora da mente do pesquisador são as normas sociais, ou seja, a pressão sobre a comunidade científica e, por vezes, toda a sociedade, para se adequar ao modelo científico dominante, que foi chamado de “ciência normal” por Kuhn (1962) em seu famoso livro The structure of scientific revolutions. As normas científicas são frequentemente apoiadas pelo atual sistema de avaliação de projetos e produções científicas. A criação científica frequentemente precisa do que Kuhn chama de “mudança de paradigma”, o qual é muito bem interpretado por Niels Bohr em sua famosa citação: “A eletricidade não foi inventada tentando melhorar a vela”.

Para mover um carro, temos que pisar no acelerador, mas primeiro precisamos remover o pé do freio. Desenvolver e estimular a criatividade científica é uma meta importante, mas permanecerá insuficiente se não trabalharmos para superar os obstáculos à criatividade. Os primeiros obstáculos estão dentro da mente do pesquisador. Portanto, devemos primeiro trabalhar neste nível. Os pesquisadores devem aprender a questionar seu conhecimento inicial relacionado às suas experiências iniciais e aos modelos científicos dominantes que aprenderam. Na educação científica, deveria se investir mais tempo questionando as noções iniciais e estudando a história da ciência, especialmente seus aspectos conflitantes. Os pesquisadores também devem estar cientes do viés de julgamento e aprender a identificar seu próprio viés cognitivo. Cientistas criativos devem sentir prazer nos riscos assumidos. Tal comportamento não é fácil porque, nesse ambiente científico, os pesquisadores costumam ter aversão ao risco. Os pesquisadores sabem que um artigo apresentando um estudo baseado em uma teoria conhecida e utilizando um método clássico terá mais chances de ser publicado do que um artigo baseado em uma teoria própria, ou utilizando um novo método, dominado por poucas pessoas. Portanto, eles evitam assumir riscos e preferem seguir o caminho da ciência normal. A educação científica deve aumentar o valor do risco e da serendipidade. Alunos e jovens pesquisadores devem ser estimulados a explorar, tendo a possibilidade de tomar uma decisão errada e cometer erros. Eles devem ter a oportunidade de investigar caminhos alternativos e de ser surpreendidos.

Referências

GRÉGOIRE, J. Understanding creativity in mathematics for improving mathematical education. Journal of Cognitive Education and Psychology, v. 15, n. 1, p. 24-36, 2016. ISSN: 1810-7621[reviewed 20 September 2018]. Avaliable from: https://www.researchgate.net/publication/294255199_Understanding_Creativity_in_Mathematics_for_Improving_Mathematical_Education

KUHN, T. S. The structure of scientific revolutions. Chicago: University of Chicago Press, 1962.

Para ler o artigo, acesse

GREGOIRE, J. Overcoming obstacles to creativity in science. Estud. psicol. (Campinas) [online]. 2018, vol.35, n.3, pp.229-236. ISSN 0103-166X. [viewed 7 December 2018]. DOI: 10.1590/1982-02752018000300001. Available from: http://ref.scielo.org/dn8ykw 

Link externo

Estudos de Psicologia (Campinas) – ESTPSI: www.scielo.br/estpsi

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

GRÉGOIRE, J. Existem barreiras para o uso de criatividade nas áreas científicas? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2018 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2018/12/07/existem-barreiras-para-o-uso-de-criatividade-nas-areas-cientificas/

 

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