Autoria na cultura do presente é tema de dossiê da Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

Lúcia Tormin Mollo, doutoranda em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB), Brasília, DF, Brasil

O dossiê do periódico Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea problematiza os modos de autoria na cultura do presente. Os textos reunidos lidam com autor e obra, livro e suas preparações, obra e suas diversas circulações e suportes, criação, leitura e crítica, e mostram que tratar desse assunto implica estar disposto a lidar com “formas complexas”, como sugere o crítico argentino Reinaldo Laddaga (2013, p. 15). Ao mesmo tempo que podemos falar de um retorno do sujeito, nas autoficções e em relação à atuação dos autores na dinâmica de forças do sistema artístico como um todo, é notável um certo deslocamento da função autoral, se pensarmos, por exemplo, nas proposições de Kenneth Goldsmith e sua noção de escrita não criativa ou no papel dos curadores no campo das artes visuais. Se não podemos descartar tão facilmente o autor, já é possível notar uma reinvenção das práticas autorais e pensar a autoria não só como intensa performance de si, dentro e fora dos textos, mas também como certo “enfraquecimento da ansiedade autoral”, como também sugere Laddaga (2007, p. 16, tradução nossa).

Outra questão a ser pensada é a relação do autor com o mercado. Em “Muerte y resurreción del autor”, Marcelo Topuzian (2014) se pergunta quais são os modos do retorno do autor no presente, após suas sucessivas mortes desde a década de 1960. Topuzian argumenta que a “função de autor” se torna porosa nas novas condições, uma vez que funciona como um logotipo comercial numa rede tecnológica e de mercado. Como pensar as relações complexas entre autoria, redes sociais e mercado, então, em um mundo onde a literatura e as artes, segundo Graciela Montaldo (2017), tendem a produzir objetos que se tornam bens similares às mercadorias, com uma obsolescência acelerada? Que possibilidades críticas e artísticas a noção de autor encontra na contemporaneidade?

Para discutir essas questões, entre os artigos dessa coletânea, destacamos “Poesia, documento, autoria”, de Diana Klinger, em que a autora discute obras de Carlito Azevedo e Roy Frankel, em diálogo e em contraste com exemplos variados das artes e da literatura a partir das vanguardas, para investigar a composição do livro enquanto “mídia sobrevivente” e os usos que a poesia faz de diferentes tipos de documentos. O resultado é que a noção de autor se apresenta cada vez mais na forma de alguém que organiza materiais alheios, em vez de falar em nome de um eu, e que se relaciona com o real de um modo desencontrado.

Rodrigo Cerqueira, em “Literatura como projeto”, recorre a Pierre Bourdieu para investigar a trajetória de Luiz Ruffato no campo literário brasileiro. Dessa forma, relaciona a construção da figura do autor a um projeto de obra, a pentalogia Inferno Provisório, chamando a atenção para o fato de que a autorepresentação do autor, a legitimação por parte da crítica e a elaboração da obra andam lado a lado.

Rejane Rocha, em “Textos que dão voltas por aí: Borges, Katchadjian, obra e autoria na literatura contemporânea”, analisa a web como um circuito de circulação da literatura, apostando no pressuposto de que o suporte virtual altera a forma de compreensão da autoria. Para tanto, vale-se do polêmico livro El aleph engordado, do argentino Pablo Kachatdjian, e narra as agruras judiciais que o autor teve de enfrentar ao se apropriar do conto de Borges, para discutir o que chama de “patrimonialização” do nome e da obra do autor consagrado.

A problematização da autoria se dá no texto “’Ninguém’ é o nome do autor: Leonardo Gandolfi e Ana Martins Marques sobre a Odisseia”, de Filipe Manzoni, através do diálogo que os poetas em questão mantêm com a tradição homérica. O rascunho, os materiais de preparação para a escrita, já são obra? A pergunta é respondida afirmativamente por Ana Kiffer, no texto “O rascunho é a obra: o caso dos cadernos”, que discute as fronteiras entre a obra e sua preparação a partir dos cadernos de Antonin Artaud. Finalmente, o texto de Maria Fernanda Pinta e Irina Garbatzky, “Ante el teatro, en el museo, desde el archivo: modos escénicos (y autorales) del arte contemporáneo”, investiga as aproximações entre o teatro e o arquivo nas artes visuais contemporâneas, explorando em dicção ensaística suas atuações como curadoras da mostra Mínimo Teatral, exibida no Museu Macro de Rosario, cidade argentina, em 2017.

Este dossiê termina com a entrevista feita por José Veranildo Junior a Thays Albuquerque e Marília Cacho, idealizadora e fotógrafa da exposição Corpo-Poema, do coletivo literário Ariel. Os poemas são inscritos na pele de mulheres fotografadas nuas, criando uma tensão entre palavra e corpo, política e estética.

Referências

LADDAGA, R. Espectáculos de realidad. Ensayo sobre la narrativa latinoamericana de las dos últimas décadas. Buenos Aires: Beatriz Viterbo, 2007.

LADDAGA, R. Estética de laboratório: estratégias das artes do presente. Tradução de Magda Lopes. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

MONTALDO, G. Ecología crítica contemporánea. Cuadernos de Literatura, v. 21, n. 41, p. 50-61, 2017. e-ISSN: 2346-1691 [viewed 7 November 2018]. DOI: 10.11144/Javeriana.cl21-41.ecco. Available from: http://revistas.javeriana.edu.co/index.php/cualit/article/view/19368

TOPUZIAN, Marcelo. Muerte y resurrección del autor (1963-2005). Santa Fe: UNL, 2014.

Para ler os artigos, acesse

Estud. Lit. Bras. Contemp.  no.55 Brasília set./dez. 2018

Link externo

Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea – ELBC: www.scielo.br/elbc/

Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea – www.gelbc.com 

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

MOLLO, L. T. Autoria na cultura do presente é tema de dossiê da Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2018 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2018/12/20/autoria-na-cultura-do-presente-e-tema-de-dossie-da-estudos-de-literatura-brasileira-contemporanea/

 

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