Como a questão dos refugiados e migrantes tem sido tratada na literatura brasileira contemporânea?

Lúcia Tormin Mollo, Produtora de conteúdo e mídia social da Estudos de Literatura Brasileira e Contemporânea, Brasília, DF, Brasil.

Laeticia Jensen Eble, Editora-executiva da Estudos de Literatura Brasileira e Contemporânea, Palmas, TO, Brasil.

Em função do cenário atual da imigração no Brasil e no mundo, o assunto do migrante e do refugiado voltou a ser o foco, como uma questão, sobretudo, política, jurídica, social e econômica. Consequentemente, o tema tem mobilizado também artistas, que expressam o problema em sua produção. A edição 58 da Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, traz uma seção temática intitulada ‘Novas Poéticas da Migrância’. Dedicado à questão da representação da migrância na literatura recente, este dossiê tem como organizador o prof. Leonardo Tonus (Sorbonne Université), que há muitos anos se debruça sobre esse tema em suas pesquisas.

Entre os textos que compõem o dossiê, o artigo “Poéticas da migrância e ditadura: exílio e diáspora nas obras de Julián Fuks e Francisco Maciel”, de Pádua Fernandes, trata da questão dos exílios e das migrações em obras que têm como pano de fundo a ditadura militar. Fernandes analisa como Fuks explora em seus romances as memórias de família relacionadas ao exílio de pais argentinos, deixando transparecer as “dessemelhanças dos processos de justiça de transição na Argentina e no Brasil” (p. 5). Já na obra de Maciel, o autor investiga como é retratada a questão das migrações de negros africanos em termos de diáspora e a perseguição política sofrida pela população negra.

Já Fábio Weintraub, em “A casa físsil: o corpo migrante e os paradoxos da hospitalidade na poesia de Eduardo Jorge”, observa como o migrante retratado nos poemas sente muitas vezes a casa se reduzir à dimensão da roupa (forma mais elementar de abrigo) e do corpo. Nesse sentido, Weintraub (p. 2) observa que, nas obras de Eduardo Jorge, “o abalo da noção convencional de casa liga-se fortemente ao problema da migração”.

De forma semelhante, Carlos Augusto Magalhães investiga em seu artigo os espaços mais íntimos do sujeito ao trabalhar com o conto “Réquiem para um solitário”, de Samuel Rawet. Por sua vez, Leno Francisco Danner, Julie Dorrico e Fernando Danner no artigo “Em busca da terra sem males: violência, migração e resistência em Kaká Werá Jecupé e Eliane Potiguara” tratam da literatura indígena e defendem que esses/as escritores/as são profundamente moldados/as e impactados/as pela violência simbólico-material a que foram submetidos/as em termos de nossa modernização conservadora. Em “Migrações e periferias: o levante do slam”, Fernanda Vilar se apoia em conceitos como terceira diáspora e artivismo para entender como as comunidades marginalizadas exprimem de modo poético sua forma de ocupar um lugar no mundo e afirmam suas alteridades nas dinâmicas das migrações e pós-colonizações.

Esta edição da ELBC traz ainda uma seção de artigos de tema livre. Entre esses trabalhos, está o artigo “Diário de Bitita: a autobiografia ensaísta de Carolina Maria de Jesus”, de Deise Pereira. A autora se propõe a pensar no modo como a narrativa configura Bitita como uma porta-voz da autora a partir das sentenças alegóricas da menina contra a sociedade brasileira que a oprime. Para Pereira (p. 9), “Carolina de Jesus restabelece a voz dos que representa, demonstrando que o campo literário também faz parte da articulação de forças que constituem a esfera social”. No artigo “Três formas de segregação urbana e racial em Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo”, Daniela Stoll analisa três formas de segregação urbana transpassadas pelo determinante racial: nas favelas, nos presídios e nas zonas de prostituição. Para a autora, as personagens analisadas “trazem à tona uma voz coletiva que tensiona as fronteiras e os limites dos espaços da cidade” (p. 9).

De acordo com Giorgio Agamben (2009, p. 62), “contemporâneo é, justamente, aquele que […] é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente”. Nesse sentido, este número da ELBC oferece reflexões importantes acerca de como a arte vem tratando questões prementes da nossa sociedade atual.

Referências

AGAMBEN, G. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Tradução de Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009.

Para ler os artigos, acesse

Estud. Lit. Bras. Contemp.  no.58 Brasília  2019

Link externo

Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea – ELBC: www.scielo.br/elbc

Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea – www.gelbc.com

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

MOLLO, L. T. and EBLE, L. J. Como a questão dos refugiados e migrantes tem sido tratada na literatura brasileira contemporânea? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/01/09/como-a-questao-dos-refugiados-e-migrantes-tem-sido-tratada-na-literatura-brasileira-contemporanea/

 

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