“Viver é melhor que sonhar”: empoderamento pela educação

Thaís Teles Firmino, Professora substituta de administração na Universidade Federal da Paraíba, doutoranda em administração pela Universidade Potiguar, João Pessoa, PB, Brasil.

FIGURA 1: Condições de Vida nas Comunidades. Fonte: Arquivos da OSC, 2018.

O artigo “Dar o peixe ou ensinar a pescar? O empoderamento como prática de inovação social em uma organização da sociedade civil” escrito por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba, publicado no Cadernos EBAPE.BR (v. 17, número especial), apresentou o empoderamento de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade como uma inovação social. O estudo mostra a repercussão de atividades culturais, pedagógicas e esportivas promovidas por uma organização da sociedade civil (OSC) no desenvolvimento do poder pessoal dos participantes, o que permite a mudança de atitudes, comportamentos e ações. A novidade reside no contexto, no olhar daqueles que não tinham esperança, coragem, forças e condições para pensar, almejar e viver de outra forma.

A referida organização atua há 34 anos com diversas ações com vistas à minimização das desigualdades sociais, desde iniciativas de atendimento direto a crianças, adolescentes, jovens até 24 anos e suas famílias, como também com representações em conselhos de defesa dos direitos humanos e redes de proteção. Nesse período, mais de 3.500 crianças e adolescentes já foram assistidos, enquanto que, anualmente, mais de 170 são capacitadas em temas como saúde e higiene, sexualidade, cidadania, trabalho infantil, entre outros assuntos associados à violação dos direitos.

Em resposta à exclusão social, os participantes são empoderados por meio da educação (EUROPEAN COMMISSION, 2013). Ao frequentarem oficinas de artes visuais, dança, ioga, teatro, futebol, música, entre outros, as crianças e adolescentes são incentivadas a se desenvolverem, tanto em aspectos mais subjetivos como a superação de uma timidez ou a busca por uma vocação profissional, como em aspectos mais técnicos, a exemplo da destreza com instrumentos musicais ou na dança e artes visuais. Nestas ocasiões, os educadores seguem planejamento anual que aborda o ensino e discussão de temas transversais como trabalho infantil, violência doméstica, sexualidade e saúde, além das habilidades relativas à oficina lecionada.

Muitos dos frequentadores relataram que a organização é um lugar seguro, respeitado pelos moradores, inclusive pelas gangues, traficantes e matadores. Portanto, é um espaço de convivência comunitária e tem suas práticas legitimadas (HOWALDT; KOPP; SCHWARZ, 2015). Chamou a atenção um depoimento de que a participação nas atividades ajudava a “abrir a cabeça” para a conquista do seu próprio espaço na sociedade, assim como a forma de enxergar o mundo e tomar decisões. Nessa nova mentalidade florescem sonhos que, por sua vez, são realizados. Assim também floresce uma musicista, um novo bailarino no Bolshoi, um educador, um administrador e tantos outros.

Ao longo de seis meses os pesquisadores acompanharam a OSC por meio de duas ou mais visitas semanais. Observaram as atividades desenvolvidas, analisaram documentos, fotografaram e filmaram locais, momentos, eventos e apresentações. Também conversaram com funcionários, voluntários, crianças, adolescentes e familiares que frequentavam ou já haviam frequentado o espaço, a fim de se compreender a atuação da organização e seus parceiros por toda a comunidade, caracterizando a situação anterior e posterior ao trabalho realizado (MAURER; SILVA, 2015). Apenas após a imersão no campo se identificou o empoderamento como inovação social, respeitando os procedimentos necessários à etnometodologia (BISPO; GODOY, 2014).

Enquanto alguns discutem como será o convívio dos robôs com humanos, os avanços (por vezes ameaçadores) da inteligência artificial e as perspectivas de longevidade, muitos outros estão preocupados com o que comer no dia seguinte, com a falta de saneamento básico, dinheiro, em não ser agredido nas ruas ou ao chegar em casa.  Considerando esse cenário, argumenta-se que, em um futuro cada vez mais tecnológico, nada é tão inovador (e necessário) quanto o movimento em prol da equidade social.

Referências

BISPO, M. de S. and GODOY, A. S. Etnometodologia: uma Proposta para Pesquisa em Estudos Organizacionais. Revista de Administração da UNIMEP, 2014, vol. 12, no. 2, pp. 108-135, ISSN: 1679-5350 [viewed 11 Dezember 2019]. DOI: 10.15600/1679-5350/rau.v12n2p108-135. Available from: http://www.raunimep.com.br/ojs/index.php/regen/article/view/594

EUROPEAN COMMISION. Social innovation research in the European Union: Approaches, findings and future directions. Policy Review. Luxembourg: Publications Office of the European Union, 2013.

HOWALDT, J.; KOPP, R.; SCHWARZ, M. Social innovation as drivers of social change – exploring trade’s contribution to social innovation theory building. In: NICHOLLS, A.; SIMON, J.; GABRIEL, M. (Org.). New frontiers in social innovation research. New York: Palgrave Macmillan, 2015. p. 29-51.

MAURER, A. M. and SILVA; T. N. Como as inovações sociais criam e sustentam suas práticas? Integrando entendimentos de inovação social e teoria de práticas. In: ENCONTRO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM ADMINISTRAÇÃO, 39, 2015, Belo Horizonte. Anais… Maringá: ANPAD, 2015. p. 1-16.

Para ler o artigo, acesse

FIRMINO, T. T.  and  MACHADO, A. G. C. Dar o peixe ou ensinar a pescar? O empoderamento como prática de inovação social em uma organização da sociedade civil. Cad. EBAPE.BR [online]. 2019, vol. 17, no. spe, pp.689-702, ISSN 1679-3951 [viewed  26 March 2020]. DOI: 10.1590/1679-395174132. Available from: http://ref.scielo.org/sq5sfr

Links externos

Cadernos EBAPE.BR – CEBAPE: www.scielo.br/cebape

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

FIRMINO, T. T. “Viver é melhor que sonhar”: empoderamento pela educação [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/03/26/viver-e-melhor-que-sonhar-empoderamento-pela-educacao/

 

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