Habitações teatrais misturam ficção no cotidiano de bairros tradicionais de Belo Horizonte

Luciana Araújo Castro, Atriz, Grupo Teatro Público, Belo Horizonte, MG, Brasil.

Imagem: Naquele Bairro Encantado – Episódio I: Estranhos Vizinhos (2011).

O artigo “O habitar como estética do público: apontamentos sobre a prática de habitação teatral”, publicado na Revista Brasileira de Estudos da Presença (vol. 10, no. 4) traz um recorte da pesquisa de mestrado de Castro (2019), que tem como objetivo conceituar a prática de habitação teatral do grupo Teatro Público (Belo Horizonte, MG) – do qual a autora é atriz integrante. No intuito de pensar o habitar como estética do público, abordou-se as experiências de criação dos espetáculos “Saudade” e “Naquele Bairro Encantado”, ambos realizados em bairros tradicionais da cidade de Belo Horizonte, partindo da discussão de estéticas ligadas ao caminhar e de outras práticas espaciais, a fim de delinear algumas características desta prática específica.

Ao tratar das relações estabelecidas com a espacialidade dos bairros habitados pelo Teatro Público, para além do deslocamento espacial da caixa preta para os espaços do cotidiano, a pesquisa buscou compreender os procedimentos e elementos que caracterizam este processo. Enquanto fazer um espetáculo em um espaço não destinado à atividade teatral muitas vezes se apresenta como uma simples realocação de um espaço para outro (atitude perceptível em trabalhos que usam outros espaços da mesma forma que a caixa preta), pensar em termos de “espaços encontrados” e “vazados” exige rever as possibilidades de ocupação, implica em não querer impor transformações ao lugar, mas lidar com suas especificidades físicas e contextuais, não buscando descartar as suas características e presenças, mas entendê-las como possibilidades de jogo.

Somado a isso, na habitação teatral, além dos tensores “lugar” e “convívio” – comuns a diversas estéticas e práticas espaciais tratadas no artigo – identificou-se a temporalidade como terceiro elemento desta prática artística. Isso porque a habitação está relacionada a uma habituação, ou seja, à criação de um hábito, ao habituar-se a algo. Assim, a partir da permanência no lugar e do convívio com seus habitantes, a proposta cênica torna-se parte dos hábitos de uma comunidade. Com isso, se a habitação teatral não apenas permite que as vozes dos espaços e dos habitantes, transeuntes e/ou espectadores sejam ouvidas, mas é constituída a partir delas e por elas, temos uma política da cena que aponta para uma dimensão pública da arte.

Essa dimensão pública aparece nos momentos em que o bairro assume o protagonismo e torna-se foco da prática cênica, seja pela carga simbólica dos lugares, seja quando os moradores se transformam em “atores do cotidiano”, conforme denomina a pesquisadora Julia Guimarães Mendes (2017, p. 60), ao tratar de “Naquele Bairro Encantado”. Aqui chega-se a uma questão crucial da discussão que toca as diversas formas de arte pública, incluindo a habitação teatral: o habitar, a partir da prática desenvolvida pelo Teatro Público, pode ser pensado, para utilizar expressão cara à proposição teórica de Óscar Cornago (2019), como uma “estética do público”?

Referências

CASTRO, L. A. Sobre o habitar e um teatro que habita: a habitação teatral como processo e poética da cena. 2019. 140 f. Dissertação (Artes Cênicas) – Universidade Federal de Ouro Preto, Ouro Peto, MG, 2019. Disponível em: https://www.repositorio.ufop.br/handle/123456789/11845

CORNAGO, Ó. Habitar: practicas de inteligência colectiva. In: CORNAGO, Ó. and PRIETO, Z.R. Tiempos de habitar: prácticas artísticas y mundos posibles. Cuenca, Espanha: Genueve Ediciones, 2019. p. 33-52.

MENDES, J. G. Teatros do real, teatros do outro: os atores do cotidiano na cena contemporânea. 2017. 345 f. Tese (Doutorado em Artes Cênicas) – Universidade de São Paulo, 2017. Available from: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27156/tde-31102017-145052/publico/JULIAGUIMARAESMENDESVC.pdf

Para ler o artigo, acesse

CASTRO, L. A. and CAETANO, N. O habitar como estética do público: apontamentos sobre a prática de habitação teatral. Rev. Bras. Estud. Presença [online]. 2020, vol. 10, no. 4, e100176, ISSN: 2237-2660 [viewed 21 October 2020]. https://doi.org/10.1590/2237-2660100176. Available from: http://ref.scielo.org/j355s6

Links externos

Instagram Luciana Araújo Castro: https://www.instagram.com/lucianaac7/

Instagram Teatro Público: https://www.instagram.com/teatropublicobh/

Revista Brasileira de Estudos da Presença – RBEP: www.scielo.br/rbep

Teatro Público – Produção Acadêmica: http://teatropublico.com.br/index.php/pesquisa/

Teatro Público: http://teatropublico.com.br

 

A habitação teatral Naquele Bairro Encantado, foi divulgada para o público externo em forma de três episódios. Vídeo do Episódio I disponível no link: https://vimeo.com/137833155; Episódio II disponível no link: https://vimeo.com/137995914 e Episódio III disponível no link: https://vimeo.com/133164493

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

CASTRO, L. A. Habitações teatrais misturam ficção no cotidiano de bairros tradicionais de Belo Horizonte [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/11/10/habitacoes-teatrais-misturam-ficcao-no-cotidiano-de-bairros-tradicionais-de-belo-horizonte/

 

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