O que a história nos conta sobre as epidemias e a proteção dos escolares

André Dalben, Professor, Universidade Federal de São Paulo, Instituto de Saúde e Sociedade, Santos, SP, Brasil.

Henrique Mendonça da Silva, Professor, Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Na escola de débeis de Jacarepaguá. Uma classe ao ar livre. Imagem: LEÃO, 1926, p. 72

Cadernos Cedes (vol. 40, no. 112), apresenta em seu dossiê “Educação e natureza em perspectiva histórica: vida ao ar livre, saúde e higiene”, sete artigos que “procuram flagrar os modos como um ideário de vida ao ar livre, marcado por ambiguidades, forjou-se e ganhou ampla divulgação, expressando-se em distintos registros e contribuindo para a afirmação da natureza e de seus elementos como centrais na educação, na prevenção das doenças, na preservação da saúde e nos divertimentos de populações que viviam em aglomerações urbanas nas primeiras décadas do século XX” (SOARES; ROCHA, 2020).

Um dos artigos publicado se intitula “Sol e ar fresco no combate à tuberculose: experiências de educação ao ar livre no Rio de Janeiro (1910-1920)”, cujo resultado de pesquisa reuniu amplo conjunto de fontes históricas.  O estudo apresenta e analisa algumas discussões e medidas postas em prática na cidade do Rio de Janeiro para o enfrentamento da tuberculose infantil durante as décadas de 1910 e 1920, momento em que ainda não existiam medicamentos eficazes para o controle desta enfermidade.

Os autores explicam que naquele período a população da então capital federal enfrentava uma série de epidemias, sendo a prevalência da tuberculose alarmante e, para algumas autoridades médicas, em vias de se tornar endêmica. A escola, por sua vez, ao reunir crianças em um mesmo espaço, tinha potencial de agravar o alastramento das enfermidades infectocontagiosas. Nas décadas de 1910 e 1920 diversas investigações médicas realizadas nas escolas cariocas atestaram a marcha progressiva do mal dos pulmões entre a população infantil, além de uma variedade de outras doenças. A partir deste cenário, os pesquisadores se indagaram quais foram as medidas propostas para controlar o alastramento de enfermidades como a tuberculose entre os escolares? Quais foram delas implementadas na cidade do Rio de Janeiro? Como as medidas de saúde se coadunavam com as propostas pedagógicas das instituições escolares?

A pesquisa demonstrou que, na ausência de vacina ou antibiótico, foram utilizadas as ideias disponíveis nos balcões da ciência daquele tempo: a luz solar, o clima e a exposição aos ares considerados salutares. Diferentes profissionais procuraram associar saúde e educação a partir dos ideais de uma vida ao ar livre e a natureza foi frequentemente alçada como lugar de cura e prevenção de uma série de males. Um conjunto de propostas foi debatido pela comunidade de médicos e professores do Rio de Janeiro, como a criação de solários para a aplicação do tratamento da helioterapia (cura pelo sol), a inauguração de preventórios infantis para os filhos de tuberculosos, a organização de colônias de férias escolares para promover maior contato das crianças com a natureza, a remodelação das arquiteturas das escolas para garantir a circulação de ar e a entrada abundante da luz solar, a realização de aulas em espaços inteiramente abertos e até mesmo a construção de escolas ao ar livre em parques e praias da cidade.

Além de resgatar um conjunto de iniciativas muitas vezes esquecidas, o artigo possibilita refletir sobre a importância da natureza e do ar livre para a saúde e a educação das crianças, especialmente no atual momento, em que doenças infectocontagiosas voltam a nos inquietar em escala planetária. O dossiê no qual a pesquisa foi publicada apresenta ainda artigos que versam sobre o naturismo e o nudismo, a alimentação escolar, as emoções humanas frente às variações climáticas, as relações da urbanização com o meio ambiente e o corpo concebido como natureza. O seu conjunto de artigos convida-nos a refletir sobre as contradições e ambiguidades de ter sido a vida ao ar livre, muitas vezes, alçada como resolução para os males da sociedade urbano-industrial.

A seguir, ouça o podcast do professor Henrique Mendonça da Silva ampliando a discussão sobre educação e prevenção de doenças.

Referências

DALBEN, A. Escola de aplicação ao ar livre de São Paulo Open-Air School of São Paulo. Educ. rev. [online]. 2019, vol. 35, e219650. ISSN: 1982-6621 [viewed 4 December 2020]. https://doi.org/10.1590/0102-4698219650. Available from: http://ref.scielo.org/xzng3j

DALBEN, A. Las escuelas al aire libre uruguayas: creación y circulación de saberes. Educación Física y Ciencia [online], 2019, vol. 21, e075-12. ISSN: 2314-2561 [viewed 4 December 2020].  https://doi.org/10.24215/23142561e075. Available from:  https://www.efyc.fahce.unlp.edu.ar/article/view/EFyCe075

LEÃO, A. C. O ensino na capital do Brasil. Rio de Janeiro: Typ. do Jornal do Comércio, de Rodrigues & C., 1926.

ROCHA, H.H.P. A higienização dos costumes: educação escolar e saúde no projeto do Instituto de Hygiene de São Paulo (1918-1925). Campinas: Mercado de Letras, 2003.

ROCHA, H.H.P. Regras de bem viver para todos: a Bibliotheca Popular de Hygiene do Dr. Sebastião Barroso. Campinas: Mercado de Letras/FAPESP, 2017.

SILVA, H.M. A higiene escolar além das palavras: Oscar Clark e o tratamento médico escolar. 2017. 312 f. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2017. Available from: http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/319162

SOARES, C.L. Uma educação pela natureza: a vida ao ar livre, o corpo e a ordem urbana. Campinas: Autores Associados, 2016.

SOARES, C.L. and ROCHA, H.H.P. Viver ao ar livre: entre prescrições higiênicas, alegria e aventura. Cad. CEDES [online]. 2020, vol. 40, no. 112, pp. 198-206. ISSN: 1678-7110 [viewed 4 December 2020]. https://doi.org/10.1590/cc231818. Available from: http://ref.scielo.org/wr3pkh

Para ler os artigos, acesse

DALBEN, A. et al. Sol e ar fresco no combate à tuberculose: experiências de educação ao ar livre no Rio de Janeiro (1910-1920). Cad. CEDES [online]. 2020, vol. 40, no. 112, pp. 218-232. ISSN: 1678-7110 [viewed 4 December 2020]. https://doi.org/10.1590/cc232227. Available from: http://ref.scielo.org/tny8bq

Links Externos:

Cadernos CEDES – CCEDES: www.scielo.br/ccedes

André Dalben: http://lattes.cnpq.br/0743727143543352

Henrique Mendonça da Silva: http://lattes.cnpq.br/2990168367331033

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

DALBEN, A. and SILVA, H. M. O que a história nos conta sobre as epidemias e a proteção dos escolares [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2021 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2021/01/19/o-que-a-historia-nos-conta-sobre-as-epidemias-e-a-protecao-dos-escolares/

 

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