Entre cenas violentas e memórias escolares: o “mar de bullying” contra pessoas LGBT+

Mateus Aparecido de Faria, Doutorando em Saúde Coletiva pelo Instituto René Rachou/Fundação Oswaldo Cruz (IRR/Fiocruz), Belo Horizonte, MG, Brasil.

Maria Carmen Aires Gomes, Professora Titular na Universidade de Brasília (UnB) e docente no Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM), Brasília, DF, Brasil.

Celina Maria Modena, Doutora em Ciências pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Pesquisadora Visitante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do IRR/Fiocruz, Belo Horizonte, MG, Brasil.

O artigo “Mar de bullying”: turbilhão de violências contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais na escola trata da compreensão das vivências e dos sentidos do bullying na escola vividos por pessoas LGBT+. O estudo foi realizado por Mateus de Faria, Maria Carmen Gomes e Celina Modena no âmbito do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Fiocruz Minas. Essa pesquisa qualitativa foi desenvolvida com pessoas LGBT+ residentes na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais, Brasil, entre os anos de 2017 e 2018. Nosso esforço foi no sentido de entender, com profundidade, as memórias, os significados e as cenas pela perspectiva de quem sofreu bullying na escola por conta dos preconceitos em torno da orientação sexual ou da identidade de gênero. Durante as entrevistas realizadas e análises conjuntamente com as pessoas participantes da pesquisa, foi possível entender a escola como um espaço imerso nas violências cotidianas, em que as tecnologias de informação e comunicação serviram para produzir e reproduzir novos e velhos modos de subjugar outras pessoas.

Para que essa pesquisa fosse possível, os autores Mateus de Faria (Fiocruz Minas e UFMG), Maria Carmen Gomes (UnB) e Celina Modena (Fiocruz Minas) uniram esforços institucionais, compartilhando recursos e saberes importantes para conduzir o trabalho investigativo de modo ético e respeitoso para com as e os participantes da pesquisa, sem perder o caráter analítico necessário para amalgamar teorias, conceitos e práticas. A metodologia adotada foi própria das pesquisas qualitativas, com a realização de entrevistas a partir de roteiro semiestruturado, análise de corpus com o apoio do software KitConc e a utilização do referenciável teórico-metodológico da Análise do Discurso Crítica para alcance dos objetivos.

Uma criança veste uma blusa azul e estende as mãos viradas pra cima, elas estão pintadas formando um arco-íris.

Imagem: Pixabay

Os principais resultados da pesquisa atravessam as mudanças de sentidos conferidas ao termo bullying, indicando seus aspectos temporais e geográficos, e seu uso para nomear a presença de cenas violentas em espaços escolares. Além disso, o avanço e aprimoramento das tecnologias comunicativas colaboram para a constituição desse “mar de bullying”, globalizando o soco, o vexame e o xingamento. O enfrentamento direto e o chamamento à ação são as principais estratégias para lidar com o bullying contra pessoas LGBT+. A resistência, portanto, existe no corpo agredido e na comunidade construída.

Para além da pesquisa, é importante analisar criticamente o papel das instituições como a Justiça e a Escola no enfrentamento às violências perpetradas por conta de discriminações baseadas em características pessoais. Outro ponto de destaque é o cruzamento e aprofundamento das violências contra pessoas LGBT+ quando também são negras, pobres ou refugiadas. Todo cuidado precisa ser oferecido, tanto pessoal quanto coletivamente, para que nosso compromisso ético de proteger todas as vidas se faça presente.

Referências

BUTLER, J. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

FARIA, M.A. A luta é coletiva, mas a resistência é individual? Violências vivenciadas e estratégias de enfrentamento construídas pela comunidade universitária de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e outras identidades. Belo Horizonte: Fundação Oswaldo Cruz, 2018.

FARIA, M.A. Homofobia e cis-heteroativismo. Revista Espaço Acadêmico [online]. 2021. vol. 21, no. 231, pp. 161-171 [viewed 15 August 2022]. Available from: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/56789

Para ler o artigo, acesse

FARIA, M.A., AIRES M.C. and MODENA, C.M. Mar de bullying: turbilhão de violências contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais na escola. Educ. Pesqui. [online]. 2022, v. 48, e241630 [viewed 15 August 2022]. https://doi.org/10.1590/S1678-4634202248241630por. Available from: https://www.scielo.br/j/ep/a/WK8x88PBT6Gbc4T7gR7nDnM/

Links externos

FIOCRUZ – Arca: https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/34205

Educação e Pesquisa – EP: https://www.scielo.br/j/ep/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

FARIA, M.A., GOMES, M.C.A. and MODENA, C.M. Entre cenas violentas e memórias escolares: o “mar de bullying” contra pessoas LGBT+ [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2022 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2022/08/15/entre-cenas-violentas-e-memorias-escolares-o-mar-de-bullying-contra-pessoas-lgbt/

 

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