A importância do conceito de máquina de Guattari para a filosofia de Deleuze

André Luis La Salvia, Professor, Universidade Federal do ABC (UFABC), São Bernardo do Campo, SP, Brasil.

Logo do periódico TransformaçãoSão raros os livros de filosofia produzido por uma dupla de pensadores. Conhecemos alguns casos, bem notórios aliás, de mestres e discípulos, mas quase nunca eles produzem juntos suas obras. Eventualmente, um mestre pode até ser personagem do diálogo de um discípulo, mas escrever conjuntamente é mais difícil. Sendo assim, o artigo Das estruturas às máquinas, um estudo sobre a variação conceitual no encontro de Deleuze com Guattari, publicado pelo periódico Trans/Form/Ação (2025, vol. 48, no. 2), mostra que a parceria de Gilles Deleuze e Felix Guattari é um caso raro na história da filosofia.

Desse modo, investigar quais as influências e contribuições que ocorrem em um pensamento conjunto, pode ser de interesse dos pesquisadores das obras desses autores. Afinal, cada um possui uma trajetória singular e, a partir de um encontro, passam a pensar a dois. Ou melhor, como eles mesmos nos advertem: “Escrevemos o ‘Anti-Édipo’ a dois. Como cada um de nós era vários, já era muita gente.”

Como opera essa multidão? Podemos encontrar as marcas conceituais da produção de um e de outro, antes do encontro? Qual o papel de Guattari no encontro?

As perguntas acima são o desafio para o artigo que se segue. Nele, o autor defende que Guattari é fundamental para operar uma variação no próprio procedimento metodológico de produzir filosofia de Gilles Deleuze ao introduzir o conceito de máquina.

O caminho escolhido pelo artigo para a sua investigação foi analisar obras anteriores de cada um dos autores e como elas prevalecem, ou não, na obra conjunta. Desse modo, é notável nos resultados encontrados, a mudança citada acima.

Ao analisarmos o artigo “Em que se pode reconhecer o estruturalismo?” (DELEUZE, 2002) de Deleuze, escrito em 1967, com as obras desse período, Diferença e Repetição (DELEUZE, 2006) e Lógica do Sentido (DELEUZE, 2007), encontramos uma forte presença do estruturalismo no modo de produção de pensamento e nas características do conceito de Ideia.

Guattari, por sua vez, na obra “Psicanálise e transversalidade” (GUATTARI, 2004), com artigos de 1955 a 1970, desenvolve um conceito de máquina contra o estruturalismo, principalmente a versão de Jacques Lacan dessa corrente de pensamento, influente na França nos meados do século XX.

A primeira obra conjunta, O “Anti-Édipo” (DELEUZE; GUATTARI, 2010), uma máquina já irrompe nas primeiras páginas e sua presença se desdobra em conceitos importantes, nesta obra e nas subsequentes: máquinas desejantes, inconsciente maquínico, máquinas de guerra, máquinas abstratas…

Analisando o que ocorre, notamos que Guattari afirma que o estruturalismo, centrado nas relações entre elementos singulares e no simbólico, passa a ser entendido como um sistema fechado e que não favorece a relação com a multiplicidade de elementos heterogêneos e do contato com o fora.

Essa posição faz Deleuze reconhecer as limitações do seu estruturalismo e aderir ao maquinismo de Guattari, operando uma variação conceitual importante, que muitas vezes passa despercebida por aqueles que citam diferentes obras de Deleuze e de Deleuze com Guattari (algumas vezes, inclusive, esquecendo deste).

Os rótulos são cômodos para classificar, ainda mais quando se trata de utilizá-los para aglutinar um grupo de pensadores ou para interpretá-los a luz de uma definição simples. No caso de Gilles Deleuze e Felix Guattari, alguns preferem colocá-los no grupo dos “pós-estruturalistas”, outros preferem tê-los como “pós-modernos” e tem aqueles que até tomam como sinônimos esses dois rótulos.

O artigo prefere investigar as implicações filosóficas dos autores e tenta evidenciar como Guattari é responsável por uma variação conceitual, fazendo Deleuze mudar de uma posição mais estruturalista para uma posição maquínica. Nesse sentido, vale lembrar que a última obra escrita pela dupla trazia a famosa definição da filosofia como criação conceitual e que trazia uma definição bem peculiar do que é um conceito:

“Os conceitos são agenciamentos concretos como configurações de uma máquina” (DELEUZE; GUATTARI, 1992, p. 46), pois são compostos de elementos heterógenos em zonas de vizinhança, atestando como as máquinas fazem parte do vocabulário dos autores até o final de suas produções.

Para ler o artigo, acesse

SALVIA, A.L. Das estruturas às máquinas, um estudo sobre a variação conceitual no encontro de Deleuze com Guattari. Trans/Form/Ação [online]. 2025, vol. 48, no. 2, e025003 [viewed 2 April 2025]. https://doi.org/10.1590/0101-3173.2025.v48.n2.e025003. Available from: https://www.scielo.br/j/trans/a/4rMktVFcGhNqVCp7P7T6N8w/

Referências

DELEUZE, G. and GUATTARI, F. O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. São Paulo: Editora 34, 2010

DELEUZE, G. and GUATTARI, F. O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34, 1992

DELEUZE, G. Diferença e repetição. Rio de Janeiro: Graal, 2006

DELEUZE, G. L’Île Désert. Paris: Iluminuras, 2002

DELEUZE, G. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 2007

GUATTARI, F. Caosmose. São Paulo: Editora 34, 2012

GUATTARI, F. Psicanálise e transversalidade. São Paulo: Ideias e Letras, 2004

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

SALVIA, A.L. A importância do conceito de máquina de Guattari para a filosofia de Deleuze [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2025 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2025/04/02/a-importancia-do-conceito-de-maquina-de-guattari-para-a-filosofia-de-deleuze/

 

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