Memória Documental e Suicídios na Universidade

Alessandra Sant’Anna Nunes, enfermeira, doutora em Enfermagem e professora adjunta, na área de Enfermagem Clínica, Departamento de Enfermagem Médico Cirúrgica da Faculdade de Enfermagem da UERJ (DEMC-UERJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Eliane Oliveira de Andrade Paquiela, enfermeira, doutora em Ciências do Cuidado em Saúde e professora adjunta, na área da Saúde Mental, Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (DEMC-UERJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Eluana Borges Leitão de Figueiredo, enfermeira, doutora em Ciências do Cuidado em Saúde e professora adjunta, na área da Saúde Mental, Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Logo do periódico Educação e PesquisaO artigo Suicídios em uma universidade pública brasileira: análise documental de ocorrências entre 1990 e 2023 (FIGUEIREDO et al., 2026), publicado pelo periódico Educação e Pesquisa (vol. 52, 2026), apresenta uma investigação documental conduzida por docentes e pesquisadores enfermeiros a partir dos registros do livro de ocorrências da equipe de segurança institucional de uma relevante universidade pública do Estado do Rio de Janeiro.

O estudo abrange a análise de episódios de suicídio ocorridos no campus entre 1990 e 2023. Para tal, foram examinados todos os registros disponíveis, com vistas a revelar a expressão do fenômeno ao longo do tempo e suas particularidades no contexto universitário. Os resultados indicam que o suicídio no cotidiano acadêmico se configura como questão premente e interpela o campo educacional a assumir desafios no cuidado em saúde mental da comunidade universitária.

A autoria é de Eluana Borges Leitão de Figueiredo, Eliane Oliveira de Andrade Paquiela, Alessandra Sant’Anna Nunes e Ricardo de Mattos Russo Rafael. A pesquisa ancora-se na trajetória dos autores em comissões e comitês de saúde mental e de promoção da saúde universitária, que, ao longo dos anos, vêm se dedicando à construção de políticas de cuidado e de promoção da vida no âmbito acadêmico. Realizou-se uma análise documental abrangente e inédita, contemplando a totalidade dos casos registrados pela segurança institucional, de modo a cartografar o fenômeno e aprofundar sua compreensão no ambiente educacional.

 

 

Como achados, o estudo qualitativo, descritivo e retrospectivo identificou 32 ocorrências de suicídio em uma universidade do Estado do Rio de Janeiro. A análise organiza-se em duas discussões centrais. A primeira sustenta que o suicídio não se restringe à dimensão numérica, podendo ser compreendido como expressão de uma trama de sofrimentos que atravessa o cotidiano educacional e se reinscreve historicamente. A segunda aponta recorrências com características semelhantes, com predominância de situações relacionadas à vida universitária, envolvendo majoritariamente homens jovens, sobretudo entre 20 e 25 anos, e com maior incidência em cursos da área de humanas.

O diálogo teórico com Frantz Fanon (2020) e Émile Durkheim (2024) favorece o deslocamento de perspectivas centradas na vulnerabilidade individual para uma compreensão do suicídio como fenômeno sociogênico e como fato social, atravessado por determinações estruturais, econômicas e culturais que configuram a experiência estudantil. O estudo também problematiza os limites de campanhas que se estruturam em ações pontuais e concentradas em períodos específicos do ano (LÔBO et al., 2024).

Nesse horizonte, os achados do artigo contribuem para iluminar e conferir visibilidade a uma temática frequentemente encoberta por pactos de silêncio nas universidades brasileiras. Em consonância com essa perspectiva, a Organização Mundial da Saúde (2021) destaca que é ao trazer à luz as ocorrências de suicídio que se torna possível elaborar estratégias situadas, capazes de subsidiar a tomada de decisão e favorecer a identificação de pessoas em contextos de maior vulnerabilidade.

Desse modo, quando tais situações se manifestam em espaços de formação, coloca-se o desafio de repensar práticas educacionais, fortalecer a articulação com a Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (SUS) e problematizar os múltiplos atravessamentos envolvidos na produção de sofrimentos, bem como os limites institucionais que tensionam o papel formador da universidade.

Para ler o artigo, acesse

FIGUEIREDO, E.B.L., et al. Suicídios em uma universidade pública brasileira: análise documental de ocorrências entre 1990 e 2023. Educação e Pesquisa [online]. 2026, vol. 52, e295886 [viewed 18 March 2026]. https://doi.org/10.1590/S1678-4634202652295886por. Available from: https://www.scielo.br/j/ep/a/hQfbLDvQGZtzbJ4vHGXdDTt/

Referências

DURKHEIM, É. O suicídio. São Paulo: Martin Claret, 2024.

FANON, F. Alienação e liberdade: escritos psiquiátricos. São Paulo: UBU, 2020.

LÔBO, Í.M., et al. Setembro amarelo: banalização, impactos e desafios. Revista Caderno Pedagógico [online]. 2024, vol. 21, no. 10, e9498. [viewed 18 March 2026] https://doi.org/10.54033/cadpedv21n10-244. Available from: https://ojs.studiespublicacoes.com.br/ojs/index.php/cadped/article/view/9498

WORLD HEALTH ORGANIZATION – WHO. World health statistics: monitoring health for the SDGs. Geneva: WHO, 2021. Available from: https://www.who.int/publications/i/item/9789241565486.

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

FIGUEIREDO, E.B.L., PAQUIELA, E.O.A. and NUNES, A.S. Memória Documental e Suicídios na Universidade [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2026 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2026/03/18/memoria-documental-e-suicidios-na-universidade/

 

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