Revisão de estudos sobre amamentação no cárcere instiga a ir além da estrutura de vigilância

Camila Montagner Fama, bolsista Fapesp de jornalismo científico, doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil.

Logo do periódico Saúde e SociedadeNo artigo Aleitamento materno exclusivo entre pessoas em situação de cárcere: abordagem interseccional e abolicionista para análise da produção científica no Brasil entre 2000 e 2022 publicado no periódico Saúde e Sociedade (vol. 33, no. 1, 2024), pesquisadores se voltaram para o escopo das publicações que tratam do tema da amamentação por pessoas encarceradas.

O artigo, publicado pelos pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) que fazem parte do projeto Cosmopolíticas do Cuidado no Fim-do-Mundo1, é assinado por Beatriz Oliveira Santos, Melissa Yasmin Alves Tarrão, José Miguel Nieto Olivar e Bárbara Hatzlhoffer Lourenço.

O estudo teve como foco as produções científicas nas áreas da saúde e do direito reprodutivo. No primeiro caso, o ponto de partida é a compreensão que o sistema prisional brasileiro mantém no cárcere mulheres que estão em períodos de lactação ou gestação inserindo as encarceradas no cenário da alimentação no país. No segundo, a base é a Constituição de 1988, que estabelece que as instituições penais no Brasil devem assegurar condições para que as mulheres permaneçam com seus filhos durante o período de amamentação.

No seu trabalho, Oliveira Santos e coautores concluem que a contribuição da produção científica na área da saúde sobre a amamentação no cárcere expõe principalmente a dificuldade em manter o aleitamento materno exclusivo (AME) nas instituições prisionais. A falta de orientação profissional que sirva de apoio ao AME nas unidades penitenciárias e a estrutura inadequada delas são destacados por essas pesquisas. Na área do direito predomina a descrição das tensões entre as questões da disciplina e da alimentação das crianças como um direito humano irredutível.

 

 

Oliveira Santos, a primeira autora do artigo, foi contemplada em 2025 com o prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher, concedido pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. O prêmio foi entregue como reconhecimento pelo seu trabalho abordando a alimentação no sistema prisional. Recentemente, a autora publicou em coautoria com Letícia Gil de Freitas (Gil de Freitas; Oliveira Santos, 2025) um artigo que atualiza a questão da amamentação no cárcere problematizando a Campanha Nacional de Amamentação do Ministério da Saúde.

Uma das conclusões que Oliveira Santos e coautores destacaram ainda em 2024 foi que os estudos analisados se voltam para sugestões de maior capacitação e mais investimento em estrutura no sistema prisional, como a criação de espaços específicos para que as lactantes amamentem e a formação de equipes de apoio. Mas o trabalho em específico se volta para aspectos interseccionais destacando as formas particulares de sofrimento que o sistema prisional imprime em mulheres e jovens a partir do enquadramento teórico-político do abolicionismo penal.

Desse modo, o estudo considera a importância de se pesquisar o funcionamento desse sistema em países como o Brasil, onde o poder punitivo do Estado é exercido de forma extremamente racista, como um passo importante para voltar a imaginação para outras direções que não as comportadas pelas grades da vigilância e da punição.

Notas

1. O projeto “Cosmopolíticas do cuidado no fim-do-mundo: gênero, fronteiras e agenciamentos pluriepistêmicos com a saúde coletiva” foi contemplado com financiamento Fapesp Jovem Pesquisador em 2021 sob o processo de número 06897-9.

Para ler o artigo, acesse

SANTOS, B.O., et al. Aleitamento materno exclusivo entre pessoas em situação de cárcere: abordagem interseccional e abolicionista para análise da produção científica no Brasil entre 2000 e 2022. Saúde e Sociedade [online]. 2024, vol. 33, no. 1, e230657pt [viewed 20 March 2026]. https://doi.org/10.1590/S0104-12902024230657pt. Available from: https://www.scielo.br/j/sausoc/a/SNHps8NWBQjDkkMF9cJsQBx/

Referências

GIL DE FREITAS, L. M., and OLIVEIRA SANTOS, B. Salud pública y abolicionismo penal: la Campaña Nacional de Amamantamiento exponiendo el problema. Revista Uruguaya De Antropología Y Etnografía [online]. 2025, vol. 10, no. 2, pp. 1-22 [viewed 20 March 2026]. https://doi.org/10.29112/ruae.v10i2.2606. Available from: https://ojs.fhce.edu.uy/index.php/revantroetno/article/view/2606

Links externos

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

FAMA, C.M. Revisão de estudos sobre amamentação no cárcere instiga a ir além da estrutura de vigilância [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2026 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2026/03/20/revisao-de-estudos-sobre-amamentacao-no-carcere-instiga-a-ir-alem-da-estrutura-de-vigilancia/

 

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