Carlos Alberto Scolari fala sobre as mudanças na pesquisa em Comunicação

Mariana Guedes Conde, Jornalista e Mestre em Comunicação, Teresina, PI, Brasil

Na contemporaneidade, as mídias digitais e móveis são parte de profundas alterações nas experiências e representações da realidade social e têm originado novas formas de socialização e uma lógica diferenciada de produção e recepção de informações. O contexto atual da pesquisa em Comunicação, nessa sociedade marcada pelo digital, é discutido pelo professor e pesquisador Carlos Alberto Scolari em entrevista publicada no volume 39, número 2, de Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação.

Carlos Alberto Scolari

Carlos Alberto Scolari

Scolari é professor titular do Departamento de Comunicação da Universitat Pompeu Fabra (Barcelona) e líder dos projetos Transmedia Literacy (do programa Horizon 2020 da União Europeia – 2015/2018) e Transalfabetismos (MINECO – 2015/2017). O autor, voltado principalmente para a pesquisa em comunicação digital, com temas relacionados às mídias digitais e interface e ecologia dos meios, possui uma gama de publicações na área da Comunicação, entre elas Hacer Clic. Hacia una sociosemiótica de las interacciones digitales (2004), Hipermediaciones. Elementos para una teoría de la comunicación digital interactiva (2008) e Narrativas Transmedia. Cuando todos los medios cuentan (2013).

A entrevista, realizada por Alan César Belo Angeluci, professor permanente da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, São Paulo, traz a visão do pesquisador sobre as mudanças na pesquisa em Comunicação nos dias atuais e os principais desafios dos pesquisadores da Comunicação. Scolari destaca a necessidade de se pensar novas teorias que possam abarcar os novos paradigmas contemporâneos advindos com as mídias digitais.

“Sem descartar ou negar o passado, precisamos de uma nova geração de teorias e metodologias de pesquisa para essa nova ecologia de mídia” (p. 179), defende o pesquisador, ao tempo em que afirma que “não é fácil definir o paradigma da nova Comunicação” (p. 179). Scolari explica que a maioria das teorias de Comunicação de massa está relacionada à radiodifusão, ou seja, a um paradigma transmissivo que não considera o contexto atual das mídias móveis e digitais, no qual estamos lidando com novos processos de produção, consumo, entre outros. Estas teorias podem ser úteis na recuperação de determinados conceitos, mas a necessidade de novos, de acordo com o pesquisador, é urgente.

Um dos seus recentes trabalhos – Ecología de los medios: entornos, evoluciones e interpretaciones (2015) – também é explorado na entrevista. Nele, o autor classifica a teoria da ecologia das mídias como uma “teoria transmídia para todos os efeitos”. Scolari explica que, no contexto das teorias da Comunicação, entre generalistas e especializadas, a ecologia das mídias abrange todos os meios de comunicação social em todos os aspectos, “[…] desde as relações entre os meios de comunicação e da economia até as transformações perceptivas e cognitivas sofridas pelos indivíduos após serem expostos às tecnologias de comunicação” (p. 180).

Na entrevista é também abordada a pesquisa sobre transmídia na América Latina. De acordo com o entrevistado, as contribuições estão vindo principalmente dos pesquisadores que trabalham com jornalismo transmídia, documedia e documentário transmídia. Ele destaca a atividade de grupos de pesquisa como o OBITEL (Observatório Ibero-Americano da Ficção Televisiva) e do Grupo de Estudos sobre Mídias Interativas em Imagem e Som (GEMInIS).

Em suas falas na entrevista, Scolari discute várias temáticas relacionadas à “nova ecologia das mídias”, entre elas, questões sobre cultura participativa, vigilância e privacidade. O pesquisador afirma que o “contrato” entre as corporações e os espectadores foi alterado, já não é mais o mesmo do contexto da “velha ecologia de mídia”, como ele se refere à radiodifusão. Sobre as abordagens teóricas diante desse cenário, o pesquisador é reticente: o fantasma da discussão dos apocalípticos e integrados, em referência à obra de Umberto Eco, ainda está à espreita.

Diante de todas as mudanças, Scolari é categórico ao afirmar que “a comunicação móvel está no centro dos processos de convergência cultural contemporâneos”, citação que intitula a entrevista e evidencia a comunicação móvel como um importante campo de pesquisa a ser inserido na agenda dos pesquisadores em Comunicação. Para o autor, é necessário compreender que um novo meio de comunicação com modelos de negócios, gramática, práticas de produção e dinâmicas de consumo próprios entrou no ecossistema midiático. Diferentemente de quando o surgimento do rádio e da televisão, não há elementos teóricos e metodológicos sólidos para estudar o desenvolvimento dessa nova espécie dentro do ecossistema de mídia. A fala de Scolari é valiosa no sentido de apontar para um longo caminho a ser percorrido para os que se aventurarem na pesquisa sobre a comunicação móvel.

Para ler o artigo, acesse

SCOLARI, C. A. and ANGELUCI, A. C. B. Mobile communication is at the centre of contemporary cultural convergence processes. Intercom, Rev. Bras. Ciênc. Comun. [online]. 2016, vol.39, n.2, pp.177-184. [viewed 8th November 2016]. ISSN 1809-5844. DOI: 10.1590/1809-58442016212. Available from: http://ref.scielo.org/wjkwwj

Link externo

Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação – INTERC: http://www.scielo.br/interc

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

CONDE, M. G. Carlos Alberto Scolari fala sobre as mudanças na pesquisa em Comunicação [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2016 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2016/11/18/carlos-alberto-scolari-fala-sobre-as-mudancas-na-pesquisa-em-comunicacao/

 

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