Educação Infantil: que modos de ser criança e professor estamos produzindo em tempos digitais?

Cláudia Inês Horn, Docente no Centro Universitário Univates, Lajeado, RS, Brasil

Elí Henn Fabris, Docente na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), São Leopoldo, RS, Brasil,

O artigo intitulado “Registro docente contemporâneo: infância e docência em tempos digitais”, publicado no periódico Educação & Realidade (v. 42, n. 3), aponta recortes da pesquisa de Doutorado em Educação desenvolvida na UNISINOS durante 2013 a 2017, a qual analisou as práticas de registro da documentação pedagógica, abordada na literatura italiana para primeira infância. Constata uma mudança de ênfase nas formas de registro docente sobre as aprendizagens da criança: do exame, fichas, pareceres descritivos e relatórios, que resguardavam um tempo analógico, passa a detalhar a biografia da criança na escola para além dos conteúdos, considerando também seu comportamento, gosto, afinidades, amizades. Na documentação pedagógica, os registros contemplam fotografias, filmagens, portfólios, anedotários, produções das crianças, montagem de slides, transcrições de falas, entre outras formas que valorizam um tempo digital, efêmero, pontilhista, fugaz e instantâneo.

Tal análise mostra que as crianças são incentivadas a escolher aquilo que querem fazer na escola e precisam, elas próprias, empreender suas tarefas, sendo convocadas a ocupar o centro do processo pedagógico, uma vez que “as teorias e as metodologias que vêm orientando o trabalho pedagógico na atualidade, cada vez buscam mais a satisfação imediata. Isso pode ser percebido na importância hoje concedida ao interesse dos alunos” (SARAIVA; VEIGA-NETO, 2009, p. 198). Técnicas mais refinadas e alargadas de registro são colocadas em ação para capturar a minúcia de um detalhe. Assim, as práticas de registro estão articuladas com a infância contemporânea e com a racionalidade neoliberal, em que as mudanças sociais vão sendo “derretidas” para dar espaço à leveza dos líquidos, à instabilidade, à incerteza e à insegurança nas ações das pessoas (BAUMAN, 2001). De acordo com as autoras, “a documentação pode ser uma forma de registro docente sobre a aprendizagem escolar infantil que atende aos desafios da Contemporaneidade, mas que, como uma verdade naturalizada, precisa ser questionada” (HORN; FABRIS, 2017, p. 15). É preciso discutir sobre a produtividade de tal literatura e atentar para o que se tem produzido nas práticas pedagógicas dos professores deste tempo digital, que assumem a documentação pedagógica como acima de qualquer suspeita e como uma proposta que pode servir para todos os alunos em qualquer situação.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

SARAIVA, Karla; VEIGA-NETO, Alfredo. Modernidade líquida, capitalismo cognitivo e educação contemporânea. Educ. Real., Porto Alegre, v. 34, n. 2, p. 187-201, maio/ago. 2009.

Para ler o artigo, acesse

HORN, C. I.  and FABRIS, E. H. Registro Docente Contemporâneo: infância e docência em tempos digitais. Educ. Real. [online]. 2017, vol.42, n.3, pp.1103-1122, ISSN 0100-3143 [viewed 12 Octuber 2017]. DOI: 10.1590/2175-623660624. Available from: http://ref.scielo.org/qdsk9f

Link externo

Educação & Realidade – EDREAL: www.scielo.br/edreal/

Grupo Interinstitucional de Pesquisa em Docências, Pedagogias e Diferenças (GIPEDI/ CNPq): dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/1673844229666121

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

HORN, C. I. and FABRIS, E. H. Educação Infantil: que modos de ser criança e professor estamos produzindo em tempos digitais? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2017 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2017/09/20/educacao-infantil-que-modos-de-ser-crianca-e-professor-estamos-produzindo-em-tempos-digitais/

 

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