Entre o registro do sujeito e o registro do social: a psicanálise na experiência contemporânea

Joel Birman, Editor do periódico Ágora – Estudos em Teoria Psicanalítica, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

O periódico Ágora – Estudos em Teoria Psicanalítica (v. 20, n. 2, maio/agosto, 2017) abrange uma série de temáticas contemporâneas que incitam a psicanálise a repensar a experiência do sujeito em sua articulação como o campo social e com a cultura.

O estatuto da inovação na atualidade é discutido por Anna Carolina Lo Bianco e Fernanda Costa-Moura no artigo “Inovação na ciência, inovação na psicanálise”. A partir das contribuições de Lacan (1965[1966]/1998) e Koyré (1971/1991)s autoras evidenciam como as concepções de sujeito e de ato são influenciadas pela inovação (articulada aos procedimentos científicos), problematizando, assim, como as operações matemáticas incidem na ordem do discurso através da qual o sujeito se constitui. O lugar da ciência também é tematizado no artigo de Heloisa Marcon, intitulado “Religião, ciência e capitalismo: sujeito massificado, objeto padrão e medida comum para o gozo”. Partindo dos trabalhos de   Freud (1930/1980), Lacan (1966/1998) e Clavreul (1983), dentre outros, a autora aborda como os discursos da religião, da ciência e do capitalismo produzem a massificação dos sujeitos, anulando as possibilidades criativas e singulares face ao desamparo.

O capitalismo aparece como questão, ainda, no artigo “A presença do capitalismo na teoria dos discursos de Lacan”, de Vinicius Darriba e Mauricio D’Escragnolle. Considerando as diferenças entre as noções de discurso e de linguagem, os autores analisam, à luz da teoria dos discursos, o discurso capitalista. Para tal, os autores baseiam-se em diversos textos de Lacan, como De um Outro ao outro (Lacan, 1968-1969/2008) e De um discurso que não fosse semblante (Lacan, 1971/2009).

Considerando que o lugar claudicante do pai, a inconsistência do Outro e o imperativo de gozo são marcas do discurso capitalista atual, o trabalho “Adolescer na contemporaneidade: uma crise dentro da crise”, de Humberto de Oliveira e Bruno Hanke analisa – a partir de autores como Alexandre Stevens (2004), Freud (1927/1996) e Lacan (1962-1963/2005) – a dimensão de crise, dando ênfase, a crise da adolescência no contexto contemporâneo.

As implicações psíquicas envolvidas no processo de adolescer também é abordada por Olivier Ouvry no artigo “A teoria do puberal em Jacques Lacan”. O autor parte da hipótese de que Lacan (1957-1958/1998), a partir do Seminário 5, faz um avanço teórico ao trabalhar a transição entre o Outro do Outro e não existe Outro do Outro (Miller, 2013), o que se assemelha ao percurso da criança ao se tornar púbere: queda do pai imaginário do Édipo e revelação de S(A barrado).

A função do pai é analisada por Cristina Marcos e Eduardo Sales no artigo “Os nomes do pai e a generalização da castração”, onde trabalham os modos singulares da presença da função paterna a partir do eixo da generalização da castração. Com base em trabalhos de Lacan, como As formações do inconsciente  (Lacan, 1957-1958/1999) e A angústia (Lacan, 1962-1963/2005), os autores discutem a nova leitura que o autor empreender sobre o Édipo freudiano no momento em que pluralizou o Nome-do-pai e demonstrou que a castração é, antes de tudo, uma operação de inscrição da linguagem.

Em “A metapsicologia do masoquismo: O enigma do masoquismo feminino e sua relação com a fantasia masculina”, Carolina Nassau Ribeiro analisa as proposições de Freud (1924/1974) sobre o masoquismo e a tese de Lacan (1962-1963/2005) de que o masoquismo feminino é uma fantasia do desejo masculino, demonstrando que quando ela se apresenta nas mulheres é para enlaçar a fantasia masculina.

Outro olhar sobre a linguagem é lançado no artigo “Saber, verdade e gozo: o muro de linguagem e a função poética”, de Ingrid de Figueiredo, cujo objetivo é discutir a articulação entre saber, verdade e gozo como uma escrita no muro de linguagem. A partir de autores como Lacan (1969-1970/ 1992), Bousseyroux (2013) e Cassin (2013), a autora questiona as possibilidades de transposição da linguagem a partir da função poética e do ultrapassar da significação fálica. Linguagem e arte também é tangenciado no artigo de Márcia Maesso, intitulado “O tempo do luto e o discurso do Outro”, que busca discutir o luto – através da biografia de Van Gogh (Forrester, 1983) e do filme “Sede de Viver” (1956)–, contemplando a importância dos ritos e da linguagem para este trabalho psíquico. Outra articulação entre arte e psicanálise é proposta por Ana Lúcia Marsillac e Edson Luiz Sousa no trabalho “Conexões: transformações do objeto da arte” que conta com contribuições de Lacan (1995) e França (1997). No artigo, os autores analisam as obras de dois artistas brasileiros e de um grupo de artistas catalães para pensar as contingências de determinados atos de criação e como a arte contemporânea transformou a própria concepção de objeto de arte.

Em “Paredes movediças: o espaço como efeito de linguagem”, Fernanda Breda e Simone Moschen discutem a constituição da noção de espaço para a psicanálise, abordando as relações entre percepção e representação a partir de fenômenos de instabilidade de bordas no campo pulsional, como: a alucinação, a despersonalização, o estranho-familiar (Freud, 1919/2010), os processos miméticos (Caillois, 1986) e a errância psicótica. Outra faceta do estranho-familiar (Freud, 1919/2010) é contemplada no artigo “O autômato: uma figura da paixão”, de Iza Maria de Oliveira, onde se discute como o mecanismo psíquico da alienação é inerente ao fenômeno do automatismo que, por sua vez, é próprio do estado passional. Partindo desse mesmo texto de Freud e do trabalho de Maleval (2009/2011), Ramyres Araujo, Luis Achiles Furtado e Samara Santos defendem, no artigo “A noção de duplo e sua importância na discussão do autismo”, como a noção de duplo pode ser uma importante ferramenta na clínica e na educação inclusiva com autistas.

Referências

BADIOU, A.; CASSIN, B. Não há relação sexual: duas lições sobre “O aturdito” de Lacan. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2013.

BOUSSEYROUX, M. Os três estados da palavra: topologia da poesia. Conferência ministrada na Universidade de São Paulo, USP em 25 de abril de 2013. Inédito.

CAILLOIS, R. Mimetismo e psicastenia legendária. In: Che vuoi? Psicanálise e Cultura. Cooperativa Cultural Jacques Lacan: Porto Alegre, 1986.

CLAVREUL, J. A ordem médica – poder e impotência do discurso médico. São Paulo: Brasiliense, 1983.

FORRESTER, V. Van Gogh ou enterro no campo de trigo. Porto Alegre: L&PM, 1983.

FREUD, S. O inquietante (1919). In: Sigmund Freud: obras completas. Tradução e notas Paulo César de Souza. Vol. 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, S. O problema econômico do masoquismo (1924). Rio de Janeiro: Imago, 1974. (Ed. standard brasileira das obras completas, 19).

FREUD, S. O futuro de uma ilusão (1927). Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Ed. standard brasileira das obras completas, 21).

FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). Rio de Janeiro: Imago, 1980. (Ed. standard brasileira das obras completas, 21).

KOYRÉ, A. Do mundo do “mais ou menos” ao universo da precisão (1971). In: Estudos de história do pensamento filosófico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1991.

LACAN, J. As formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999. (O seminário, 5).

LACAN, J. A angústia (1962-1963). Rio de Janeiro: J. Zahar, 2005. (O seminário, 10)

LACAN, J. A ciência e a verdade (1965-1966). In: Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.

LACAN, J. De um Outro ao outro (1968-1969). Rio de Janeiro: J. Zahar, 2008. (O seminário, 16).

LACAN, J. O avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: J. Zahar, 1992. (O seminário, 17).

LACAN, J. De um discurso que não fosse semblante (1971). Rio de Janeiro: J. Zahar, 2009. (O seminário, 18).

MALEVAL, J. C. El altista y su voz (2009). Tradução de Enric Berenguer. Madrid: Editorial Gredos, 2011.

MILLER, J.-A. L’Autre de l’Autre. Palestra de encerramento do 11o Congresso da NLS (Nouvelle École Lacanienne de Psychanalyse). Le sujet psychotique à l’époque Geek Atenas., 19 mai 2013. Disponível em: <http://www.amp-nls.org/downloads/JAM_Athenes2013.pdf>.

STEVENS, A. Adolescência, sintoma da puberdade. In: Curinga: clínica do contemporâneo. Belo Horizonte: EBP-MG. Nov. 2004, n. 20.

Para ler os artigos, acesse

Ágora (Rio J.) vol.20 no.2 Rio de Janeiro May/Aug. 2017

Link externo

Ágora – Estudos em Teoria Psicanalítica – ÁGORA: www.scielo.br/agora

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

BIRMAN, L. Entre o registro do sujeito e o registro do social: a psicanálise na experiência contemporânea [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2017 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2017/09/27/entre-o-registro-do-sujeito-e-o-registro-do-social-a-psicanalise-na-experiencia-contemporanea/

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Post Navigation