ARS organiza dossiê para debater a produção artística de Hélio Oiticica

André Pitol, Mestre e bacharel em Artes Visuais, São Paulo, SP, Brasil

O Dossiê Hélio Oiticica (ARS 30) conta com a contribuição de uma série de pesquisadores nacionais e internacionais, que também participaram de um Seminário Internacional sobre o artista, ocorrido em São Paulo, no Instituto de Estudos Avançados da USP, entre os dias 25 e 27 de outubro. O encontro possibilitou reflexões que partiram dos escritos de Hélio Oiticica, seus projetos, suas referenciais e redes de contatos.

Os dezessete textos publicados no dossiê, contribuições de pesquisadores nacionais e internacionais, ofereceram diversas abordagens e perspectivas para a reavaliação do legado que Hélio Oiticica deixou para a arte contemporânea.

Pode-se destacar, em primeiro lugar, as participações do escritor Silviano Santiago e do fotógrafo e pesquisador Andreas Valentin, que compartilharam, quase como testemunhas, os diferentes momentos que passaram com o artista carioca nos anos 1970 em Nova York, quando todos lá moravam. Enquanto Santiago faz em “Hélio Oiticica em Manhattan” um perfil de Oiticica, Valentim compartilha em “Fazendo arte e cinema (ou quasi-cinema) com Hélio Oiticica” suas próprias experiências como artista de quem Oiticica foi, efetivamente, professor. Nesses depoimentos, Santiago e Valentim descrevem minuciosamente a configuração física do trabalho intitulado Babylonests – realizado por Oiticica no loft 4 do prédio número 81 da Segunda Avenida, que também abrigou seis de seus Ninhos – e rememoram as inefáveis faíscas criativas depreendidas desse espaço.

Assim também foi a participação de Celso Favaretto que, tendo sido o responsável por um dos primeiros estudos monográficos sobre Hélio (FAVARETTO, 2000), enfatiza no artigo “O grande mundo da invenção” o que há de latente e pulsante em sua poética, como as ações ambientais e a descoberta do corpo e do espectador em sua arte. O corpo como elemento central nos trabalhos de Hélio Oiticica foi tema também do texto de Paula Braga, “A cor da música: há uma metafísica em Hélio Oiticica”, que propõe uma investigação filosófica sobre a relação entre corpo que pode ser identificada desde suas pinturas da década de 1950 até o gesto de Devolver a terra à terra. Paula Braga é pesquisadora de referência sobre Hélio Oiticica, tendo publicado Hélio Oiticica: singularidade, multiplicidade (BRAGA, 2013) e organizado a coletânea Fios soltos: a arte de Hélio Oiticica (BRAGA, 2008).

De uma perspectiva também filosófica e ressaltando a dimensão política do artista, Tania Rivera, autora do livro Hélio Oiticica e a arquitetura do sujeito (RIVERA, 2012), sinaliza em seu artigo para ARS, “Subjetividade anônima e cultura aberta no pensamento de Hélio Oiticica” proposições vigorosas a partir das reflexões do artista sobre o eu, o outro e o objeto de arte.

A aproximação de Oiticica com o cinema, ou que o próprio chamou de quasi–cinema, também recebeu atenção. Esse é o assunto nos artigos de Maria Angélica Melendi, “Legal no ilegal: as Cosmococas, a Subterrânea e os jardins do museu”, que focaliza especialmente as Cosmococas.  Rubens Machado Júnior também aborda as experiências audiovisuais de Oiticica em “Agripina é Roma-Manhattan: um belo quasi-filme de HO”, artigo em que analisa Agripina é Roma Manhattan e identifica nele uma articulação pela montagem em blocos, mais do que em planos. Há ainda o artigo de Theo Duarte, “Lágrima-Pantra, a míssil: cinema Subterrânea” que investiga Lágrima-Pantera, a míssil, conectando-o diretamente com os personagens que se encontravam no exílio artístico em Nova Iorque, particularmente o diretor do filme, Júlio Bressane, e o próprio Hélio Oiticica.

Outros pesquisadores estabeleceram em seus textos paralelos entre a produção de Hélio Oiticica e outros artistas. Irene Small, autora de uma pesquisa atual que foi publicada em livro que se tornou referência sobre a obra de Oiticica, Hélio Oiticica: folding the frame (2016), publicou na ARS o artigo “Pigment pur e o Corpo da Côr: prática pós-pictórica e transmodernidade” que se detém nos Bólides, colocando-os em paralelo com os trabalhos de Yves Klein, apontando que ambos os artistas teriam em comum um uso específico da cor como resposta à crise da pintura. Já Guilherme Wisnik analisa, em “Dentro do Labirinto: Hélio Oiticica e o desafio do ‘publico’no Brasil” a obra de Hélio comparando-o aos trabalhos dos artistas minimalistas norte-americanos, e verificando a dificuldade dos trabalhos brasileiros com o espaço e o sentido de valor público.

Já em “Parangolé-Botticelli: pensamento da montagem e razão da história da arte. Forma transacional e geometria do carnaval”, Luis Pérez-Oramas propõe uma comparação, na forma de uma “exposição imaginária”, entre Parangolé-Botticelli, ou seja, realizando aproximações entre os artistas da América do Sul e o que teriam realizado os artistas de Florença na reinvenção da antiguidade clássica.

Evidenciar os aspectos da produção de Hélio Oiticica a partir das exposições e da recepção dos trabalhos também foi foco de análise. Em “The Whitechapel Experiment, o projeto Éden e a busca por uma experiência afetiva total”, o ponto de vista do trabalho de Maria de Fátima Morethy Couto focaliza a organização e a recepção que a produção de Oiticica teve no exterior, especialmente a exposição que o artista realizou na Whitechapel. É também de uma perspectiva exterior que o artigo de Maria Iñigo Clavo, “!Sucia Copia!” revisa a versão nacionalista da interpretação do trabalho e da figura de Oiticica a partir de uma ótica pós-colonial. Lynn Zelevansky, entrevistada por Camila Maroja, falou sobre a organização da mostra Hélio Oiticica: To Organize Delirium, exibida no Carnegie Museum of Art, em Pittsburgh, e as variações nas edições mostradas em Chicago e em Nova Iorque. A autora aborda os desafios diante da reconstrução das obras e do uso das novas tecnologias para as projeções das imagens das Cosmococas. Já o texto de Roberto Conduru, “Mataesquema, metaforma, mataobra” evidencia como teriam sido as experimentações vividas pelo artista em galerias, museus e na própria cidade que já o teriam despertado para a percepção do corpo e da dança identificados, por exemplo, nos Metaesquemas.

Por fim, a abordagem de Frederico Coelho, pesquisador da obra de Oiticica e autor do livro Livro ou livro-me – os escritos babilônicos de Hélio Oiticica (COELHO, 2010) enfatiza a importância dos deslocamentos do artista para Londres, Sussex, Paris e Nova Iorque, entre 1969 e 1970. Em seu artigo “1970: pause/play”, Coelho pontua que essas viagens teriam provocado mudanças substanciais na poética do artista por ampliarem suas perspectivas sobre a produção, a inserção e a circulação de suas obras na cena artística.

A realização do Seminário e a organização do dossiê dedicada a Hélio Oiticica foi decidida pelo Comitê Editorial da ARS após o recebimento de inúmeros artigos sobre o artista e sua obra. Essa situação exemplifica claramente a atual condição do periódico como espaço de diálogo e debate sobre a produção artística contemporânea. Aproveitou-se a atualidade das questões debatidas para a produção de conteúdo para a Semana Especial da ARS no Blog Scielo.

Referências

BRAGA, Paula. (Org). Fios soltos: a arte de Hélio Oiticica. São Paulo: Perspectiva, 2008.

BRAGA, Paula. Hélio Oiticica: singularidade, multiplicidade. São Paulo: Perspectiva, 2013.

COELHO, Frederico. Livro ou livro-me – os escritos babilônicos de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2010.

FAVARETTO, Celso. A invenção de Hélio Oiticica. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 2000

RIVERA, Tania. Hélio Oiticica e a arquitetura do sujeito. Niterói: EDUFF, 2012.

SMALL, Irene. Hélio Oiticica: folding the frame. Chicago: University of Chicago Press, 2016.

Para ler os artigos, acesse

ARS (São Paulo) vol.15 no.30 São Paulo July/Dec. 2017

Link externo

ARS (São Paulo) – ARS: www.scielo.br/ars

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

PITOL, A. ARS organiza dossiê para debater a produção artística de Hélio Oiticica [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2017 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2017/11/27/ars-organiza-dossie-para-debater-a-producao-artistica-de-helio-oiticica/

 

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