Intelectuais, mediação cultural e vulgarização da ciência

Ygor Gabriel Alves de Souza, bolsista da Revista Varia Historia, Belo Horizonte, MG, Brasil

Em seu último número de 2018, a Varia Historia (v. 34,  n. 66), periódico do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Minas Gerais, traz o dossiê “Imprensa e mediadores culturais: ciência, história e literatura”, organizado por Ângela Maria de Castro Gomes, professora visitante na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Kaori Kodama e Maria Rachel Froés da Fonseca, ambas professoras do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde na Casa Oswaldo Cruz. O dossiê, que dialoga amplamente com a história dos intelectuais, a história da imprensa e também com a história do livro e da leitura, trabalha de maneira abrangente com a categoria “intelectual”, entendendo sob essa denominação não apenas os  produtores de bens culturais e simbólicos, como também “aqueles [agentes] que se volta[ram] para práticas culturais de difusão e transmissão, ou seja, que faz[em] ‘circular’ os produtos culturais em grupos sociais mais amplos e não especializados, razão pela qual pode ser identificado, entre outras possibilidades, como vulgarizador ou divulgador” (GOMES; KODAMA; FONSECA, 2018, p. 594). Além disso, o dossiê traz a imprensa para primeiro plano, discutindo como ela foi utilizada para a circulação de ideias e para a difusão de conhecimentos científicos, sejam eles das chamadas “ciências da natureza”, sejam da ciência histórica.

Reunindo seis artigos, o dossiê conta com os textos “Tornar a ciência popular: Figuier nos jornais e revistas do Brasil (1850-1870)”, de Kaori Kodama; “‘A ciência popularmente tratada, e não a ciência profissionalmente discutida tal será o nosso sistema de redação’ Imprensa e vulgarização das ciências no Brasil na segunda metade do século XIX”, de Maria Rachel Froés da Fonseca; “A escrita da história nos palcos: teatro histórico e crítica literária na Marquesa de Santos”, de Ângela Maria de Castro Gomes; “‘Terras da Nossa Terra’ — Das ondas do rádio às colunas de jornal”, de Roberta Pedroso Triches Ribeiro; e “Uma vez mais, Sérgio e Gilberto: debates sobre o ensaísmo no suplemento literário do Diário de Notícias (1948-1953)”, de Giselle Venancio e Robert Wegner.

O artigo de Kaori Kodama, que abre o dossiê, analisa a presença dos textos e das ideias do cientista francês Louis Figuier na imprensa brasileira dos anos 1850 a 1870, ao mesmo tempo em que reflete sobre seu papel como “vulgarizador da ciência”. Atentando para as particularidades da sociedade imperial, Kodama percebe, a partir da figura de Figuier, como se deu o processo de legitimação da ciência para públicos que não eram considerados seu alvo principal. Além disso, a autora percebe também como esse movimento de aproximação entre pólos distantes culminou na afirmação de uma hierarquia entre o conhecimento científico restrito a poucas pessoas e aquele vulgarizado e popularizado entre um público mais amplo.

O artigo de Maria Rachel Fróes da Fonseca retoma alguns periódicos publicados principalmente nas províncias do Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia na segunda metade do século XIX, analisando a forma encontrada por determinados atores estratégicos para a divulgação e popularização do conhecimento científico. Nesse sentido, partindo da concepção de “intelectual mediador” (Cf. GOMES; HANSEN, 2016), Fonseca estuda, para além do periódico em si, os indivíduos que o editavam e o produziam, entendendo que a principal intenção deles “[…] era promover a cultura científica para todos, por meio de uma linguagem amena” em contraponto aos espaços científicos especializados que, conclui a autora, “compartilhavam estes conhecimentos com seus jargões teóricos próprios” (FONSECA, 2018, p. 663).

Analisando a peça “A Marquesa de Santos”, de Viriato Corrêa, que estreou em 1939, bem como suas críticas e recepções, o texto de Ângela Maria de Castro Gomes encaminha o dossiê para as reflexões sobre a história da historiografia. Gomes demonstra como o teatro conseguiu atingir um público amplo (a peça analisada, por exemplo, ultrapassou a marca de cem apresentações) e simultaneamente contribuiu para a formação de uma cultura histórica brasileira no fervor do nacionalismo do Estado Novo, de forma que intelectuais e comediógrafos, como Vitório Corrêa, assumissem papel fundamental nesta construção. O artigo de Roberta Pedroso Triches Ribeiro também aborda a formação de certa cultura histórica durante o Estado Novo português por meio da análise da coluna “Terra da Nossa Terra”, publicada no periódico “Voz de Portugal”, editado por José Augusto Correia Varella entre as décadas de 1940 e 1950 no Rio de Janeiro. A seção analisada, segundo Ribeiro, “tratava-se de uma coluna essencialmente pedagógica, uma forma de ensinar história e geografia de Portugal para os leitores, situando sempre o espaço português no tempo” (RIBEIRO, 2018, p. 708). Foi nessa seção, “Terras de Nossa Terra”, que seu editor pôde aproveitar de seu lugar nas redes de sociabilidades em que estava envolvido para atuar como um mediador cultural.

Encerrando o dossiê, o artigo de Giselle Venancio e Robert Wegner investiga os debates travados entre Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre por meio dos textos publicados na quarta seção do suplemento literário “Diário de Notícias”, entre 1948 e 1950. Ao analisar as questões acerca da relevância do gênero ensaio, Venancio e Wegner identificam outras questões que também estavam em disputa naquele momento, principalmente a consolidação da história como disciplina acadêmica no Brasil, elemento que só pode ser observado alguns anos após os debates no “Diário de Notícias”. No interior dessas discussões, o artigo mostra como existiam duas percepções que, apesar de distintas, estavam conectadas à interpretação do papel dos estudos acadêmicos no Brasil. Os autores também ressaltam que “nas páginas do suplemento aparece o momento quase exato do efetivo rompimento entre os autores, quando Sérgio Buarque toma como dirigida a ele a observação de Freyre segundo a qual sua obra era criticada ‘por censores apenas caprichosos nas suas opiniões’” (VENÂNCIO; WEGNER, 2018, p. 758).

A respeito do dossiê, assista à entrevista concedida pela professora Ângela Maria de Castro Gomes à professora Ana Paula Sampaio Caldeira, editora-chefe da Varia Historia, na qual são ressaltadas as perspectivas teóricas que perpassam os artigos apresentados e que conectam o dossiê. A entrevista está disponível no Canal Varia Historia, no YouTube.

Referência

GOMES, Â. C. and HANSEN, P. Intelectuais mediadores: práticas culturais e projetos políticos. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2016.

Para ler os artigos, acesse

Varia hist. vol.34 no.66 Belo Horizonte Sept./Dec. 2018

Link externo

Varia Historia – VH: www.scielo.br/vh

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SOUZA, Y. G. A. Intelectuais, mediação cultural e vulgarização da ciência [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2018 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2018/11/08/intelectuais-mediacao-cultural-e-vulgarizacao-da-ciencia/

 

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