Internacionalização de periódicos acadêmicos — epistemologias globais e locais na Revista Estudos Feministas

Ana Maria Veiga, Professora de História (UFPB), editora de divulgação da revista Estudos Feministas (REF), editora da Saeculum – Revista de História (PPGH/UFPB), João Pessoa, PB, Brasil

Seguindo critérios de internacionalização, o volume 26, número 3 da Revista Estudos Feministas (REF) traz, entre seus artigos variados, uma seção especial publicada em inglês, com artigos resultantes da edição brasileira do 13th Women’s Worlds Congress (Mundos de Mulheres), que aconteceu em conjunto com o já consolidado evento internacional Fazendo Gênero, em 2017 na Universidade Federal de Santa Catarina.

Uma das tendências dos periódicos acadêmicos nos últimos anos é a internacionalização, em consonância com as universidades públicas e seus programas de pós-graduação. O mesmo critério é adotado para a avaliação dos periódicos indexados em portais científicos como o SciELO, por exemplo, que exige atualmente um percentual importante em inglês da produção das publicações que abriga. Se, por um lado, existe a necessidade de uma maior divulgação e acesso ao material acadêmico produzido no Brasil — e o inglês acaba sendo uma ferramenta linguística essencial nesse processo — de outra parte, entendemos que a produção das ciências humanas se encontra em situação desvantajosa diante do conhecimento no campo ciências “duras”, que está hoje organicamente vinculado a esse idioma.

Adquirimos a consciência de que os artigos escritos em português ou espanhol acabam circulando somente entre os leitores e leitoras dos nossos próprios idiomas. Há ainda outro fator relevante, que é a não leitura dos periódicos editados em português por interessados em seus temas, mas que estão alheios a este idioma, mesmo que as publicações tenham parte de seu conteúdo publicada em língua inglesa. Seguindo tal lógica, indexadores como o SciELO acabam proporcionando uma importante abertura de busca e localização de material, que vai além do acesso direto a cada periódico.

A REF, editada por um grupo de pesquisadoras inseridas em redes transnacionais, busca divulgar conhecimento científico também em língua inglesa, como é o caso da mencionada seção especial, organizada por Susana Bornéo Funck. O evento conjunto 13th Women’s Worlds Congress/Mundos de Mulheres e Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 reuniu mais de dez mil pessoas inscritas. Os textos escolhidos para a seção especial foram apresentados em conferências — como o artigo da britânica Clare Hemmings intitulado “A Feminist Politics of Ambivalence: Reading with Emma Goldman” — e em mesas redondas, como o artigo “The history of Feminism and Doing Gender in India”, da intelectual indiana Rekha Pande.

Conversamos (REF) com Susana Bornéo Funck, organizadora da seção especial. De acordo com ela, a tendência de internacionalização das pesquisas e das publicações “[…] significa a possibilidade, embora remota, de ser lida fora da América Latina. Digo remota porque não vejo ainda muito interesse do hemisfério norte em saber o que anda acontecendo nos países do sul.” Para ela, as questões da violência e da pobreza (em saúde e educação) são as principais pautas internacionais dos feminismos nos dias atuais. Em resposta à questão sobre no que implica essa relação entre o idioma e a divulgação do conhecimento científico, Susana Funck adverte: “Por um lado, facilita a circulação; por outro, implica um fortalecimento ainda maior do poder intelectual (e econômico) das grandes potências.” A visão crítica de Funck é compartilhada por Mara Lago, autora do artigo “Vicissitudes of Internationalization: Academic articles in Brazilian journals”, publicado na mesma seção da REF.

Boa parte dos textos publicados gira ao redor das temáticas diversas como saúde, prostituição, economia, política, feminismo negro, etc., distribuídos em 19 artigos variados, 10 textos da seção especial, 8 resenhas e ainda a seção Ponto de vista.

Enquanto trabalha para manter o nível que a consolidou internacionalmente, publicando em idiomas diversos, a editoria da REF oferece artigos de alto rigor acadêmico, que fazem dela uma referência entre os periódicos científicos latino-americanos. Assim sendo, ainda do terceiro número de 2018, destacamos também os artigos em língua espanhola. São eles: “Cuerpos y espacio en un mito de origen alternativo”, de Nadia Der-Ohannesian; “Representación de la Mujer de La Araucanía-Chile en la Revista Tic Tac (1914)”, de Sandra del Pilar López Dietz, Stefanie Pacheco Pailahual, Ana Paola López Dietz e Luis Alejandro Nitrihual Valdebenito; “Memorias de las militancias femeninas antes del Golpe de Estado (Valparaíso)”, por María Angélica Cruz Contreras; e “Estereotipos de género que fomentan violencia simbólica: desnudez y cabellera”, escrito por Carolina Serrano-Barquín, escrito por Héctor Serrano-Barquín, Patricia Zarza-Delgado e Graciela Vélez-Bautista.

A relação com autoras e autores latino-americanos, e outros de língua espanhola e portuguesa, e a circulação de conhecimento por meio de periódicos situados em países do Sul contribuem para a expansão de uma epistemologia feminista decolonial (Cf. LUGONES, 2008; MOHANTY, 2008), embora por vezes ainda embasada em referenciais teóricos situados no Norte global. A ruptura com essa hegemonia teórica é o que permite uma consciência maior sobre o conceito de “cololialidade” (QUIJANO, 2008), seja ela referente ao âmbito do poder ou do saber. Isso ajuda a definir a relevância de periódicos latino-americanos e o lugar da REF como difusora de um conhecimento científico, ao mesmo tempo, internacional e localizado.

Referências

LUGONES, M. Colonialidad y género. Tabula Rasa, n. 9, p.  73-101, 2008. ISSN: 1794-2489 [acessado 28 noviembre 2018]. Available from: http://www.revistatabularasa.org/numero-9/05lugones.pdf

MOHANTY, C. T. Bajo los Ojos del Occidente. Academia Feminista y Discurso Colonial. In: NAVAZ, Liliana Suárez y HERNÁNDEZ, Aída (Eds.). Descolonizando el feminismo. Teorias y prácticas desde las márgenes. Madrid: Cátedra, 2008.

QUIJANO, A. Colonialidad del poder y clasificación social. Journal of World-Systems Research, v. 11, n. 2, p. 342-386, 2000. DOI: 10.5195/jwsr.2000.228

Para ler os artigos, acesse

CONTRERAS, M. A. C. Memorias de las militancias femeninas antes del Golpe de Estado (Valparaíso). Rev. Estud. Fem. [online]. 2018, vol.26, n.3, e48715. ISSN 0104-026X. [viewed 3 January 2019]. DOI: 10.1590/1806-9584-2018v26n348715. Available from: http://ref.scielo.org/vrmf3v

DER-OHANNESIAN, N. Cuerpos y espacio en un mito de origen alternativo. Rev. Estud. Fem. [online]. 2018, vol.26, n.3, e48371. ISSN 0104-026X. [viewed 3 January 2019]. DOI: 10.1590/1806-9584-2018v26n348371. Available from: http://ref.scielo.org/ssdwgg

DIETZ, S. del P. L. et al. Representación de la Mujer de La Araucanía-Chile en la Revista Tic Tac (1914). Rev. Estud. Fem. [online]. 2018, vol.26, n.3, e51323. ISSN 0104-026X. [viewed 3 January 2019]. DOI: 10.1590/1806-9584-2018v26n351323. Available from: http://ref.scielo.org/3xy5c3

SERRANO-BARQUIN, C. et al. Estereotipos de género que fomentan violencia simbólica: desnudez y cabellera. Rev. Estud. Fem. [online]. 2018, vol.26, n.3, e44848. ISSN 0104-026X. [viewed 3 January 2019]. DOI: 10.1590/1806-9584-2018v26n344848. Available from: http://ref.scielo.org/ht5jnr

Link externo

Revista Estudos Feministas – REF: www.scielo.br/ref

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

VEIGA, A. M. Internacionalização de periódicos acadêmicos — epistemologias globais e locais na Revista Estudos Feministas [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/01/03/internacionalizacao-de-periodicos-academicos-epistemologias-globais-e-locais-na-revista-estudos-feministas/

 

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