Rigor e precisão nas ciências da linguagem. Existem parâmetros fixos para uma interpretação?

Maria Helena Cruz Pistori, Editora executiva da Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, São Paulo, SP, Brasil.

Logo da Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso.O artigo Valentin N. Volóchinov e a entonação expressiva: entre a tragédia e a glória, de autoria de Filipe Almeida Gomes (PUC-Minas), publicado pelo periódico Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso (vol. 20, no. 04, 2025), trata especificamente do conceito de entonação expressiva na obra de Valentin N. Volóchinov (1895-1936), membro do Círculo de Bakhtin. Um dos primeiros aspectos que nos chama a atenção para a leitura do artigo é seu foco estar na obra de Volóchinov, que publicou originalmente seus trabalhos na Rússia, entre os anos de 1925 e 1930.

No entanto, por muitos anos, a obra do linguista russo teve sua autoria questionada ou contestada, no Brasil e no exterior, e era comum seu nome aparecer entre parênteses, ou separado por uma barra, após o nome de Mikhail Bakhtin, como ocorreu nas primeiras publicações brasileiras de Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico nas ciências da linguagem, desde 1979. No Brasil, isso foi uma constante até as mais recentes traduções de sua obra diretamente do russo: em 2017 – Marxismo e filosofia da linguagem, e em 2019 – A palavra na vida e a palavra na poesia. Ensaios, artigos, resenhas e poesia. Filipe A. Gomes se dedica especialmente a ela, tendo inclusive publicado, pela editora Contexto, o trabalho originado de sua pesquisa de doutorado: Valentin Volóchinov: a vindicação do axiológico (2023).

O artigo de Gomes, por meio de uma ampla pesquisa bibliográfica, mostra como a valoração presente na linguagem, que se expressa por meio da entonação expressiva do enunciado, é uma preocupação de Volóchinov desde seus primeiros textos: a entonação expressiva é a mais plena expressão da avaliação social, afirma o linguista russo. Ao longo do artigo, Gomes destaca como a entonação expressiva no discurso afeta a possibilidade da existência de parâmetros fixos de validação de uma interpretação no âmbito das ciências humanas, o que a afasta de uma cientificidade positivista. Em suas palavras:

… se, por um lado, a entonação expressiva parece indicar a inexistência de parâmetros fixos
para a validação de uma interpretação – o que poderia ser visto como uma tragédia
metodológica, por comprometer a previsibilidade positivista –, por outro lado, a
entonação expressiva parece indicar a impossibilidade de se tolher
a heterogeneidade das interpretações – o que se revela uma glória epistemológica,
por colocar o trabalho com o ato discursivo ao abrigo de toda investida positivista

Para discorrer sobre o tema, Gomes trata, primeiramente, do que seria a expressividade na época em que Volóchinov escreveu seus textos: os anos finais de 1920 e os iniciais de 1930. Recupera, então, vários autores que, no período, trataram da questão, especialmente em termos da “função expressiva da linguagem”, quer sob uma ênfase individualizante, quer sob a ênfase sociologizante, ou ainda do ponto de vista estilístico.

 

 

Na segunda seção do artigo, Gomes percorre os trabalhos de outros membros do Círculo – Pavel N. Medviédev e Mikhail Bakhtin, sempre buscando como tratam a entonação expressiva, tanto na modalidade oral como na modalidade escrita dos enunciados. Retoma proposições de Medviédev e de Bakhtin, contextualizando-as, e colocando-as em diálogo com as de Volóchinov. Ao mostrar como a entonação expressiva incide sobre palavras, Gomes afirma que observá-las não é o suficiente para recuperar os sentidos valorativos de um enunciado concreto, pois “num mesmo enunciado, podem estar presentes variadas entonações expressivas e quanto mais longo for o enunciado […], maiores são as chances de haver uma diversidade de entonações”. Isso seria uma “tragédia metodológica”?

A resposta do autor se encontra nos exemplos dispostos na terceira seção do artigo – “A entonação expressiva em enunciados escritos: quando a tragédia é uma glória”, que vão complementar e contradizer a hipótese. O leitor é levado a observar, num enunciado escrito, quais rastros seguir para determinar-lhe a entonação expressiva: de comicidade, seriedade, admiração, desprezo, ironia etc.; e quanto a ausência de parâmetros fixos para determinar a entonação expressiva pode se constituir uma “glória epistemológica”.

Os exemplos trazidos por Gomes são muito esclarecedores: o primeiro, bem recente, extraído das redes sociais (Instagram), apresenta um enunciado voltado às políticas públicas de saúde; o segundo, um exemplo espacial e temporalmente distante, encontrado nos Evangelhos. Na análise desses enunciados, Gomes recupera os passos metodológicos propugnados por Volóchinov na interpretação do enunciado concreto e, então, o leitor pode verificar que não é apenas na parte verbal que se encontra a expressividade, mas também na parte extraverbal: o auditório, a situação, a realidade espaço-temporal, o tema do enunciado e a relação valorativa do falante com o enunciado. É isso que, do ponto de vista do autor, constitui a glória epistemológica do conceito.

Enfim, o texto nos leva a considerar que rigor e precisão continuam a ser essenciais nas ciências da linguagem, ainda que o conceito de entonação expressiva não se paute “em esquemas lógicos estabelecidos a priori”, nem se adeque a qualquer “projeto que busque estabelecer uma cientificidade positivista em relação ao trabalho com o enunciado”. Trata-se de um conceito imprescindível na análise de um discurso, dada a relação valorativa do falante com o objeto de seu enunciado e a inexistência de uma compreensão sem avaliação, pois “um enunciado absolutamente neutro é impossível” (Bakhtin, 2016, p.47).

Para ler o artigo, acesse

GOMES, F.A. Valentin N. Volóchinov e a entonação expressiva: entre a tragédia e a glória. Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso [online]. 2025, vol. 20, no. 4, e69280p [viewed 12 February 2026].  https://doi.org/10.1590/2176-4573p69280. Available from: https://www.scielo.br/j/bak/a/nVxFSc9jspqVymZgFgT9CwH/

Referências

BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. São Paulo: Editora 34, 2016.

GOMES, F. A. Valentin Volóchinov: a vindicação do axiológico. São Paulo: Contexto, 2023.

VOLÓCHINOV, V. A palavra na vida e a palavra na poesia. Ensaios, artigos, resenhas e poemas. São Paulo: Editora 34, 2019.

VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Editora 34, 2017.

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

PISTORI, M.H.C. Rigor e precisão nas ciências da linguagem. Existem parâmetros fixos para uma interpretação? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2026 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2026/02/12/rigor-e-precisao-nas-ciencias-da-linguagem-existem-parametros-fixos-para-uma-interpretacao/

 

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