Urgência da desconexão do trabalho e a saúde docente no Brasil e Portugal

André Luis de Oliveira Mendonça, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Katia Reis de Souza, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), Rio de janeiro, RJ, Brasil. 

Logo do periódico Educação em Revista.O artigo Vertigem da urgência: trabalho docente e saúde na visão de sindicalistas no Brasil e Portugal, publicado pelo periódico Educação em Revista (vol. 42, 2026), traz contribuições crítico-reflexivas acerca dos impactos do nada admirável mundo novo do trabalho incidindo sobre a saúde dos docentes nesses tempos de capitalismo do complexo cibernético 24/7, cuja intensificação exacerbou-se de um modo estonteante com a “epidemia” das tecnologias provenientes em grande parte do Vale do Silício durante a pandemia de COVID-19 (e.g.: plataformas digitais como o Zoom) e ainda mais agora com a consolidação galopante do (ab)uso de Inteligência Artificial – IA; bem como, em contraponto, apresenta as novas formas de luta e resistência criadas pelas trabalhadoras e trabalhadores da educação.

Ao realizar um tipo de pesquisa-ação em diálogo com professoras e professores filiados a sindicatos do Brasil (Sindicato dos Professores de Macaé e Região/Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Estado do Rio de Janeiro) e de Portugal (Sindicato dos Professores do Norte), entre 2022 e 2023, tendo como motivação primordial a valorização da fala e da experiência daqueles que vivem sob condições de trabalho  mais desafiadoras na própria pele, obteve-se três grandes achados: 1- denúncia da flexibilização e alienação do tempo laboral coletivo; 2- alerta quanto às questões de saúde mental (depressão, ansiedade, burnout etc.) devido sobretudo ao advento da chamada hora tecnológica (intensificação do trabalho de docentes em ambiente digital, incluindo as muitas horas extras não remuneradas); 3- novas formas de resistência, como a luta em prol do direito à desconexão do trabalho.

Nesse sentido, pode-se afirmar que, a despeito de parecer e ser verdade que vivemos sob a égide de um tempo (esse da urgência e velocidade atrozes imposto pelas “novas tecnologias da informação”) completamente dominado pela lógica asfixiante do capital, o esperançar permanece mais vivo do que nunca na luta organizada da classe trabalhadora. Se estamos todas e todos inteiramente exaustos nessa sociedade do cansaço, torna-se mais imperativo ainda unirmo-nos educadoras e educadores do mundo todo contra o imperialismo tecnológico.

O artigo possui como marca central a aposta no diálogo freiriano horizontal e solidário com os próprios trabalhadores engajados nas lutas sindicais concretas contemporâneas, pondo suas próprias falas em relevo. Se, por um lado, é inegável que os movimentos organizados progressistas de um modo geral estão atravessando um momento histórico de vulnerabilização em função dos ataques desferidos pelos donos do grande capital (os sindicatos não estão livres dessa ofensiva conservadora e reacionária), por outro, não deixa de ser inspirador que os sindicatos vinculados à área da educação estejam reinventando as formas de luta nesse mundo da hiperconectividade, tendo sido inclusive um dos que mais decretaram greves nesses últimos anos de perda de direitos e precarização.

 

 

Inspirados no referencial teórico do materialismo histórico e no campo da saúde do trabalhador que também lhe é tributário, a autora e coautor, em interseção com a perspectiva das/dos participantes da pesquisa, defendem o direito à desconexão (segue-se trabalhando via aplicativos de celular mesmo nos períodos que deveriam ser de pausa, descanso e lazer: a rede não dorme) e a diminuição da jornada de trabalho, tal como já preconizavam Karl Marx na sua obra capital O Capital, ou Paul Lafargue no panfleto incendiário O Direito à Preguiça.

Enquanto o primeiro achado do estudo – a denúncia frente à flexibilização e persistente alienação do trabalho contemporâneo em tempos de sociedade líquida – não constitui propriamente uma novidade, a categoria de “hora tecnológica”, cunhada pela própria classe trabalhadora em contexto sindical, é uma verdadeira descoberta no sentido de reatualizar o debate em torno da sobrecarga da jornada de trabalho.

Conforme autora e coautor sintetizam: “A Hora Tecnológica pode ser interpretada como o dispêndio de tempo em que o professor passa em ambiente telemático, pós-jornada, com alunos, respondendo e-mails; interagindo por whatsapp; atendendo dúvidas; realizando reuniões com gestores e professores; participando de fóruns, entre outras atividades”. Da mesma forma, o terceiro resultado destacado, o das novas formas de resistência, traz uma reflexão importante em termos das condições históricas possíveis para a reorganização da luta em direção à emancipação do trabalho humano frente às desmesuras do grande capital.

Possa o artigo inspirar novas pesquisas na direção do diálogo com as lutas concretas da classe trabalhadora. Quando o fantasma de uma nova grande guerra, com interesses de avanço retrógrado do capital, volta a nos rondar somente a união da classe trabalhadora pode nos trazer a semente da esperança e da transformação. É sair da vertigem da urgência rumo à urgência de lucidez.

 

 

Para ler o artigo, acesse

SOUZA, K.R. and MENDONÇA, A.L.O. Vertigem da urgência: trabalho docente e saúde na visão de sindicalistas no Brasil e Portugal. Educação em Revista [online]. 2026, vol. 42, e54896 [viewed 02 Jan 2026]. https://doi.org/10.1590/0102-469854896. Available from: https://www.scielo.br/j/edur/a/gSsn34qMY5qybDHyFqgLnfd/

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Sobre os autores

André Luis de Oliveira Mendonça, professor associado do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS-UERJ), com formação na área de filosofia da graduação (UERJ) ao doutorado (Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UERJ). Integrante do Quilombo Amefricano, grupo de estudos e de vida que atua na confluência entre saúde e pensamento afrodiaspórico.

Katia Reis de Souza, possui pós-doutorado em Psicologia do Trabalho pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) – Portugal. Doutorado em Saúde Pública pela FIOCRUZ. Realizou mestrado em Educação e Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é pesquisadora da FIOCRUZ e atua como coordenadora do grupo de pesquisa SINTHESES (saúde, sindicato, trabalho e educação). Desenvolve estudos sobre saúde do trabalhador docente em conjunto com sindicatos de professores da rede pública e privada.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

MENDONÇA, A.L.O and SOUZA, K.R. Urgência da desconexão do trabalho e a saúde docente no Brasil e Portugal [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2026 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2026/06/02/urgencia-da-desconexao-do-trabalho-e-a-saude-docente-no-brasil-e-portugal/

 

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