Como explicar a distribuição espacial dos homicídios em São Paulo?

Sérgio Adorno, Professor titular em Sociologia da FFLCH/USP, coordenador científico do Núcleo de Estudos da Violência – USP , São Paulo, SP, Brasil

 

 

O artigo “Crime e violências em São Paulo: retrospectiva teórico-metodológica, avanços, limites e perspectivas futuras”, publicado no Cadernos Metrópole (v. 21, n. 44) de Sérgio Adorno e Marcelo Batista Nery, trata da distribuição dos crimes nos territórios urbanos, problematizando a hipótese corrente no debate de que os homicídios estariam centralizados nos bairros com grande concentração de população de baixa renda e com infraestrutura urbana precária. O recorte geográfico foi o estado de São Paulo, com destaque para a capital, no período compreendido de 1970 a 2016.

A respeito das tendências gerais dos homicídios em São Paulo, o estudo observou que os volumes populacionais (densidade demográfica e crescimento populacional), a infraestrutura urbana (acesso a equipamentos públicos de educação, saúde, lazer e segurança), a condição de moradia (áreas de exclusão social) e as características acerca de gênero, idade e raça/ cor são elementos indispensáveis dos modelos explicativos do movimento dos homicídios (ADORNO, 2002; CARDIA; SCHIFFER, 2000; PERES et al., 2011).

Sob uma perspectiva longitudinal, o trabalho sustentou a existência de três marcos temporais na evolução dos homicídios na cidade de São Paulo. O primeiro em 1975, quando a taxa de homicídios se aproximou de 60 por 100 mil habitantes; o segundo, em 1999-2000, um momento de inflexão e mudança de tendência dessas taxas; o terceiro em 2001, a ocasião em que se verifica o começo da tendência global de redução dos homicídios. O ano de 2005 pode ser considerado o quarto marco. Isso porque, anteriormente, a melhor maneira de explicar a variabilidade das taxas de homicídio era, sem dúvida, empregando-se as taxas do ano anterior (NERY, 2016); depois, além desse pressuposto ter perdido sua força analítica e explicativa, surge um novo fator a ser seriamente considerado: a influência da facção criminosa denominada Primeiro Comando da Capital (PCC) sobre as taxas de mortes violentas torna-se difícil de ser contestada ou ignorada.

Publicado na edição comemorativa de 20 anos do Cadernos Metrópole, o trabalho tem como objetivo indicar um caminho metodológico que seja capaz de explicar melhor como se dá a distribuição dos homicídios em um tecido urbano complexo e altamente desigual e diversificado como o da cidade de São Paulo, que congrega locais muito violentos e diversamente pacíficos cuja distribuição espacial não se encaixa, segundo os autores, no modelo centro-periferia. Para isso, os autores utilizaram fontes de dados da companhia de metrô, da Emplasa e da Fundação Seade; análises micro/ macro; entendimento da multicausalidade; identificação de espaços intraurbanos; caracterização de padrões espaço-temporais; influência do crime organizado e das políticas públicas; e apresentaram a metodologia de “áreas-chave”, desenvolvida pelo Núcleo de Estudos da Violência, da Universidade de São Paulo. Com ela, se tornou possível compatibilizar informações espaciais e temporais para criar uma estratificação do território municipal em diferentes padrões urbanos e demográficos. Um dos estudos realizados com esse método identificou padrões de impressão de cidadãos sobre a Polícia Militar: moradores de bairros com infraestrutura precária urbana associavam polícia à crime e violência desmedida e equipararam o medo da PM ao medo do traficante.

Referências

ADORNO, S. Exclusão socioeconômica e violência urbana. Sociologias, n. 8, p. 84-135, 2002. ISSN: 1517-4522 [viewed 7 August 2019]. DOI: 10.1590/S1517-45222002000200005. Available from: http://ref.scielo.org/7x4xb6

CARDIA, N. and SCHIFFER, S. Violência e desigualdade social. Cienc. Cult., v. 54, n. 1, p. 25-31, 2002. ISSN: 2317-6660 [viewed 7 August 2019]. Available from: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252002000100018&lng=en&nrm=iso

NERY, M. B. Gestão urbana: sistemas de informação geográfica e o estudo da criminalidade no município de São Paulo. Dissertação (Mestrado em Sensoriamento Remoto) – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Ministério da Ciência e Tecnologia, São José dos Campos, SP, 2006.

PERES, M. F. T. et al. Homicídios, desenvolvimento socioeconômico e violência policial no Município de São Paulo, Brasil. Rev Panam Salud Publica, v. 23, n. 4, p. 268-276, 2008. e-ISSN: 1680-5348 [viewed 7 August 2019]. Available from: https://scielosp.org/pdf/rpsp/2008.v23n4/268-276/pt

Para ler o artigo, acesse

ADORNO, S. and NERY, M. B. Crime e violências em São Paulo: retrospectiva teórico-metodológica, avanços, limites e perspectivas futuras. Cad. Metrop., v. 21, n. 44, p. 169-194, 2019. ISSN: 1517-2422 [viewed 7 August 2019]. DOI: 10.1590/2236-9996.2019-4408. Available from: http://ref.scielo.org/zf878n

Link externo

Cadernos Metrópole – CM: www.scielo.br/cm

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

ADORNO, S. Como explicar a distribuição espacial dos homicídios em São Paulo? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/08/27/como-explicar-a-distribuicao-espacial-dos-homicidios-em-sao-paulo/

 

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