Temáticas antirracistas: debates das mulheres negras, indígenas e de todas nós

Ana Maria Veiga, Professora de Teoria da História na Universidade Federal da Paraíba, Editora dos periódicos Saeculum e Revista Estudos Feministas, João Pessoa, PB, Brasil

Os feminismos negros e indígenas vêm, cada vez mais, se apropriando da escrita acadêmica, que divulga o conhecimento científico pautado em demandas sociais. Se parte da academia ainda resiste em adotar em seus planos de ensino, por exemplo, autoras mulheres nas listas de referências bibliográficas, o que dizer então sobre autoras negras ou indígenas?

Apenas recentemente nos deparamos com a riqueza de trabalhos como o artigo de Cláudia Pons Cardoso (2014), “Amefricanizando o feminismo: o pensamento de Lélia Gonzalez”, em que a autora valoriza a representatividade dessa ativista e acadêmica negra para os feminismos; o livro de Nilma Lino Gomes (2017), “O movimento negro educador”, que sinaliza os tipos de aprendizado proporcionado por ações da luta antirracista do movimento negro, além de agregar a perspectiva de gênero; o livro de Giovana Xavier (2019), “Você pode substituir Mulheres Negras como objeto de estudo por mulheres negras contando as suas próprias histórias”, que acaba dando o tom do discurso de uma acadêmica, que também é blogueira, provocadora e ativista; e o trabalho de Djamila Ribeiro (2017) “O que é lugar de fala?” Que tanto tem mobilizado importantes discussões. Apenas para citar algumas acadêmicas que ditam pautas nos debates, que não perdem de vista a luta antirracista, além de outros temas de interesse específico, como a violência contra a população negra, a demarcação de terras indígenas, a saúde das mulheres indígenas, educação, história, tecnologia.

Assim como as mulheres negras, as jovens indígenas começam também a falar a partir da perspectiva acadêmica, fazendo formação em áreas diversas, na busca de assumir esse espaço decisivo, de resistir aos subterfúgios de uma “colonialidade do saber” — como afirmaria Aníbal Quijano (2000) e outros intelectuais que participam desse diálogo.

Essas mulheres indígenas assumem seu protagonismo, como no caso de Samantha Ro’otsitsina Juruna (2013), que escreveu a dissertação intitulada “Sabedoria Ancestral e Movimento: perspectivas para a sustentabilidade”, defendida na Universidade de Brasília, e de Joziléia Jagso Kaingang (2016), que assume o compromisso acadêmico de escrever sobre a situação das mulheres do seu povo.

A visibilidade desse campo intelectual e político ainda é pouca, embora transborde relevância e potência. Mais do que apenas encampar a luta antirracista, a REF busca trazer todos os debates possíveis sobre ela, ampliando seu espectro de publicações, sem deixar de fora quaisquer modalidades de competências.

Entendemos o combate ao racismo como o grande desafio acadêmico do momento, ao lado da pauta LGBTQI+. Privilegiando compor com esses/as sujeitos/as, a Revista Estudos Feministas reitera e renova o sentido social dos periódicos científicos, percebendo as teorias em sua função plena na relação com demandas sociais.

Talvez seja esse um dos motivos de sua centralidade: o espaço aberto para a diversidade, tanto conceitual como de existência e resistência acadêmica.

A Revista Estudos Feministas (v. 27, n. 3) continua promovendo debates sobre questões caras aos feminismos negros e indígenas, em sua postura antirracista. Para além de artigos, uma Seção Temática apresenta relações entre o Brasil e alguns países africanos, sendo que boa parte dessas relações aponta para a necessidade contemporânea de se discutir racismo e racialização, na academia e fora dela.

Referências

CARDOSO, C. P. Amefricanizando o feminismo: o pensamento de Lélia Gonzalez. Rev. Estud. Fem., v. 22, n. 3, p. 965-986, 2014. ISSN: 0104-026X [viewed 29 October 2019]. DOI: 10.1590/S0104-026X2014000300015. Available from: http://ref.scielo.org/3j8wt9

GOMES, N. L. O movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação. Petrópolis: Vozes, 2017.

JURUNA, S. R. C. Sabedoria Ancestral e Movimento: perspectivas para a sustentabilidade. 2013 85 f. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Sustentável) – Universidade de Brasília, Brasília, 2013.

KAINGANG, J. D. J. As kaingang, lutas, redes: do doméstico para o público. In: SILVA, Márcia Alves (Org.) Gênero e diversidade: debatendo identidades. São Paulo: Perse, 2016.

QUIJANO, A. Colonialidad del poder y clasificación social. Journal of World-Systems Research, v. 11, n. 2, p. 342-386, 2000. e-ISSN: ISSN 1076-156X [viewed 29 October 2019]. DOI: 10.5195/jwsr.2000.228. Available from: https://jwsr.pitt.edu/ojs/index.php/jwsr/article/view/228

WESCHENFELDER, V. I. and FABRIS, E. T. H. Tornar-se mulher negra: escrita de si em um espaço interseccional. Rev. Estud. Fem., v. 27, n. 3, e54025, 2019. ISSN: 0104-026X [viewed 29 October 2019]. DOI: 10.1590/1806-9584-2019v27n354025. Available from: http://ref.scielo.org/hk7389

XAVIER, G. Você pode substituir Mulheres Negras como objeto de estudo por mulheres negras contando as suas próprias histórias. Rio de Janeiro: Malê, 2019.

Link externo

Revista Estudos Feministas – REF: www.scielo.br/ref

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

VEIGA, A. M. Temáticas antirracistas: debates das mulheres negras, indígenas e de todas nós [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/10/29/tematicas-antirracistas-debates-das-mulheres-negras-indigenas-e-de-todas-nos/

 

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Post Navigation