Debates, ativismos e pioneirismo no campo acadêmico feminista

Ana Maria Veiga, Professora de Teoria da História na Universidade Federal da Paraíba, Editora dos periódicos Saeculum e Revista Estudos Feministas, João Pessoa, PB, Brasil

A Revista Estudos Feministas (REF) cresceu em importância junto com debates situados ao mesmo tempo no campo acadêmico feminista e no interior dos movimentos sociais e ativismos políticos. Com relação ao conteúdo, a REF sempre buscou seguir critérios que fizeram dela uma referência para os estudos feministas e de gênero, além de contemplar a ampla arena das Ciências Humanas. Um efeito disso é a manutenção de sua posição entre os mais altos extratos avaliativos em parâmetros nacionais e internacionais, além de um grande fluxo contínuo de submissão de material acadêmico — artigos, resenhas, entrevistas, dossiês — para publicação.

Mesmo enfrentando as atuais restrições de apoio financeiro, como boa parte dos periódicos brasileiros e das pesquisas científicas, a REF segue adiante, mantendo sua qualidade editorial, contando também com o comprometimento político de suas editoras, que trabalham de maneira coletiva. O ativismo acadêmico, e sua função social, sempre esteve presente ao longo da história da REF. Uma das expressões disso é a publicação dos dossiês. Entenda-se que os dossiês são justamente o espaço privilegiado do debate amplo, conduzido pelo ativismo extracampo, acompanhado atentamente pelas editoras e conselheiras.

De acordo com Sônia Weidner Maluf (2004), “[…] os dossiês constituem uma seção da REF e se dedicam à abertura de um espaço de diálogo entre a produção acadêmica e intelectual e a militância, o ativismo e as políticas feministas”. Desde o primeiro número da revista, em 1992, as relações com as demandas e desafios do presente já estavam colocadas — o primeiro dossiê surgiu em consonância com a denominada Eco 92 — evento internacional que aconteceu naquele ano na capital carioca —, trazendo a temática “Mulher e meio-ambiente”. Lembrando que ainda não tínhamos no Brasil uma discussão em torno do “ecofeminismo”, levantada apenas no final dos anos 1990 por algumas pioneiras como Regina Di Ciommo (1999). Este exemplo sinaliza a atualidade e a pertinência dos dossiês, que lançam alguns debates ainda no calor das primeiras reflexões sobre temáticas distintas que afetam diretamente a sociedade, as mulheres e pessoas LGBT+.

Em evidência nesse primeiro dossiê (número 0) estava um sujeito político historicamente localizado: o sujeito Mulher. Sendo que, sobre os sujeitos do feminismo, Joana Maria Pedro (2005) e Cláudia de Lima Costa (2009) oferecem uma boa contextualização teórica. Dois outros dossiês da REF, em sequência, reafirmam esse sujeito em diálogo com temáticas centrais: “Mulher e violência” (número 1 de 1993), “Mulher e direitos reprodutivos” (número 2 de 1993).

Apenas para citar alguns temas abordados de 1992 a 1999, considerando a primeira etapa da publicação, ainda no Rio de Janeiro, podemos lembrar de dossiês marcantes, como o “Mulheres negras” (número 2 de 1995), trazendo organizadoras e autoras feministas negras com o intuito de discutir gênero, raça e classe, os demarcadores básicos para se pensar em termos de interseccionalidade. Segundo Sônia Maluf (2004), esse foi o primeiro dossiê da REF publicado com mais de 80 páginas, inaugurando uma nova fase, de ampliação dos debates propostos na seção temática. Na sequência, foi organizado um dossiê sobre ações afirmativas, tratando a questão das cotas e da discriminação racial (n. 1/1996).

Os dossiês “Gênero e velhice” (número 1 de 1997), “Aborto” (número 2 de 1997) e “Masculinidade” (número 2 de 1998) sinalizaram a potencialidade reflexiva da REF e sua flexibilidade ao publicar trabalhos relativos a referenciais teóricos e temas mais amplos, que ganhariam especificidade nas décadas seguintes.

A nova fase da Revista Estudos Feministas, em sua chegada à equipe editorial da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foi inaugurada com dois números conjuntos — 1 e 2 de 1999. Nesse momento, o dossiê “Mulheres indígenas” trazia a perspectiva de antropólogas etnólogas, ainda não das próprias pesquisadoras de origem indígena que adentrariam a universidade uma década depois, ocupando espaços e assumindo seus lugares de fala (trazendo esta narrativa para perto de um debate atual).

É apenas no número 2 de 2001 que o termo “gênero” é utilizado em um dossiê, sob organização de Guacira Lopes Louro e Dagmar Estermann Meyer — “Gênero e Educação”. O sujeito Mulher não mais retornaria aos títulos dos dossiês, enquanto que sua pluralidade ainda voltaria à cena, com o dossiê “Mulheres agricultoras no sul do Brasil”, organizado por Anita Brumer e Maria Ignez Paulilo (número 1 de 2004).

Quinze anos se passaram desde o citado balanço sobre os dossiês da REF. De 2004 para cá, algumas demandas permaneceram nos eixos temáticos abordados por essa seção, enquanto outras foram sendo colocadas e afirmadas durante esse último período.

A partir de 2005, já no crivo do indexador SciELO, a REF passou a publicar três números regulares por ano/volume, mantendo a assiduidade dos dossiês em pelo menos um deles. Nesse momento surgiu a necessidade de ampliar as discussões também em âmbito acadêmico, com a proposta da organização de Seções Temáticas, publicadas em alternância com os dossiês e com os conjuntos de artigos temáticos. Respondendo às demandas colocadas por pesquisas em temas sociais, essas seções passaram a promover debates sobre as principais preocupações sociais e políticas, trazidas para o campo acadêmico.

Mantenho aqui o foco na atualização dos dossiês. Em 2005 (volume 13, número 2), o tema foi Gênero e religião; o número 2 de 2006 tratou de Relações homoafetivas; o dossiê de 2007 saiu igualmente no número 2 e foi organizado sobre o tema Mulheres rurais. 2008 foi o momento de se discutir os 120 anos da abolição da escravatura, sob olhares críticos e posicionados; esse dossiê acabou tendo sequência em 2009 com um outro, intitulado “Retratos das desigualdades de gênero e raça”. A década fechou com o retorno de uma temática abordada lá nos primórdios — Gênero e meio ambiente — e que, curiosamente, poderia ser retomada com grande fôlego nos dias atuais.

O dossiê do volume 19, número 1 de 2011 aborda uma das questões mais debatidas nos últimos anos, ao tratar Gênero e sexualidade no espaço escolar — tema que se tornou recente tabu, com as reações ao debate principalmente de cunho religioso com base na moral, não em dados empíricos ou na realidade das salas de aula, onde sujeitos dos mais diversos insistem sempre em existir Em 2012 (volume 20, número 2) foi a vez da discussão incontornável sobre transidentidades, que ainda mantém sua atualidade.

No ano de 2013 a REF não trouxe dossiês, e sim uma Seção Especial sobre os 20 anos da revista. Mas esse espaço seria retomado nos anos seguintes. Em 2014 (volume 22, número 2), Karina Bidaseca organizou um deles, intitulado “Cartografias descoloniales de los feminismos del Sur”, apontando para a relevância da REF na arena latino-americana de debates.

Em 2015 foram publicados dois números com dossiês: um sobre Artes visuais (volume 23, número 1); outro com um Balanço da Lei Maria da Penha (volume 23, número 2), que completava 10 anos. O mesmo aconteceu em 2016, com os dossiês “Economia, direitos humanos e igualdade de gênero” (volume 24, número 2) e “Dinâmicas de gênero e feminismos em contextos africanos” (volume 24, número 3). Este último conjunto já demarcava o privilégio das relações entre o Brasil e alguns países africanos na linha que se expressaria com mais força de lá para cá, com a editoria internacional, que tem como uma de suas editoras a professora Simone Pereira Schmidt, sempre em contato com pesquisadoras africanas de localizações diversas.

É possível perceber que alguns temas são recorrentes nos dossiês, como sexualidade e gênero, em suas intersecções. Por outro lado, outras questões sociais foram sendo ampliadas, como é o caso da luta antirracista e da notoriedade de temas relacionados a mulheres negras, principalmente, em sua positivação como sujeitos múltiplos, já que elas são acadêmicas, intelectuais, ativistas, blogueiras, e o que mais quiserem ser.

A abertura desse espaço é uma ação de mão dupla, pois, enquanto a Estudos Feministas se oferece como lugar qualificado para esses debates, também necessita ser apropriada como instrumento científico das reivindicações sociais, do mesmo modo pelo qual já é tomada como espaço privilegiado de divulgação do conhecimento acadêmico em seus sentidos mais amplos — o social e o político. Afinal, sabemos que nenhuma teoria se sustenta sem as relações e os diálogos com o social. Assumir e refletir sobre essa responsabilidade é uma das tarefas da REF.

Referências

COSTA, C. de L. Histórias/estórias entrelaçadas do(s) feminismo(s): introdução aos debates. Rev. Estud. Fem., v. 17, n. 1, p. 207-213, 2009. ISSN: 0104-026X [viewed 29 Ocober 2019].  DOI: 10.1590/S0104-026X2009000100011. Available from: http://ref.scielo.org/p7jtg8

DI CIOMMO, R. C. Ecofeminismo e educação ambiental. São Paulo: UNIUBE/Cone Sul, 1999.

DI CIOMMO, R. C. Relações de gênero, meio ambiente e a teoria da complexidade. Estudos Feministas, Florianópolis, 11(2): 360, julho-dezembro/2003, p. 423-443.

MALUF, S. W. Os dossiês da REF: além das fronteiras entre academia e militância. Rev. Estud. Fem., v. 12, n. spe, p. 235-243, 2004. ISSN: 0104-026X [viewed 29 Ocober 2019]. DOI: 10.1590/S0104-026X2004000300025. Available from: http://ref.scielo.org/yj8rnf

PEDRO, J. M. Traduzindo o debate: o uso da categoria gênero na pesquisa histórica. História, v. 24, n. 1, p. 77-98, 2005. ISSN: 1980-4369 [viewed 29 Ocober 2019]. DOI: 10.1590/S0101-90742005000100004. Available from: http://ref.scielo.org/m2dx97

Link externo

Revista Estudos Feministas – REF: www.scielo.br/ref

Sobre Susana Bornéo Funck

Susana Bornéo Funck

Susana Bornéo Funck

Susana Bornéo Funck é integrante do Instituto de Estudos de Gênero da UFSC e editora da seção internacional da REF. É professora aposentada de Literaturas de Língua Inglesa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), tendo atuado no PPG em Inglês da UFSC e no PPG em Letras da Universidade Católica de Pelotas. Realizou graduação, mestrado e doutorado em universidades dos EUA. E-mail: sbfunck@gmail.com

 

Sobre Mara Coelho de Souza Lago

Mara Coelho de Souza Lago

Mara Coelho de Souza Lago

Mara Coelho de Souza Lago é professora Emérita da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e professora titular aposentada do Departamento de Psicologia da mesma instituição. Atua como voluntária no PPG em Psicologia e no PPG Interdisciplinar em Ciências Humanas da mesma universidade, onde é membro do Instituto de Estudos de Gênero. É uma das coordenadoras editoriais da REF. E-mail: maralago7@gmail.com

 

Sobre Sônia Weidner Maluf

Sônia Weidner Maluf

Sônia Weidner Maluf

Sônia Weidner Maluf é professora titular aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), docente do PPG em Antropologia Social da mesma universidade, professora visitante da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), pesquisadora associada do Institut de Recherches sur les Enjeux Sociaux (IRIS/EHESS), em Paris. Coordena o Núcleo de Antropologia do Contemporâneo e é Coordenadora Executiva do Instituto Brasil Plural/INCT/CNPq. E-mail: soniawmaluf@gmail.com

 

Sobre Simone Pereira Schmidt

Simone Pereira Schmidt

Simone Pereira Schmidt

Simone Pereira Schmidt é professora titular aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), tem pós-doutorado em Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Nova de Lisboa e em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Integra o Instituto de Estudos de Gênero da UFSC, além de outros grupos de pesquisa no Brasil e em Portugal. É editora da REF. E-mail: simonepschmidt@gmail.com

 

Sobre Ana Maria Veiga

Ana Maria Veiga

Ana Maria Veiga

Ana Maria Veiga é professora do curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Paraíba, com pós-doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina. É editora dos periódicos Saeculum e Estudos Feministas e líder do grupo ProjetAH: História das mulheres, Gênero, Imagens, Sertões. É roteirista e editora dos vídeos postados na Semana Especial da REF. E-mail: anaveiga.ufpb@gmail.com

 

Sobre Fernanda Backendorf

Fernanda Backendorf

Fernanda Backendorf

Fernanda Backendorf é aluna do curso de Cinema da Universidade Federal de Santa Catarina. É cinegrafista e editora dos vídeos da Semana Especial da REF. E-mail: fernandabackendorf@gmail.com

 

 

 

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

VEIGA, A. M. Debates, ativismos e pioneirismo no campo acadêmico feminista [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/10/29/debates-ativismos-e-pioneirismo-no-campo-academico-feminista/

 

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