Qual perspectiva de futuro tem o jovem diante das injustiças vividas?

Alice Miriam Happ Botler, Professora associada, vinculada ao Curso de Pedagogia e ao Programa de pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE, Brasil.

Viviane Gonçalves, Mestre em Ciência da Informação, Sorocaba, SP, Brasil.

Imagem: Licenciado por Pixabay

Os artigos do dossiê do Cadernos Cedes (vol. 40, no. 110), abordam a ‘Juventude, educação, violência e perspectivas de futuro’ que são temas recorrentes na discussão da práxis escolar e tem “mobilizado diferentes setores da sociedade no sentido de pensar a respeito de alternativas que contemplem as angústias e expectativas de jovens e adolescentes de diferentes classes sociais, mas principalmente daqueles desprovidos de oportunidades de inserção social e profissional” (ADAM; FONSECA, 2020, p. 1).

O texto “Juventude e escola: violência e princípios de justiça em escolares de ensino médio”, relaciona juventudes e escola com ênfase nos princípios de justiça, e focaliza práticas sociais com vistas à minimização das violências e demais conflitos nas escolas, por meio do universo valorativo e relacional de estudantes do ensino médio. O sentimento de injustiça é visto como motivo para atitudes violentas, mas associado por estudantes brasileiros a aspectos individuais, denotando perspectiva autocentrada e imediatista das práticas escolares, bem como princípios liberais de justiça. Esse sentimento é relacionado por estudantes portugueses a aspectos sociais coletivos, o que os leva a assumirem abordagem fundada em princípios comunitaristas de justiça.

Para ampliar a discussão do tema, entrevistei a autora Alice Miriam Happ Botler, professora da Universidade Federal de Pernambuco, com recente estágio na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, onde realizou pesquisa a respeito de escola justa (2017-2018).

1. No artigo você trata da concepção de jovens a respeito de uma escola justa. Em que esse entendimento contribui para o debate educacional?

As concepções de escola justa dos estudantes revelam práticas escolares baseadas em princípios socializadores. Nestes, nota-se certa tensão entre a igualdade e a diferença, o que pode ser visto como contradição ou como dilema a enfrentar. Qual a diferença? A primeira coloca as noções de igualdade e diferença em polos opostos, enquanto a segunda mostra o tensionamento cotidiano entre demandas por igualdade de tratamento e respeito às diferenças individuais. Isso não é claro nem para docentes, nem para estudantes, mas essa tensão os ajuda a questionarem seus próprios juízos de valor e seus impulsos. Permite canalizar suas energias de maneira afirmativa, a exemplo da crítica amadurecida de estudantes portugueses referente à vigilância nas escolas.

2. Você afirma que a crítica da juventude à democracia emerge em formato de demandas. Quais as demandas dos jovens escolares hoje em dia?

Jovens criticam e sempre criticaram toda forma de opressão, o que indica que eles reconhecem sua existência, mas desejam estabelecer seus limites. Demandam mudanças relativas às relações sociais e à sua felicidade individual, como afirma Rancière (2014). Este autor distingue a aparência democrática da sua essência vivida e ajuda a entender que a sociedade democrática se sustenta por meio de princípios que tendem ora para o individualismo, ora para o coletivismo, mas precisa estabelecer seus mecanismos de regulação. Os jovens criticam a democracia porque aspiram tanto condições individuais adequadas, quanto uma sociedade equilibrada, nem sempre apresentando isso com maturidade e argumentação.

3. Sua pesquisa trata de jovens do ensino médio abordando questões de Brasil e Portugal sobre justiça e como isso reverbera contexto escolar. Qual a principal distinção entre ambos? 

A visão dos jovens demonstra que a estrutura escolar em Portugal não é problema, diferente dos brasileiros, que ainda se sentem prejudicados com as condições dos edifícios e qualidade de recursos disponibilizados para aulas. Assim, jovens portugueses amadurecem sua crítica para aspectos relativos às relações sociais, a exemplo da reciprocidade entre comportamento indisciplinado de alunos e resposta rígida de professores. Eles se solidarizam e despertam para questões coletivas. Já estudantes brasileiros focalizam mais questões imediatistas, voltando seu olhar para um campo mais restrito da realidade. No primeiro caso, despertam para uma concepção de justiça comunitarista e no segundo, para justiça liberal, voltada para o individualismo.

4. Perante a pandemia da COVID-19, como você acredita que os jovens irão reagir? 

Eu diria que estudantes do ensino médio se situam bem diante de certa crise de abstinência social decorrente do isolamento causado por conta da pandemia da COVID-19. Alguns deles verão seus idosos/entes vulneráveis minguarem em função do vírus. Mas as redes sociais oferecem ajuda nessa hora. Eles podem acessar séries, filmes, livros, cultura em geral, além das conversas com amigos. A questão que nos desafia é “Que falta a escola faz?” Ficar afastado dos amigos gera sentimentos afirmativos como solidariedade, ou sentimentos negativos como a injustiça por não ter direito a circular e conviver socialmente? Tais sentimentos podem fomentar comportamentos diversos que devem ser checados.

5. Por fim, qual perspectiva de futuro tem o jovem diante das injustiças vividas? 

A crise instalada é mais uma injustiça vivida. A curto e médio prazo vejo falta de lazer, de trabalho e de tudo o mais que daí decorre. A longo prazo, penso na “escola mais justa, como espaço de criação e aprendizagem de valores e competências”, como afirmo no texto, que oferece acesso à informação e à socialização, o que os nutre diariamente com desafios que germinam na forma de amizades, solidariedades e toda sorte de sentimentos afirmativos, o que oportuniza enfrentar as dificuldades vividas com criatividade, apesar do isolamento.

Referências

ADAM, J. M. and FONSECA, D. C. JUVENTUDE, EDUCAÇÃO, VIOLÊNCIA E PERSPECTIVAS DE FUTURO. Cad. CEDES [online]. 2020, vol. 40, no. 110, pp.1-3, ISSN 0101-3262 [viewed 20 April 2020]. DOI: 10.1590/cc220034. Available from: http://ref.scielo.org/m7dyyt

RANCIÈRE, J.  O ódio à democracia. São Paulo: Boitempo, 2014.

Para ler o artigo, acesse

BOTLER, A. M. H. JUVENTUDE E ESCOLA: VIOLÊNCIA E PRINCÍPIOS DE JUSTIÇA EM ESCOLARES DE ENSINO MÉDIO. Cad. CEDES [online]. 2020, vol. 40, no. 110, pp.26-36, ISSN 0101-3262 [viewed 20 April 2020]. DOI: 10.1590/cc220208. Available from: http://ref.scielo.org/d7hgr4

Link externo

Cadernos CEDES – CCEDES: www.scielo.br/ccedes/

Sobre as autoras

Alice Miriam Happ Botler, é doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (2004), desenvolveu pesquisa comparativa de pós-doutorado na Ontário Institute of Studies in Education na University of Toronto (2009-2010). Atua em pesquisas na linha de Política Educacional e Gestão Escolar com abordagem sociológico-filosófica da organização escolar coletiva. É professora associada da Universidade Federal de Pernambuco, vinculada ao Curso de Pedagogia e ao Programa de pós-graduação em Educação. E-mail: alicebotler@gmail.com


Viviane Gonçalves de Campos
, é mestre em Ciência, Gestão e Tecnologia da Informação pela Universidade Federal do Paraná – UFPR (2011). Tem experiência em produção editorial e na área de Ciência da Informação/ Educação, atuando nas seguintes áreas: coordenação de Editora Universitária, bases de dados bibliográficas, periódicos científicos, técnicas de recuperação da informação, produção editorial, normalização de originais para publicação. Atualmente presta consultoria em serviços editoriais. E-mail: vivianegoncalvescampos@gmail.com

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

BOTLER, A. M. H. and GONÇALVES, V. Qual perspectiva de futuro tem o jovem diante das injustiças vividas? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/06/02/qual-perspectiva-de-futuro-tem-o-jovem-diante-das-injusticas-vividas/

 

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