Do humanitarianism à alteridade bárbara: os conflitos entre maoris e britânicos na Nova Zelândia

Lívia Bernardes Roberge, Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal de Minas Gerais e voluntária na Varia Historia, Belo Horizonte, MG, Brasil.

Em “O Império contra-ataca. Terras, poder, soberania e embates entre os Maori e os britânicos na Nova Zelândia (c.1840-1870)”, publicado no periódico Varia Historia (vol. 36, no. 71), Gabriel Passetti rechaça a narrativa tradicional de que a colonização inglesa da Nova Zelândia se deu de forma pacífica, enaltecendo as agências e resistências de seus povos originários. Ele mostra como a mobilização de construções discursivas em torno de questões como uma suposta natureza “bárbara” dos nativos (os Maori), além de ameaças à soberania da Rainha Vitória, foram centrais para que os colonos britânicos conseguissem que tropas do Império fossem enviadas para essa colônia, a princípio tão pequena e periférica. O artigo, aponta ainda uma mudança na estratégia de convivência com tais nativos, cambiando de um discurso de humanitarianism para um de cunho racial, que promovia uma divisão entre civilização e barbárie, maoris e britânicos.

Segundo o autor, os colonos almejavam o envio de tais tropas para a Nova Zelândia para auxiliar no combate aos nativos, que começavam a dificultar a expansão da presença britânica pelo território neozelandês. Porém, por meio da análise de documentos oficiais e correspondências diversas, o autor chama a atenção para as mudanças nas relações entre esses dois grupos, que antecederam o início dos conflitos bélicos. Passetti denomina a abordagem inicial do tratamento dos nativos pelos britânicos de humanitarianism, um movimento “religioso, social e político” do século XIX (HALL, 2002), que defendia o “‘trato justo e honesto’ com os nativos e com atuação intensa dos missionários” (PASSETTI, 2020, p. 115), valorizando a assimilação cultural ao invés da aniquilação dos Maori. Dessa forma, num primeiro momento, os britânicos que se instalavam em terras neozelandesas buscavam certa mediação com os Maori, com os colonos estabelecendo arranjos para a aquisição de terras dos nativos, para então poderem revende-las. Contudo, essa abordagem começou a se mostrar insuficientemente interessante aos britânicos a partir do momento em que os maoris começam a oferecer resistência ao povoamento exacerbado das ilhas pelos colonizadores, recusando-se a negociar novas terras com os brancos. Segundo Passeti (2020, p. 115), “Não estava naquele planejamento que os Chefes aprendessem a lógica de funcionamento da sociedade britânica para utilizar seus recursos jurídicos a fim de bloquear a perda de terras”. Ou seja, a partir do momento em que os Maori perceberam o poder que tinham na recusa de repassar novas terras, eles se tornaram um obstáculo à empreitada britânica, não sendo mais suficiente “apenas” assimilá-los.

Entra então em cena a mobilização de discursos de cunho racialista, enaltecendo a supremacia branca frente à suposta antropofagia bárbara dos Maori, caracterizando-os como uma ameaça ao progresso e à soberania da Coroa britânica nas ilhas. Aos poucos se instaurava a perspectiva maniqueísta que opunha a barbárie maori à civilidade britânica, divulgada através de cada vez mais relatos escritos sobre a violência e a “selvageria” dos nativos frente aos colonos. Tais discursos levam à mobilização do exército imperial para intervir na Nova Zelândia, o que levou à repressão da resistência armada articulada por diversos grupos maoris.

As consequências da vitória desse discurso são colhidas ainda hoje pela sociedade neozelandesa, onde as populações maoris foram levadas à beira da aniquilação, lutando ainda hoje para preservar o legado histórico e cultural daqueles e daquelas que lutaram e resistiram por suas terras. Dessa forma, o artigo se mostra um trabalho de grande relevância não só no sentido de contribuir para a manutenção da memória de tais resistências, mas também por demonstrar o poder do discurso na construção de alteridades hierarquizadas.

Referências

HALL, Catherine. Civilizing subjects. Metropole and colony in the English imagination, 1830-1867. Chicago: The University of Chicago Press, 2002.

Para ler o artigo, acesse

PASSETTI, G. O Império contra-ataca. Terras, poder, soberania e embates entre os Maori e os britânicos na Nova Zelândia (c. 1840-1870). Varia hist. [online]. 2020, vol. 36, no. 71, pp. 499-531. ISSN: 1982-4343 [viewed 3 June 2020]. DOI: 10.1590/0104-87752020000200009. Avaliable from: http://ref.scielo.org/c9j9nq

Links externos

Varia Historia – VH: www.scielo.br/vh

Site Varia Historia – www.variahistoria.org

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

ROBERGE, L. B. Do humanitarianism à alteridade bárbara: os conflitos entre maoris e britânicos na Nova Zelândia [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/06/18/do-humanitarianism-a-alteridade-barbara-os-conflitos-entre-maoris-e-britanicos-na-nova-zelandia/

 

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