Cidadania Linguística em ação: lutas por direitos no Sul Global

Junot Oliveira Maia, professor, Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil.

Em múltipla autoria, uma equipe de pesquisadores filiada ao Centro de Pesquisas em Multilinguismo e Diversidades da Universidade do Cabo Ocidental (CMDR @UWC), África do Sul, liderada pelo professor Christopher Stroud, propõe o artigo “Partes do corpo falantes e agenciamentos: dando corpo à Cidadania Linguística” (no original, Talking parts, talking back: fleshing out Linguistic Citizenship), que compõe o dossiê “Resistências em práticas discursivas de contestação em democracias frágeis”, organizado por Luiz Paulo da Moita Lopes e por Joana Plaza Pinto (2021). Conceito nevrálgico da peça, a cidadania linguística emerge como arranjo de voz e agência que se contrapõe às violências de diversas naturezas impostas aos corpos que não se enquadram ao modelo de homem – e de humanidade, por conseguinte – discursivamente instituído pela lógica moderno-colonial.

Narradas por nove corpos desafiantes dessa empreitada civilizatória da modernidade, o texto contém sete cenas que representam como a vulnerabilidade de corpos transgressores é também o local fértil para incorporações de sobrevivência (Lopes et. al., 2019), de resistência e de reexistência (Souza, 2011) na arena política. Por exemplo, uma das sete cenas descreve a maneira como três jovens negras sul-africanas conseguiram, ao impor a visão de seus seios nus a policiais armados, paralisar a agressão a seus colegas de protesto, que, com elas, lutavam por uma universidade menos branca e injusta em um país ainda muito ferido pelo regime de apartheid.

Protesto na África do Sul. Imagem: Marie Claire SA.

Indianare Siqueira. Imagem: ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transsexuais.

A maneira como o corpo dessas três mulheres negras sul-africanas ganha potência diante da violência de um Estado de Polícia (Zaffaroni, 2015) dialoga com um episódio que, no Brasil, envolveu a exposição contestadora e afrontosa dos seios de um outro corpo transgressor. A transvestigênere Indianare Siqueira desfilou com seus seios à mostra durante a Marcha das Vadias de 2012 e, na ocasião, colocou em xeque a ação dos policiais em plena Avenida Atlântica, cartão postal carioca. Afinal, se fosse condenada e presa por atentado ao pudor, a polícia teria que reconhecê-la como uma mulher, criando jurisprudência para casos de reivindicação de reconhecimento das identidades de gênero. Por outro lado, se fosse interpretada pelos policiais como um homem, não poderia ser punida por estar sem camisa em meio a uma manifestação e, ainda, reforçaria o fato de que homens e mulheres não têm os mesmos direitos na sociedade brasileira, já que eles podem andar livremente pelas ruas sem qualquer vestimenta na parte superior de seus corpos (Borba, 2014).

O desafio dos corpos transgressores em romper com hegemonias opressoras e violentas exercidas por sistemas – e pelo cistema! – estabelece nuances de conexão transnacionais capazes de conectar lutas diversas por direitos no Sul Global, sejam eles linguísticos ou de qualquer outra natureza. No atual contexto de acirramento das desigualdades sociais decorrentes, principalmente, da ascensão do conservadorismo violento em cargos de representação política, reflexões como a que esse artigo propõe são potentes e, por conseguinte, fundamentais para melhor compreender como corpos e suas linguagens são agentes de luta e reivindicação.

Referências

BORBA, R. A linguagem importa? Sobre performance, performatividade e peregrinações conceituais. Cadernos Pagu [online]. 2014, vol. 43, pp. 441-474 [viewed 11 June 2021]. https://doi.org/10.1590/0104-8333201400430441. Available from: http://ref.scielo.org/39y2hc

MOITA LOPES, L. P. and PINTO, J. P. Resistências em práticas discursivas de contestação em democracias frágeis. Trabalhos em Linguística Aplicada [online]. 2021, no. 59, vol. 03 [viewed 11 June 2021]. Dossiê temático. Campinas: IEL/Unicamp, 765 pp.

LOPES, A. C.; FACINA, A. and SILVA, D. N.  Nó em pingo d’água – Sobrevivência, cultura e linguagem. Rio de Janeiro/Florianópolis: Insular, 2019.

MAIA, J. O. Fogos Digitais: letramentos de sobrevivência no Complexo do Alemão/RJ. Tese de doutorado. Campinas: IEL/Unicamp, 2017.

SOUZA, A. L. S. Letramentos de Reexistência – Poesia, grafite, música, dança: hip-hop. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.

ZAFFARONI, E. R. (2015) El derecho latinoamericano en la fase superior del colonialismo. Passagens [online]. 2015, vol. 07, no.02, pp. 182-243 [viewed 11 June 2021]. https://doi.org/10.15175/1984-2503-20157201. Available from: https://periodicos.uff.br/revistapassagens/article/view/47060

Para ler o artigo, acesse

STROUD, C., et al. Talking parts, talking back: fleshing out Linguistic Citizenship. Trabalhos em Linguística Aplicada [online]. 2020, vol. 59, no.03 [viewed 11 June 2021]. https://doi.org/10.1590/010318138877711120201211. Available from: https://www.scielo.br/j/tla/a/xNrk6Pxq57fVNYhmHQXBvZk/abstract/?lang=en

Links externos

Trabalhos em Linguística Aplicada – TLA: www.scielo.br/tla

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

MAIA, J. O. Cidadania Linguística em ação: lutas por direitos no Sul Global [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2021 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2021/06/21/cidadania-linguistica-em-acao-lutas-por-direitos-no-sul-global/

 

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