Vidas e afetos no contracanto de democracias equilibristas: resistências em práticas discursivas de contestação em tempos de ‘Horror Perfeito’

Luiz Paulo da Moita Lopes, Professor titular, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Joana Plaza Pinto, Professora titular, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO, Brasil.

Com base na concepção de que a democracia é constitutivamente instável, o artigo “Colocando em perspectiva as práticas discursivas de resistência em nossas democracias contemporâneas: uma introdução” focaliza diversos estudos de práticas discursivas situadas em algumas partes do mundo (África do Sul, Brasil, Inglaterra, Itália, Israel, Grécia e Polônia), que têm construído resistência aos movimentos em curso de debilitação da democracia. Tais movimentos têm-se caracterizado pela divulgação de ideários discursivos de extrema direita ou direita radical, ainda que de modos e níveis diferentes. Esses ideários coexistem em um mundo neoliberal de austeridade fiscal e de uberização da maior parte das populações ao passo que poucos ficam muito mais ricos. O retorno das forças de direita, no início do século XXI, na eleição de governos, no fortalecimento de partidos e na criação de grupos de atuação política, tem sido marcante a ponto de Santos (2016) se referir a essas forças como expressão do fascismo social – para se diferenciar do fascismo histórico –, ainda que seja fruto de eleições ‘democráticas’.

Os discursos da extrema direita têm se apresentado com grande vigor destrutivo aos ganhos políticos e éticos dos movimentos feministas, LGBTI+, antirracistas, das populações de imigrantes, indígenas, ciganas, quilombolas e outras, constituídos a partir da metade do século XX. Esses discursos da direita radical recolocaram em foco o que podemos chamar de uma modernidade colonial persistente (Mbembe, 2013/2014). Essa tenacidade se manifesta de maneira exímia no uso das redes sociais, de modo que entendemos a Internet como a ‘casa da direita radical’. É impossível estudar uma tal direita sem considerar a ação de grupos de ‘um mundo do vale tudo’, emulados por chefes de governos e seus apoiadores, no uso das plataformas digitais por meio de memes, trollagens, fake-news e trotes anonimizados. Empregados à exaustão, para causar assombro, disrupção de sentidos, ultrage e pânico moral, atuam também na destruição de reputações e vidas, ao passo que criam ‘nuvens de fumaça’ que desfocam a atenção do que realmente importa. O que este artigo ressalta é, portanto, o papel da linguagem em ação na performatização de significados de resistência a um mundo que institui o que denominamos de ‘Horror Perfeito’, a junção entre o Horror Econômico e o Horror Sociopolítico.

Imagem: Marília Castelli.

É nesse cenário que entendemos com Foucault (1976/1988), Butler, Gambetti e Sabsay (2016), e Hardt e Negri (2018/2017) que a ação do poder é antecedida por resistência ou que a vulnerabilidade está no tecido que fabrica a resistência. Não há lugar para assujeitamento ou inferiorização intrínsecos dos quais não se escape. As ontologias são fabricações que, ainda que possam valer na luta política, se dissolvem nas práticas discursivas no aqui e no agora. Portanto, este artigo oferece um panorama do dossiê “Resistências em Práticas Discursivas de Contestação em Democracias Frágeis”, publicado no periódico Trabalhos em Linguística Aplicada (vol. 59/3) e coorganizado por Luiz Paulo da Moita Lopes (UFRJ/CNPq) e Joana Plaza Pinto (UFG/CNPq). Os estudos do dossiê discutem práticas discursivas de resistências em países afetados pelo fortalecimento de discursos antidemocráticos e/ou de extrema direita ou pela persistência de processos e discursos coloniais desiguais e violentos, incluindo o Brasil, que experimenta tanto os discursos de extrema direita quanto a persistência das estruturas de violência colonial. Participantes das práticas analisadas nos artigos resistem aos projetos de persistência da modernidade colonial, como populações negras e quilombolas, LGBTI+, mulheres, sujeitos periféricos diversos, historicamente às margens das promessas da Modernidade, assim como as populações sujeitas a processos migratórios mais recentes. Certamente, se destaca no conjunto desses artigos o reconhecimento do racismo como sistema central nas estruturas de desigualdade que se espalharam pervasivamente no mundo a partir do século XV (Bernardino-Costa et al, 2019) e que agora atuam na construção do que chamamos anteriormente de ‘Horror Perfeito’. Diante desses contextos, a resistência é concebida como um agir político performado com recursos semióticos diversos, incluindo o corpo, e como contradiscursos diante de discursos hegemônicos excludentes e violentos, tanto em respostas diretas a esses discursos quanto, indiretamente, produzindo novos regimes discursivos para novos projetos políticos.

Referências

BERNARDINO-COSTA, J. et al. Introdução: Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico. In: Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico. (ed.) Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019.

BUTLER, J., GAMBETTI, Z. and SABSAY, L. Vulnerability in resistance. Durham: Durham University Press, 2016.

FOUCAULT, M. História da sexualidade. Rio de Janeiro: Paz &Terra, 1976.

HARDT, M. and NEGRI, A. Assembly. A organização multitudinária do comum. São Paulo: Editora Poloteia, 2018.

MBEMBE, A. Crítica da razão negra. Lisboa: Antígona, Lisboa, 2014.

SANTOS, B. S. A difícil reinvenção da democracia frente ao fascismo social. Entrevista com Roberto Machado [online]. Instituto Humanitas Unisinos, 2016 [viewed 11 June 2021]. Available from: http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/563035-a-dificil-reinvencao-da-democracia-frente-ao-fascismo-social-entrevista-especial-com-boaventura-de-sousa-santos

Para ler o artigo, acesse

MOITA-LOPES, L. P. and PINTO, J. P. COLOCANDO EM PERSPECTIVA AS PRÁTICAS DISCURSIVAS DE RESISTÊNCIA EM NOSSAS DEMOCRACIAS CONTEMPORÂNEAS: UMA INTRODUÇÃO. Trabalhos em Linguística Aplicada [online]. 2020, vol. 59, no.03, pp. 1590-1612 [viewed 14 June 2021]. https://doi.org/10.1590/010318139154811120210123. Available from: http://ref.scielo.org/9zgpqk

Links externos

Trabalhos em Linguística Aplicada – TLA: www.scielo.br/tla

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

LOPES, L. P. M. and PINTO, J. P. Vidas e afetos no contracanto de democracias equilibristas: resistências em práticas discursivas de contestação em tempos de ‘Horror Perfeito’ [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2021 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2021/06/22/vidas-e-afetos-no-contracanto-de-democracias-equilibristas-resistencias-em-praticas-discursivas-de-contestacao-em-tempos-de-horror-perfeito/

 

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