Rosa Emilia Moraes, Jornalista científica na Linceu Editorial, São José dos Campos, SP, Brasil.
A reforma administrativa dos anos 1990 inseriu uma lógica de gestão empresarial no lugar do compromisso com o direito social. Essa abordagem ganhou força com a narrativa que contrapunha a suposta ineficiência do serviço público à agilidade e eficácia do setor privado. Como demonstrou a pesquisadora Thaís Marin (2024), tal visão foi amplamente difundida pela imprensa e por veículos de comunicação de massa, consolidando a privatização como uma solução para os problemas do setor público e influenciando a percepção popular.
No âmbito da educação, a privatização tem causado impactos profundos, ao transferir funções do Estado para empresas privadas por meio de contratos de gestão, sistemas de ensino padronizados e parcerias com fundações empresariais, comprometendo a autonomia escolar e redefinindo a educação como produto de mercado.
O dossiê Privatização da Educação: Diferentes Contextos, Novas Formas e Atores, publicado no periódico Cadernos CEDES (vol. 45, 2025), foi organizado pelas Professoras Doutoras Teise Garcia, da Universidade de São Paulo (USP), e Raquel Borghi, da Universidade Estadual Paulista (UNESP). Com uma sólida trajetória na pesquisa educacional, elas reúnem neste trabalho uma coletânea de estudos que escancaram como a lógica de mercado tem se infiltrado na educação pública. Os trabalhos apresentados propõem uma análise multifacetada da privatização da educação, abordando tanto realidades internacionais, como o Chile, quanto contextos específicos do Brasil.

Imagem: Criada via ChatGPT
Contemplando artigos de diversos pesquisadores do Brasil e do exterior, a coletânea aborda desde a apropriação do fundo público em estados como Mato Grosso até a atuação de grupos privados, como a Rede Pitágoras no Pará, além da terceirização de serviços educacionais em municípios como Porto Alegre e Belém. Os estudos destacam ainda o papel de novos atores e mecanismos como tecnologias digitais e processos de hiperburocratização, que ampliam a presença do setor privado em áreas como gestão escolar, alimentação e formulação de políticas educacionais, apontando as consequências dessa transferência de recursos e responsabilidades do Estado para empresas privadas.
Em última instância, as diversas manifestações da privatização evidenciadas pelo conteúdo do dossiê corroboram a análise de Dave Hill (2003) segundo a qual a educação passou a ser vista como oportunidade de expansão do capital muito mais do que como direito social fundamental: quando a atuação do setor privado vai além da mera gestão dos serviços públicos, transforma a escola em um plano de negócios voltado à formação de mão de obra para o mercado, à geração de lucro direto e à ampliação de interesses empresariais no setor educacional. Nesse sentido, o dossiê apresentado vem levantar vozes incômodas para quem prefere manter o avanço da privatização longe dos holofotes, desafiando a naturalização da mercantilização do ensino e convidando o leitor a enxergar o que muitos preferem não ver.
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GARCIA, T. and BORGHI, R. Apresentação. In: Dossiê Privatização da educação: diferentes contextos, novas formas e atores. Cadernos CEDES [online]. 2025, vol. 45, p. e294455 [viewed 11 November 2025]. https://doi.org/10.1590/CC294455. Available from: https://www.scielo.br/j/ccedes/a/ggJTJYVq5V5xZKhhZvHX6kg/
Referências
HILL, D. O Neoliberalismo global, a resistência à deformação da educação. Currículo sem Fronteiras [online]. 2003, vol. 3, no. 2, p. 24–45 [viewed 11 November 2025]. Available from: https://biblat.unam.mx/hevila/CurriculosemFronteiras/2003/vol3/no2/2.pdf.
MARIN, T. As narrativas da privatização da educação básica na mídia brasileira. Campinas: ANPAE, 2024. Available from: https://anpae.org.br/EDITORA-ANPAE/1-Livros/pdfLivros/Livros2024/0424L-NarrativasPrivatizacao.pdf.
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