A diferença como estigma: um estudo sobre a personagem Eugênia, de Memórias póstumas de Brás Cubas

Tiago Seminatti, Assistente editorial da Machado de Assis em linha – revista eletrônica de estudos machadianos, São Paulo, SP, Brasil

No número 25 do periódico Machado de Assis em linha, Kathryn Sanchez, da Universidade de Wisconsin, em Madison, considera Memórias póstumas de Brás Cubas a partir dos Estudos da Deficiência. A pesquisadora circunscreve sua análise em torno do capítulo “Coxa de nascença”, mostrando como a condição física de Eugênia é um entrave em seu meio, de forma a impossibilitar o casamento com Brás e a consequente ascensão social. Assim, a representação da marginalização da personagem reverberaria aspectos da sociedade brasileira dos oitocentos.

Sanchez, no início do artigo, fundamenta seus pressupostos nos chamados Estudos da Deficiência. Trata-se de um campo de pesquisas que se ocupa da construção da ideia de deficiência e do conceito de corpo normal como algo central para compreender a representação da diversidade na sociedade, e também na literatura. Assim, considerando que a ideia de uma beleza ideal pressupõe seu contrário, marcado pelo anormal, grotesco ou defeituoso, a pesquisadora relembra que o embate entre norma e diversidade comparece na obra machadiana articulado com a representação de crises psíquicas, como ocorre em “O alienista” e Quincas Borba, para propor um questionamento do modo como Machado lida com a questão da deficiência.

Nesse sentido, Sanchez empreende análise detalhada do capítulo “Coxa de nascença” e de seus desdobramentos, mostrando que o episódio expressa a impossibilidade de Eugênia, naquele meio, ajustar-se socialmente, uma vez que sua coxeadura operaria enquanto estigma social. A pesquisadora argumenta, a partir de Lennard Davis (1995), que para entender a posição social da personagem o leitor precisa compreender o conceito de norma, de corpo normal, e como a sociedade construiu a ideia de normalidade, pois a “deficiência” de uma pessoa decorre da sua articulação com esses termos.

Nesse sentido, por meio de diálogo com Thomson (1997), Sanchez coloca em questão a “deficiência” de Eugênia, pois sua limitação física é mínima. Conforme explica, durante o século XIX teorias que concebiam o corpo a partir de uma visão única estavam em voga e, por isso, uma marca poderia representar a identidade do ser. Dialogando, portanto, com teorias de evolução social contemporâneas, o texto machadiano mostraria que a particularidade no andar de Eugênia motiva a recusa de Brás a ela, postura cuja representação no campo literário reverbera o pensamento de uma nação elitista e segregadora. É a partir de tais questões, argumentos e visão teórica que a pesquisadora apresenta análise minuciosa do modo como Machado constrói literariamente a impossibilidade de Eugênia, naquele meio, ajustar-se socialmente.

Referências

DAVIS, L. J. Enforcing normalcy: disability, deafness and the body. London; New York: Verso, 1995.

THONSOM, R. G. Extraordinary bodies: figuring disability in american culture and literature. New York: Columbia University Press, 1997.

Para ler o artigo, acesse

SANCHEZ, K. “Coxa de nascença”: misconceptions, normalcy and the aesthetics of difference in Memórias Póstumas de Brás Cubas by Machado de Assis. Machado Assis Linha, v. 11, n. 25, p. 112-130, 2018. ISSN: 1983-6821 [viewed 17 December 2018]. DOI: 10.1590/1983-6821201811257. Available from: http://ref.scielo.org/q7q8m7

Link externo

Machado de Assis em Linha – MAEL: www.scielo.br/mael

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SEMINATTI, T. A diferença como estigma: um estudo sobre a personagem Eugênia, de Memórias póstumas de Brás Cubas [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/02/27/a-diferenca-como-estigma-um-estudo-sobre-a-personagem-eugenia-de-memorias-postumas-de-bras-cubas/

 

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