Flow no trabalho é possível? Como avalia-lo?

Clarissa P. P. de Freitas, Professora da Pós-Graduação em Psicologia Social, Universidade Salgado de Oliveira, Niterói, RJ, Brasil

O artigo “Inventário de Flow no trabalho: evidências de validade da versão brasileira”, publicado no periódico Paidéia (v. 29), objetivou disponibilizar um instrumento confiável para avaliar o estado de flow no trabalho. Entende-se por flow a experiência positiva e transitória, na qual os profissionais estão imersos no desenvolvimento de seu trabalho, avaliam as atividades desenvolvidas como prazerosas e estão intrinsecamente motivados para realizá-las (DEMEROUTI et al., 2012). Para isso, a escala original da WOLF (BAKKER, 2008) foi adaptada ao contexto brasileiro. Foi realizada a tradução da escala original em inglês para o português por dois especialistas. As duas traduções foram sintetizadas e aplicadas em um grupo piloto e um grupo de especialistas, para investigar a adequação da escala. A versão final da escala em português foi traduzida para o inglês por dois pesquisadores fluentes na língua. As duas versões na língua inglesa foram sintetizadas, sendo avaliadas por um grupo de especilistas para investigar se a versão retro traduzida era equivalente a original. Após a conclusão da adaptação, foram realizadas análises estatísticas que demonstraram que a WOLF é um excelente instrumento para avaliar o estado de flow no trabalho no contexto brasileiro.

O estudo contou com a participação de 640 profissionais brasileiros, sendo 74% mulheres, as idades variaram de 19 a 73 anos (M = 35,9; DP = 10,5). A análise da dimensionalidade da escala, por meio da Análise Fatorial Confirmatória (AFC), demonstrou que o flow pode ser avaliado por meio de um escore geral de flow, assim como a escala é adequada para investigar as dimensões absorção, envolvimento e motivação intrínseca do flow. Foi observado também que a escala apresenta uma estrutura estável (DAMÁSIO; DeSOUSA, 2015), apesar das diferenças de escolaridade e sexo dos participantes. Dessa forma, os resultados indicaram que a WOLF pode ser utilizada para avaliar o flow de modo geral, assim como permite a análise em profundidade das dimensões absorção, envolvimento e motivação intrínseca do flow.

Figura 1

Figura 1. Relações entre as dimensões do Flow no Trabalho (Absorção, Envolvimento e Motivação Intrínseca) com o Recurso Pessoal Autoeficácia Ocupacional e a Satisfação no Trabalho. (Nota: Todas as relações são positivas, estatisticamente significativas para p < 0,05, e quanto maior a esfera e mais intensa a cor, maior a relação entre as variáveis). Fonte: FREITAS et al., 2019.

O estado de flow no trabalho esteve positivamente relacionado aos índices de autoeficácia ocupacional e satisfação no trabalho. Essas relações demonstram que o flow se caracteriza como uma dimensão relevante do bem-estar no trabalho e está positivamente relacionado aos recursos do trabalho.

A WOLF se caracteriza como um instrumento relevante para o contexto acadêmico e para as organizações, pois avalia um estado de bem-estar no trabalho associado ao desempenho, à promoção de relações positivas com os colegas e ao desenvolvimento dos profissionais (BAKKER, 2008; SALANOVA et al., 2014). Ao investigar os níveis de flow no trabalho os gestores e profissionais de Recursos Humanos podem identificar como os profissionais estão se relacionando com o seu trabalho e assim desenvolverem estratégias para promoverem o crescimento dos profissionais, assim como um melhor desempenho dos colaboradores.

No contexto do trabalho atual, instrumentos breves e eficientes para avaliar o bem-estar podem auxiliar gestores e profissionais de recursos humanos a investigarem os níveis de bem-estar dos trabalhadores de sua organização. Em razão disso, a adaptação da WOLF e a apresentação de suas evidências de validade se caracterizam como um avanço no conhecimento científico na área de Psicologia Positiva Organizacional.

Referências

BAKKER, A. B. The work-related flow inventory: Construction and initial validation of the WOLF. Journal of Vocational Behavior, v. 72, n. 3, p. 400-414, 2008. ISSN: 0001-8791 [reviewed 24 April 2019]. DOI: 10.1016/j.jvb.2007.11.007. Avaliable from: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0001879107001236

DAMÁSIO, B. F., & DeSOUSA, D. A. Análise fatorial confirmatória multigrupo: descrição e aplicação no software Mplus. In: SILVA, M. C. R. et al. (Orgs.). Aplicações de métodos estatísticos avançados à avaliação psicológica e educacional. São Paulo: Vetor, 2015. p. 175-192.

DEMEROUTI, E. et al. Work-related flow and energy at work and at home: A study on the role of daily recovery: Flow, energy, and recovery. Journal of Organizational Behavior, v. 33, n. 2, p. 276-295, 2012. e-ISSN:1099-1379 [reviewed 24 April 2019]. DOI: 10.1002/job.760. Avaliable from: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/job.760

SALANOVA, M. et al. Flowing together: A longitudinal study of collective efficacy and collective flow among workgroups. The Journal of Psychology, v. 148, n. 4, p. 435-455, 2014. e-ISSN: 1940-1019 [reviewed 24 April 2019]. DOI: 10.1080/00223980.2013.806290 Avaliable from: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/00223980.2013.806290

Para ler o artigo, acesse

FREITAS, C. P. P. et al. Work-related flow inventory: evidence of validity of the Brazilian version. Paidéia (Ribeirão Preto), v. 29, e2901, 2019. ISSN: 0103-863X [viewed 10 May 2019]. DOI: 10.1590/1982-4327e2901. Available from: http://ref.scielo.org/vknrm5

Link externo

Paidéia (Ribeirão Preto) – PAIDEIA: www.scielo.br/paideia

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

FREITAS, C. P. P Flow no trabalho é possível? Como avalia-lo? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/05/10/flow-no-trabalho-e-possivel-como-avalia-lo/

 

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