Discurso científico e retórica: A origem das espécies

Maria Helena Cruz Pistori, Editora associada de Bakhtiniana, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo, SP, Brasil

Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso (v. 14, n. 2), apresenta sete artigos que tratam de diferentes discursos: da literatura feminina no Brasil e na Itália; da filosofia e da ciência; das mídias jornalísticas — sobre agrotóxicos; de seriados de televisão; de memes. Dentre eles, destaca-se “O argumento analógico de Darwin: a função da retórica entre o artificial e o natural” de Gustavo Piovezan (Universidade Federal de Rondônia/UNIR), que propõe uma leitura retórica da importante obra de Charles Darwin.

Desde seu surgimento, no séc. V a.C., o discurso retórico é visto com desconfiança, ora manipulador e mentiroso, ora até mesmo vazio. A retórica, arte do bem dizer, ao ensinar como persuadir a partir do que parece ser verdade — a verossimilhança, configura-se como a contraparte da lógica. E, como era de se esperar, é o caráter lógico da argumentação darwiniana que sobressai na tradição analítica da filosofia que estudou “A origem das espécies” (1859).

Importante destacar que, se desde o cartesianismo se abriu um abismo entre filosofia e retórica, a partir de 1958, ano de publicação tanto do “Tratado da argumentação: a nova retórica”, de Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca, como de “Os usos do argumento”, de Stephen Toulmin, inicia-se uma reabilitação e reconhecimento da antiga disciplina. É um novo modo de conceber a racionalidade formal a partir do que Toulmin designa por razoabilidade, segundo a qual, por exemplo, “a análise de estrutura das teorias científicas já não é suficiente; agora precisamos dar atenção à história, e mesmo à etnografia da atividade científica. […] uma vez que as “formas de vida” têm as suas próprias histórias e filiações, isso significa que a análise filosófica da argumentação em ciências naturais deve ser recontextualizada” (TOULMIN, 1994, p. 30). Assim, a metáfora e a analogia, ainda que, por vezes, possam se apresentar como um “obstáculo verbal” e “epistemológico” à compreensão da ciência e à formação do espírito científico (BACHELARD, 1996, p. 91-97), em vários momentos, como nos mostra este estudo, servem à construção de um conceito (aqui, o da seleção natural).

No artigo, Piovezan analisa o papel dessas figuras retóricas na fundamentação e desenvolvimento do pensamento da teoria da evolução. Tanto a analogia como a metáfora definem uma realidade, fornecem sentidos ao real. Assim, destaca ele, “foi um artifício da razão argumentativa que contribuiu para a caracterização dos aspectos de verdade que a teoria evolutiva apresentava aos leitores.

O objetivo do estudo será explorar exatamente os argumentos darwinianos na construção do conceito de seleção natural, sob a perspectiva da Retórica, mais especialmente a nova retórica de Perelman. E, ao longo do texto, tomamos contato com o raciocínio darwiniano e o modo como o compartilhou, granjeando tão rápido reconhecimento — ainda que com críticas, ressalvas e censuras —, que a primeira impressão da obra se esgotou no dia de seu lançamento, 24 de novembro de 1859. Compreendemos ainda quem foram seus destinatários, naturalistas, muitas vezes, criadores de animais, ou “membros da elite que se dedicavam ao estudo, coleção e observação da natureza” naquela Inglaterra vitoriana; com eles Darwin cria, no dizer de Piovezan, “‘uma comunhão de espíritos’ que partilhavam daquele dado empírico”. A analogia é construída entre o “quintal do criador” e o “quintal da natureza”, que passam a estruturar a realidade e modelar uma imagem de mundo. A partir dela, estabelece-se o acordo universal entre Darwin e seu auditório, baseado em presunções compartilhadas carregadas de valores que motivavam os leitores e as tornavam aceitáveis. Piovezan ainda nos mostra a proximidade da metáfora da “luta” pela sobrevivência com o texto de Thomas Malthus, que relacionava o poder de produção alimentícia e o poder de procriação da espécie humana. Além disso, os dados empíricos compartilhados, sobretudo aqueles referentes aos pombos, se constituíram o lugar comum para alcançar um grande público, muitos deles também criadores. E os resultados do estudo, desse modo, mostram a onipresença da retórica, mesmo em tempos em que a razão cartesiana a colocou em segundo plano.

Enfim, a atualidade e o interesse do artigo derivam ainda do debate que se instaurou desde a publicação da Origem: criacionismo versus evolucionismo, debate que, em alguns contextos, continua vivo.

Referências

BACHELARD, G. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

TOULMIN, S. Racionalidade e razoabilidade. In: CARRILHO, M. M. (Org.). Retórica e comunicação. Porto, Portugal: Edições ASA, 1994.

Para ler os artigos, acesse

PIOVEZAN, G. O argumento analógico de Darwin: a função da retórica entre o artificial e o natural. Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso, v. 14, n. 2, p. 88-111, 2019. ISSN: 2176-4573 [viewed 8 May 2019]. DOI: 10.1590/2176-457339232. Available from: http://ref.scielo.org/rzrvy6

Link externo

Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso – BAK: www.scielo.br/bak/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

PISTORI, M. H. C. Discurso científico e retórica: A origem das espécies [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/06/07/discurso-cientifico-e-retorica-a-origem-das-especies/

 

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