O que pode a clínica na interface com a dança? Problematizações da saúde mental na Atenção Básica

Luciana Rodriguez Barone, Psicóloga do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), Porto Alegre, RS, Brasil

Simone Mainieri Paulon, Docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil

A pesquisa compartilhada no artigo “Ensaiando uma clínica do chão: cartografando a Saúde mental na Atenção Básica em interface com a dança”, publicada no periódico Interface – Comunicação, Saúde, Educação (v. 23),  propõe uma “clínica do chão”, reunindo experimentações no campo das artes, da saúde mental e da atenção básica para afirmar que é possível, e necessário, que inventemos modos de clinicar e de proliferar sentidos em territórios da saúde marcados pelo adoecimento, medicalização e burocratização (ARAGON, 2003; GIL, 2001). Uma psicóloga-bailarina-pesquisadora desperta a sensibilidade do corpo para problematizar a clínica, a partir de suas experimentações dançantes.

Sustentada no método cartográfico, a pesquisa foi realizada entre 2014 e 2017 e o campo de estudos compôs-se de narrativas diarísticas colhidas entre cenas clínicas de atendimentos da psicóloga em uma unidade de saúde da família de Porto Alegre, performances de dança da bailarina em ensaios, oficinas e espetáculos, e, ainda, de incursões da pesquisadora em um grupo de pesquisa de Saúde Mental na Atenção Básica. Usuários e trabalhadores do SUS, plateia e componentes do corpo de bailarinos, colegas e outros pesquisadores da Saúde Mental, são atores que comparecem às cenas narradas em encontros sensíveis que nem sempre incluem palavras. Ora aparecem como movimentos, gestos dançantes, olhares que acolhem sem precisar dizer… Em uma das composições, traz a cena de um atendimento conjunto de uma agente comunitária de saúde com a psicóloga da unidade, tendo a dança como intercessora, em uma lógica intensiva que ajuda a corporeizar a clínica.

Os movimentos clínicos na unidade de saúde se repetem cotidianamente, mas muitas misturas também hibridizam tais práticas de cuidado, colocando em questão fronteiras da saúde mental. Assim, a dança, que parecia distante e separada da saúde, enriquece e possibilita movimentar as durezas clínicas de modo singular, fragmentário e em um instante que dura na escrita.

Por uma Clínica do Chão Fonte: Fotografia de Marina Fujiname.

A pesquisa buscou, deste modo, promover processos de criação, a partir de uma concepção de saúde frágil e aberta ao mundo, que não toma a doença em oposição à doença, senão como forças de um mesmo continuum. É assim que o corpo-bailarina que aprendeu a usar o chão para produzir movimentos se conecta com o corpo-psicóloga que aceita os pesos da atenção básica, sem resignação, tentando ampliar suas potências. Aprendendo com a dança que cada repetição contém todo um potencial de transformação, o estudo apontou a possibilidade de imprimir novos ritmos também aos movimentos que a Saúde Mental exige das equipes na Atenção Básica. Movimentos mais abertos ao acontecimento. Permite concluir que quando algo excepcionalmente transforma as práticas clínicas e dançantes, também muda, por contágio, a relação com o espaço-corpo, permite a criação de novos possíveis como se o corpo entrasse em expansão.

A proposta de uma clínica do chão exige, portanto, que inventemos um estilo.

Referências

ARAGON, L. E. P. A espessura do encontro. Interface (Botucatu), v. 7, n. 12, p. 11-22, 2003. ISSN: 1414-3283 [viewed 30 October 2019].  DOI: 10.1590/S1414-32832003000100002. Available from: http://ref.scielo.org/nzqs2r

GIL, J. Movimento total: o corpo e a dança Movimento total: o corpo e a dança. Lisboa: Relógio D’água Editores, 2001.

Para ler o artigo, acesse

BARONE, L. R. and PAULON, S. M. Ensaiando uma clínica do chão: cartografando a Saúde mental na Atenção Básica em interface com a dança. Interface (Botucatu), v. 23, e180599, 2019. ISSN: 1414-3283 [viewed 30 October 2019]. DOI: 10.1590/interface.180599. Available from: http://ref.scielo.org/hjpd4t

Links externos

Interface – Comunicação, Saúde, Educação – ICSE: www.scielo.br/icse/

Grupo de Pesquisa INTERVIRES

https://www.ufrgs.br/intervires/

Grupo de Pesquisa em Movimentação Contemporânea N Amostra

https://www.youtube.com/channel/UCBHBrHvphdYZj5Q93tN-OsQ

Oficina Permanente de Criação em Dança da Macarenando Dance Concept:

http://www.macarenando.com.br/site/

https://www.youtube.com/watch?v=MQKpWIvx6RU

https://territoriosdefilosofia.wordpress.com/2014/05/28/o-corpo-do-bailarino-jose-gil/comment-page-1/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

BARONE, L. R. and PAULON, S. M. O que pode a clínica na interface com a dança? Problematizações da saúde mental na Atenção Básica [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/11/05/o-que-pode-a-clinica-na-interface-com-a-danca-problematizacoes-da-saude-mental-na-atencao-basica/

 

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