De que forma os sentidos e as memórias compõem nossa cultura e consciência?

Gisele Toassa, Professora associada, Faculdade de Educação, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO, Brasil.

Em meio às tragédias da pandemia da COVID-19, sentimos a cada dia os prejuízos decorrentes do isolamento social. Quando afirmamos que “a vida não tem sentido senão em sociedade”, ou que “entendemos alguma coisa com a mente, mas não com o coração”, do que falamos?  Para debater essas questões, trabalhamos para resgatar a obra do mais popular teórico do papel da sociedade, da história e da cultura no desenvolvimento psicológico humano, o marxista Lev Semionovich Vigotski (1896-1934). Ele e seus colaboradores vêm sendo estudados na educação brasileira desde os anos 1980s, e é dos debates sobre suas contribuições que nasce o dossiê temático “Vigotski e Leontiev: de memórias e sentidos”, publicado pelo Cadernos Cedes (vol. 40, no. 111), no qual é apresentada a tradução inédita do único texto elaborado em conjunto por Vigotski e Leontiev. Datado de 1932, trata-se do segundo prefácio escrito para a obra “Desenvolvimento da memória”, livro de autoria de Leontiev, publicada originalmente em 1931. Organizado por Gisele Toassa e Ana Luiza Smolka, o dossiê traz pesquisas que comentam o referido prefácio a partir de diversas áreas do conhecimento.

Escolher a tradução de um texto específico, quando há ainda muito a se conhecer sobre Vigotski, acabou sendo simples. A dica veio em uma conversa com o historiador da psicologia Anton Yasnitsky, que afirmou a importância do texto escrito a quatro mãos por Vigotski e Leontiev. Yasnitsky (2020) contribui com o presente dossiê elucidando as relações entre os dois autores no contexto da criação de uma nova psicologia marxista na Rússia. Em uma perspectiva divergente, Almeida (2020) problematiza as mesmas relações e busca mostrar quão diversificada era a pesquisa sobre memória desenvolvida por Leontiev.

Meshcheriakov (2020) analisa a atualidade das contribuições de Leontiev sobre a memória, o tema principal presente na tradução que ora apresentamos. Como os signos – ou seja, palavras, imagens, símbolos etc. – influenciam na nossa capacidade de recordar? Com a perspectiva da neurociências, Damasceno (2020) explica o papel da socialização no desenvolvimento da memória e no cérebro, enquanto Braga e Smolka (2020) trazem análise de uma atividade sobre memória e narrativa realizada em uma escola pública de ensino fundamental, buscando, por um prisma pedagógico, dar visibilidade a aspectos da constituição da personalidade nas dimensões social, histórica e individual. Acredita-se que esse encontro de perspectivas trará muitas novas contribuições sobre as discussões acerca da memória e do sentido consciente.

No artigo “Um estudo sobre o conceito de sentido e a análise semântica da consciência em L. S. Vigotski” (TOASSA, 2020), é oferecida uma ideia presente em muitas psicologias e também na nossa vida cotidiana, a de que é preciso considerar os sentidos conscientes de forma ampla, abarcando não apenas a linguagem, mas também as conexões vitais à existência humana. Vigotski pauta-se em fundamentos marxistas para compreender melhor como as pessoas elaboram sentidos para as mais diversas situações, sejam correspondentes a eventos corriqueiros ou marcantes, em contraste com o sofrimento de existir “sem sentido”.

As interações entre os sentidos cotidianos e os existenciais são elevadas a um outro patamar, na constatação de Marques (2020), de que a arte, para Vigotski, é um campo de produção de sentidos novos. A autora rastreia as ocorrências do termo sentido em diferentes textos vigotskianos sobre arte, com ênfase nas obras jovens – e desconhecidas – do autor. Nelas, Vigotski sai em defesa da artificialidade da arte e de seu antagonismo para com a vida cotidiana, lançando pistas para a compreensão da dança e artes plásticas, para além da literatura e teatro, formas artísticas nas quais as ideias do autor são mais conhecidas.

Na pesquisa em história das ciências, traduzir um texto novo pode ser motivo para desenvolver melhor as ideias antigas ou, mesmo, criar outras. Muitos textos de Vigotski ainda podem ser desconhecidos ou subestimados, e conhecê-lo melhor pode nos conduzir a negar as leituras cognitivistas, acríticas ou intelectualistas que, não raramente, são feitas sobre sua obra. Uma leitura renovada de suas contribuições ajuda-nos a conceber a noção de sentidos levando em conta o modo como nosso corpo e afetos misturam-se ao nosso pensamento, forjando as nossas intenções a partir da multiplicidade de significações que a sociedade nos ensina. Boa leitura!

A seguir, assista ao vídeo de Gisele Toassa ampliando a discussão do assunto.

Para ler os artigos, acesse

Cad. CEDES vol.40 no.111 Campinas maio/ago. 2020

Link externo

Cadernos CEDES – CCEDES: www.scielo.br/ccedes

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

TOASSA, G. De que forma os sentidos e as memórias compõem nossa cultura e consciência? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/09/01/de-que-forma-os-sentidos-e-as-memorias-compoem-nossa-cultura-e-consciencia/

 

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