Aleksander Veraksa, Universidade Estatal Lomonosov de Moscou, Rússia
Candido Alberto Gomes, Universidade de Aveiro, Portugal
Carlos Ângelo de Meneses Sousa, Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), Brasil
Geraldo Caliman, Universidade Católica de Brasília (UCB), Brasil
Patrícia Helena Carvalho Holanda, Universidade Federal do Ceará (UFC), Brasil
As violências nas escolas, sejam físicas, simbólicas ou outras, representam obstáculos ao livre exercício do direito humano à educação: levam ao abandono da escola, ao afastamento da concentração nos estudos, a sequelas físicas e psicológicas e até mesmo ao suicídio. Assim, além dos processos educativos, geram mal-estar em geral, transtornos psicológicos e, mesmo, o óbito por suicídio. Como as tecnologias podem ser aplicadas a múltiplos fins, seus usos podem levar ao avesso dos objetivos educativos, ao limitarem o acesso, a continuidade, a igualdade de condições e o sucesso educativos.
O uso das mídias sociais ganhou incremento exponencial quando, durante a pandemia de COVID-19, a educação remota se tornou a alternativa compulsória para a continuidade da escolarização. Os contatos sociais, antes diretos e pessoais, passaram a ser mediados pelas tecnologias da informação e comunicação. Embora anterior à pandemia e concomitante com a utilização das mídias sociais por estudantes, o cyberbullying acompanhou os contatos via tecnologia. O artigo intitulado Adolescentes e Tecnologias: andando na corda bamba, publicado pelo periódico Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação (vol. 34, no. 130, 2026) discorre sobre. os impactos da tecnologia no cotidiano juvenil.
A Cátedra UNESCO de Juventude, Educação e Sociedade acolheu e desenvolveu uma pesquisa internacional1 envolvendo pesquisadores(as) de universidades do Brasil, Portugal e Rússia. A investigação teve como objetivo geral examinar os impactos dos usos de mídias sociais e da dependência em relação a estas em face do bem-estar e do cyberbullying. Como potenciais mediadores, foram analisados o meio social em que se encontram os adolescentes, bem como a autoestima dos adolescentes, além da influência dos relacionamentos entre colegas na prevenção ou incentivo ao cyberbullying.

Imagem: Via Pixabay
Em termos metodológicos a pesquisa aplicou um questionário de 121 questões objetivas junto a estudantes de 13 a 18 anos de escolas públicas e privadas no Distrito Federal (Brasília e Taguatinga) e em Fortaleza, totalizando 536 respondentes. A estruturação do questionário se constituiu em sete blocos de questões sobre (I) Redes Sociais e seus usos; (II) Cyberbullying; (III) Ambiente social; (IV) Sintomas internalizados e externalizados; (V) Personalidade; (VI) Bem-estar e (VII) Dados demográficos. Para a análise dos dados se fez uso de referenciais teóricos baseados em Coleman (1963); Dubet (2013) e Han (2022) entre outros e se reportou a pesquisas como as de Lira; Gomes (2018); Prioste (2020) e Gomes; Sousa (2023) para citar algumas.
Entre os resultados destacamos que os(as) adolescentes utilizam as mídias extensamente e por longos períodos. Um grupo significativo sofre efeitos negativos no estudo e no trabalho. A dependência afeta expressiva proporção de respondentes, enquanto a privação das mídias lhes causa mal-estar. A internet, por meio das mídias sociais, viabilizou a prática do cyberbullying, esta foi evidenciada por parte de uma proporção substancial de usuários. Quando se compara o número total de ações denunciadas por vítimas e agressores, o primeiro é 61,0% superior ao segundo, o que pode dever-se à subnotificação de agressões e/ou agressões contra mais de uma pessoa, ou seja, pode haver polivitimização por parte dos agressores.
Assim, junto com a pressão de colegas, a internet é uma poderosa competidora de instituições educativas, como a escola e a família. Lamentavelmente, as evidências empíricas explicitam que uma parcela inexpressiva de pais e responsáveis acompanham ou orientam o uso das mídias sociais, sinalizando para a necessidade urgente de implementação de ações mais estratégias e articuladas entre o sistema educacional, as famílias e o Estado. É de fundamental importância as ações voltadas para o investimento em políticas públicas de formação digital crítica, programas de apoio às famílias e estratégias escolares que integrem o uso ético e reflexivo das tecnologias ao currículo, voltadas para a proteção, a inclusão, a autonomia, a ética, a cidadania e o bem-estar dos alunos.
1.Os três primeiros parágrafos são trechos do Projeto(2024) “The impact of social media use, and social media addiction on well-being and cyberbullying”
Para ler o artigo, acesse
GOMES, C.A., et al. Adolescents and technologies: walking the tightrope. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação [online]. 2026, vol. 34, no. 130, pp. 1-22 [viewed 29 April 2026]. https://doi.org/10.1590/S0104-40362026003405330. Available from: https://www.scielo.br/j/ensaio/a/8VRHXCn7TyQcqNnckH5cXBQ/
Referências
COLEMAN, J. S. The adolescent society: The social life of the teenager and its impact on education. New York: The Free Press of Glencoe, 1963.
DUBET, F. El declive de la institución. Barcelona: Gedisa, 2013.
GOMES, C.A. and SOUSA, C.Â.M. Challenges and Risks of Remote Education for Children and Adolescents. Ensaio. Avaliação e Políticas Públicas em Educação [online]. 2023, vol. 31, no. 113, p. 1-20 [viewed 29 April 2026]. https://doi.org/10.1590/S0104-40362022003003752. Available from: https://www.scielo.br/j/ensaio/a/p6XJg8qsxm5NNsKHJdCkwWr/
HAN, B.-C. Infocracia: Digitalização e a crise da democracia. Rio de Janeiro: Vozes, 2022.
LIRA, A. and GOMES, C. Violence in schools: what are the lessons for teachers education? Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação [online]. 2018, vol. 26, no. 100, p. 759-779 [viewed 29 April 2026]. https://doi.org/10.1590/S0104-40362018002601574. Available from: https://www.scielo.br/j/ensaio/a/33Jrd6Bc4cV3SLfprP3ZZqp/abstract/
PRIOSTE, C. O adolescente e a internet: Laços e embaraços no mundo virtual. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, Fapesp, 2020.
PROJETO “The impact of social media use, and social media addiction on well-being and cyberbullying”. Cátedra UNESCO de Juventude, Educação e Sociedade. UCB, Brasília, 2024.
Links externos
Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação
Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação – SciELO
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