Coleções: protagonismo indígena e curadoria compartilhada

Jimena Felipe Beltrão, Jornalista, Ph.D. em Ciências Sociais (University of Leicester, Reino Unido), editora científica do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, PA, Brasil

Silvia de Souza Leão, Jornalista, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Linguagens e Cultura da Universidade da Amazônia (Unama), Belém, PA, Brasil

Para a antropóloga e museóloga, Lucia Hussak van Velthem, há no contexto dos museus “várias formas de se considerar o seu patrimônio que é formado por coleções, as quais representam suportes de expressão de memórias, elementos essenciais na constituição de identidades de diferentes povos e segmentos sociais”. Segundo Lúcia, “No Museu Paraense Emílio Goeldi, coleções, tais como a etnográfica, composta de objetos da cultura de inúmeros povos indígenas e também de artefatos de origem africana e da tradição ribeirinha, tiveram origem em doações de cientistas, de viajantes, de militares, de comerciantes, do clero, de profissionais liberais os mais variados. Já a coleção arqueológica, em que se destacam as urnas funerárias, a responsabilidade de sua salvaguarda envolve a instituição e o trabalho de curadores e estudiosos”. E reitera que “O patrimônio dos museus brasileiros e de outros países são também fonte de pesquisa e, por conseguinte, contribuem para a formação de novos pesquisadores em diferentes áreas do conhecimento, com especial destaque para as coleções de espécimes biológicos”.

A destruição dos acervos do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em decorrência do incêndio ocorrido em 2/9/2018, constitui um fato que merece reflexão. Assim, perguntamos à antropóloga e curadora da Coleção Etnográfica do Museu Paraense Emílio Goeldi, Lucia Hussak van Velthem, que garantias podem ser dadas aos povos tradicionais de que as instituições museais, consideradas fiéis depositárias de sua cultura material, possam continuar exercendo esse papel?

Para a antropóloga, “As garantias de salvaguarda das coleções do Museu Goeldi se apoiam em protocolos de conservação e acondicionamento oriundos de práticas museológicas. As coleções etnográficas, embora antigas estão bem preservadas. Há objetos cuja coleta data de 1902, caso de itens da coleção de Frei Gil de Vila Nova, que esteve entre os Kayapó – Iraã Mrayre; e a da de Theodor Koch-Grünberg, de 1905. Também contribui para a preservação do acervo, o trabalho de documentação que inclui identificação, registro fotográfico, fichas individuais em catálogo, publicações, artigos, livros, bases de dados, páginas da web”.

A vida dos objetos

De acordo com Lucia van Velthem, “cada coleção é composta de objetos que têm uma vida pregressa e que estabelecem outra na instituição, onde se encontram guardados”. E conclui: “Em um museu é indispensável a consideração de que todas as sociedades e os indivíduos que a compõem possuem uma história, e que todas as culturas são o produto de contatos e trocas, o que se reflete em suas coleções”.

Segundo nos relatou Lucia, “Os Wayana, em uma visita ao Museu Goeldi, ao se depararem com as flautas que se encontram na reserva técnica da Coleção Etnográfica, precisaram tocá-las para identificá-las, pois é do som que emitem, que se sabe o nome de cada uma” (VELTHEM, 2012). Para esses indígenas, os objetos da Reserva Técnica estavam “deitados na rede, em descanso, dormindo, silenciosos e precisavam ser acordados”, relata a antropóloga. Assim também ocorre com os maracás que estão em repouso nos armários da reserva, diz Lucia. Para os indígenas, os objetos precisam estar vivos e isso só acontece quando estão em uso, nos contextos para os quais foram produzidos.

Ainda sobre os cuidados, a curadora explica que a forma de acondicionar, guardar os objetos é relevante e deve procurar se aproximar da forma como os povos indígenas acondicionam seus artefatos: “no Museu Goeldi guardamos os arcos e as flechas deitados, as peças de plumária enroladas”.

Uma das tendências da Antropologia e da Museologia tem sido buscar conciliar os interesses dos povos tradicionais em preservar sua cultura material e a tradição de guarda de patrimônio por instituições – como os museus – a partir de práticas relacionadas com curadorias compartilhadas. Para Lúcia, “Trata-se de um ‘diálogo complexo’ que já experimenta avanços como publicado no dossiê ‘Patrimônio indígena e coleções etnográficas’”. Uma primeira questão que se apresenta, de acordo com a antropóloga é a da acessibilidade: “os povos indígenas e populações tradicionais têm que saber que os objetos estão nos museus”.  A coleção etnográfica do Museu Goeldi está inserida em um arcabouço que abrange “uma sucessão de patrimônios: pertence às populações indígenas, à instituição, ao estado, à nação através do IPHAN”, informa. Neste sentido, os acervos etnográfico e arqueológico do Museu Goeldi, foram inscritos em 1938, junto com outros bens culturais, no Livro de Tombo referente às “coisas pertencentes às categorias da arte arqueológica, etnográfica, ameríndia e popular”. E conclui: “São patrimônios compartilhados”.

A acessibilidade às coleções reside também em atividades que disponibilizem catálogos de coleções. A digitalização está entre as medidas mais eficientes: Museus da Amazônia em Rede (MAR, [201-]) é uma dessas iniciativas que busca a “expandir e aprofundar o diálogo intercultural no espaço museal” (VELTHEM et al., 2017).

Desde 2010, o Programa MAR uniu três museus localizados na Amazônia Oriental em atividades para a criação de um site na internet que disponibiliza os seus acervos, a saber  “coleções etnográficas da maioria dos povos ameríndios, Wayãpi, Wayana, Parikwene, Kali’na, Lokono, Teko, Tiriyó, Aparai, e das populações marrons Ndjuka, Saamaka, Paamaka, Matawai que estão instalados nos dois lados das fronteiras guianense, brasileira e surinamense”.

 

É intenção do Programa MAR ampliar o catálogo com “a progressiva integração de outras peças, inscritas no inventário dos museus da região, notadamente os objetos provenientes de outros grupos culturais (ribeirinhos, creoles, hmong, indonésios, haitianos…), mas também de coleções que abrangem outros domínios (arqueologia, ciências e técnicas…)”.

Envolver os atores oriundos de povos tradicionais em ações de conservação da cultura material sob a guarda dos museus é parte de práticas correntes para estimular aproximações e compartilhamentos. Segundo Lúcia, “Nesse movimento, os povos indígenas passam a considerar os museus como territórios de afirmação política e de identidade, o que ocorre através de exposições – que lhes dão ampla visibilidade, como de uma forma oculta, em levantamentos de coleções dentro das reservas técnicas”, afirma a antropóloga e museóloga. Nas próprias exposições, a narrativa, a construção do texto deve ser compartilhada. As contribuições se referem também à qualidade do que se coleta: “não se deve coletar objetos desgastados e descartados nas aldeias, orientaram certos povos indígenas, quando aqui estiveram para verificar as condições de guarda do material”. A seguir assista o vídeo da Lucia Hussak van Velthem.

O protagonismo dos povos indígenas tem se apresentado na criação de museus, entre outros, o Museu Kuahi, na cidade de Oiapoque, o Museu Magüta, dos Tikuna no Alto Rio Solimões, reconhecido internacionalmente e premiado pela Unesco, segundo Claudia López, antropóloga e ex-curadora da coleção do Goeldi. Com essa prática os povos indígenas se posicionam diante das práticas de colecionismo do século XIX “como elemento da construção da ciência ocidental” segundo a perspectiva da antropóloga Claudia López, editora associada do BMPEG. Ciências Humanas e ex-curadora da Coleção Etnográfica do Museu Goeldi.

Diálogo e ciência em colaboração

O que representam as coleções sob a guarda de museus? Para a antropóloga Claudia, o colecionismo está associado desde o século XIX à construção e legitimação da ciência ocidental. Segundo ela, a questão transcende este fato e é preciso problematizar o tema indagando “Até que ponto os estados nacionais estão comprometidos com a preservação de cada povo indígena”.

Para Claudia, é essencial identificar “como estabelecer diálogo entre os interesses dos estados nacionais e aqueles dos povos indígenas”. Na sua perspectiva, a “apropriação do conceito de museu (pelos indígenas) estabelece novas dinâmicas socioculturais e o fortalecimento de processos culturais”.

Em sua experiência trabalhando no Museu e junto aos Ka´apor do Maranhão, Claudia López foi partícipe de colaboração com a Universidade de Leiden, na Holanda, para construir pontes de curadoria compartilhada e de elaboração de projetos expositivos. Os indígenas contribuíram para o reconhecimento de peças e sua contextualização para fins expositivos, como descrito no dossiê “Patrimônio indígena e coleções etnográficas”.

Essas e outras experiências como a dos Pankararu e Pataxó, revelam a existência de um “diálogo entre a tradição museológica e as novas dinâmicas, estabelecidas pelo protagonismo indígena, e um modo de fazer ciência em colaboração”. Assista o vídeo de Cláudia López a seguir.

Referências

MUSEUS DA AMAZÔNIA EM REDE. Coleções do Planalto das Guianas. [201-]. Available from: http://amazonian-museum-network.org/pt-br/colecoes

VAN VELTHEM, L. H. O objeto etnográfico é irredutível? Pistas sobre novos sentidos e análises. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. [online]. 2012, vol.7, n.1, pp.51-66. ISSN 1981-8122. [viewed 30 November 2018]. DOI: 10.1590/S1981-81222012000100005. Available from: http://ref.scielo.org/wnj3d3

Para ler os artigos, acesse

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.12 no.3 Belém Sept./Dec. 2017

Links externos

Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas – BGOELDI: www.scielo.br/bgoeldi

Boletim: www.editora.museu-goeldi.br/humanas

Boletim no Issuu: www.issuu.com/bgoeldi_ch

Facebook: www.facebook.com/boletimgoeldiCH

Sobre Claudia Leonor López Garcés

Claudia Leonor López Garcés

Claudia Leonor López Garcés

Doutora em Antropologia, pesquisadora Titular do Museu Paraense Emílio Goeldi e professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Pará (UFPA). Atualmente desenvolve pesquisas entre os Mebêngôkre-Kayapó e Ka´apor, na Amazônia brasileira, voltadas para a compreensão das relações destes povos como meio ambiente e sociedades circundantes, assim como sobre povos indígenas e coleções etnográficas em museus. E-mail: clapez@museu-goeldi.br

Sobre Lucia Hussak Van Velthem

Lucia Hussak Van Velthem

Lucia Hussak Van Velthem

Ph.D no EREA-CNRS na França e pesquisadora Titular do MCTI, vinculada ao Museu Paraense Emilio Goeldi Dedica-se a área de Antropologia, com ênfase em Etnologia Indígena, a saber, índios Wayana e, Aparai no Norte do Pará; índios Baré no Noroeste do Amazonas e também pequenos agricultores no Acre, atuando principalmente nos seguintes temas: arte, estética e cosmologia indígenas, cultura material, coleções etnográficas e curadoria de exposições. E-mail: luciavelthem@museu-goeldi.br

 

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

BELTRÃO, J. F. and LEÃO, S. S. Coleções: protagonismo indígena e curadoria compartilhada [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2018 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2018/11/30/colecoes-protagonismo-indigena-e-curadoria-compartilhada/

 

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