Horizontes Antropológicos apresenta edição temática sobre ‘Antropologia e Emoções’, com ênfase nos conceitos e perspectivas teóricas

Ceres Víctora, Professora titular, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil

Maria Claudia Coelho, Professora titular, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

A atenção para a dimensão emocional da experiência humana está presente em diversos momentos do pensamento antropológico. O clássico “A expressão obrigatória dos sentimentos”, de Marcel Mauss (1980), pode ser tomado como uma primeira formulação teórica a respeito das emoções, em que o autor, nuançando o modelo teórico durkheimiano baseado no conceito de “fato social”, analisa um conjunto de ritos funerários australianos como forma de pensar um problema central de sua teoria social: a oposição indivíduo-sociedade, expressa ali sob a forma da tensão entre espontaneidade e obrigação, problema que, de resto, atravessa sua obra, em particular no clássico estudo sobre a dádiva.

As emoções surgem também em outras vertentes da teoria antropológica, como na reflexão dos funcionalistas sobre a relação entre organização social e afeto, a exemplo da discussão de A. R. Radcliffe-Brown sobre a maneira como a jocosidade é gramaticalmente prescrita ou interdita em determinadas relações de parentesco; a centralidade das emoções e da personalidade em sua relação com a cultura nos trabalhos de R. Benedict (como no clássico estudo sobre a honra japonesa – O crisântemo e a espada”) e M. Mead (como na conhecida comparação entre os temperamentos socialmente definidos como desejáveis para homens e mulheres, em “Sexo e temperamento”); ou ainda na importância das concepções de self no interpretativismo de C. Geertz, como no uso comparativo feito pelo autor entre as concepções balinesa, javanesa e marroquina de pessoa como forma de discutir a natureza do entendimento antropológico. Entretanto, embora presente em todos esses momentos do pensamento antropológico, a emoção não é aí pensada como eixo organizador de uma área autônoma de estudos, ao contrário de outras temáticas já dotadas dessa autonomia em momentos anteriores da história da antropologia, tais como o parentesco, o gênero ou a sexualidade.

Mélancolie, escultura criada pelo artista romeno Albert György em 2012 e situada às margens do Lago de Genebra

Cabe destacar, que um conjunto de ideias que balizaram a construção do campo na cena antropológica norte-americana são: a intrincada relação entre emoção, corpo e pensamento; a tríade gênero-(des)controle-poder na etnopsicologia euro-americana e a capacidade micropolítica das emoções. É esse conjunto de ideias que vem servindo de referência para o desenvolvimento da antropologia das emoções no Brasil.

A consolidação do campo no Brasil

A relevância de qualquer empreendimento intelectual pode ser justificada com base em dois princípios: originalidade ou consolidação. Naturalmente excludentes, essas duas linhas de justificativa se apoiam ou na natureza (supostamente) inédita do trabalho ou em sua inserção em áreas já consolidadas.

O campo da antropologia das emoções no Brasil já pode, hoje, ser considerado sólido o suficiente para não permitir o recurso à “originalidade” como forma de justificar uma iniciativa intelectual. Sua institucionalização é já bastante evidente não apenas em sua versão mais visível – as publicações –, mas também na produção sistemática de teses e dissertações e na recorrência do tema há pelo menos 15 anos nas atividades das reuniões das principais associações científicas – Reunião Brasileira de Antropologia (RBA), Reunião de Antropologia do Mercosul (RAM) e Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs).

Entre as publicações, algumas iniciativas de formatos diversos merecem destaque. Revista Brasileira de Sociologia das Emoções (RBSE), fundada em 2002 pelo Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções (Grem) sob a liderança do Prof. Mauro Koury, é um espaço pioneiro no campo no Brasil, com uma linha editorial específica para a divulgação da produção brasileira na área e uma seção voltada para a tradução de textos clássicos. Em 2010, Rezende e Coelho publicaram um pequeno volume de introdução ao campo, em que historicizam a construção das emoções como um objeto das ciências sociais e apresentam as principais questões e conceitos, tomando como principal referência a cena antropológica norte-americana.

Há ainda dois esforços de sistematização sob o formato de compilação de textos: a coletânea Cultura e sentimentos: ensaios em antropologia das emoções” e o dossiê “Emoções, trabalho e política”, que trazem dois conjuntos de textos apresentados nas reuniões mencionadas acima ou derivados de teses e dissertações. Ambos incluem textos de revisão do “estado da arte” da área. É a esse esforço, iniciado em meados dos anos 1990, que a iniciativa de organizar este número temático de Horizontes Antropológicos (v. 25, n. 54) vem se somar. Desta edição, apresentamos aqui alguns trabalhos:

O artigo “With Jesus in our mouth”: fear and daily life in societies at war. Tumaco (Nariño, Colombia)” de Daniel Castaño Zapata e Gabriel Ruiz Romero realiza uma etnografia do município de Tumaco, na Colômbia. Trata-se de uma comunidade em situação de guerra na qual o medo tem lugar central na organização do cotidiano, podendo ser entendido, como colocam os autores, como “gestor social da ordem”. O medo surge, em sua análise, como um sentimento central na produção da dominação. Os autores enfocam o papel dos rumores na produção do medo, tratando-os como “atos perlocucionários”. Atentam também para o papel do silêncio e dos “vazios narrativos” como expressão de “estados afetivos sociais” que desempenham papel central na subjugação. O caso estudado traz duas contribuições que nos interessam aqui particularmente: para a reflexão em torno da dimensão micropolítica das emoções, devido à centralidade do medo na análise de uma situação-limite de dominação; e para a importância de atentarmos para o trabalho teórico realizado pelas emoções na análise de fenômenos de ordem política, da qual áreas conflagradas são um exemplo de excepcional dramaticidade.

O texto “O gênero da humilhação. Afetos, relações e complexos emocionais” de María Elvira Díaz-Benítez tem por tema a pornografia, abordada com base em duas situações. Na primeira, a autora revisita seu trabalho anterior sobre a indústria de filmes pornográficos, partindo de uma pergunta que escutara recorrentemente quando fazia trabalho de campo: se as atrizes “gostavam”. Díaz-Benítez elege para reflexão aqui as trajetórias de ex-atrizes pornô, perpassadas por sentimentos como culpa, arrependimento, nojo, solidão. A segunda situação é a “pornografia da vingança”: o vazamento proposital de fotos íntimas nas redes sociais. Nessa situação, outros sentimentos são abordados, como vergonha e confiança. Esses diversos sentimentos tratados a partir dessas duas formas de pornografia formam uma constelação em torno de um problema central: a relação entre humilhação e gênero. A autora sugere a possibilidade de haver aí uma via de mão dupla: se, por um lado, a “gramática” da humilhação seria generificada, por outro a humilhação poderia “constituir gênero”. De mãos dadas com essa sugestão, interessa também realçar, para os propósitos deste número temático, uma outra questão abordada por Díaz-Benítez: a fronteira (ou intercambialidade) entre violência e humilhação.

O trabalho “As emoções e o trabalho intelectual” de Maria Claudia Coelho é de natureza bibliográfica e se debruça sobre o lugar das emoções na história do pensamento antropológico. Partindo de um problema consagrado na literatura da antropologia das emoções – a recorrência, no senso comum, da representação das emoções como capazes de conspurcar os universos profissionais e institucionais –, a autora propõe a existência de três maneiras de encarar o lugar das emoções no trabalho do antropólogo: como intrusas indesejáveis, como via de acesso ao que é fazer etnografia e como forma de compreensão da alteridade. O texto discute também o lugar das emoções na produção de conhecimento, tanto como “molas propulsoras” de projetos disciplinares específicos – a nostalgia no caso da antropologia, o pessimismo no caso da sociologia – quanto como “motor” do trabalho intelectual – o amor como ímpeto para pensar (a partir da relação entre Beatrice e Sidney Webb). A questão que perpassa toda a argumentação é o lugar das emoções como motivações para conhecer, revisitando assim a clássica oposição entre razão e emoção.

Três temáticas: violência, sexualidade, ensino/pesquisa. Três questões: as gramáticas emocionais vinculadas à autoestima, a relação entre corpo/sensorialidade e emoções, a importância das categorias êmicas na análise dos sentimentos. Essas são algumas possibilidades de articulação entre os textos que compõem esse número temático e que vêm assim se somar àquelas tantas outras questões já delineadas nos esforços anteriores de mapeamento do campo no Brasil citados acima – o trabalho micropolítico das emoções, a dimensão moral dos sentimentos e o lugar das emoções em fenômenos da vida pública, entre outras – na formulação de uma “agenda de pesquisa” para os estudos socioantropológicos das emoções, para a qual essa iniciativa de organização de um número temático pretende contribuir.

Referências

MAUSS, Marcel. A expressão obrigatória dos sentimentos. In: FIGUEIRA, Sérvulo (Org.). Psicanálise e ciências sociais. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980. p. 56-63.

Para ler os artigo, acesse

Horiz. antropol. vol.25 no.54 Porto Alegre maio/ago. 2019

Links externos

Horizontes Antropológicos – HA: www.scielo.br/ha

Portal na UFMG: https://www.ufrgs.br/ppgas/ha/index.php/pt/menu/numero-atual

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

VICTORA, C. and COELHO, M. C. Horizontes Antropológicos apresenta edição temática sobre ‘Antropologia e Emoções’, com ênfase nos conceitos e perspectivas teóricas [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/09/04/horizontes-antropologicos-apresenta-edicao-tematica-sobre-antropologia-e-emocoes-com-enfase-nos-conceitos-e-perspectivas-teoricas/

 

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