Mulheres moçambicanas na Ciência – um desafio e uma história a ser contada

Ana Maria Veiga, Professora do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba, editora do periódico Sæculum e divulgadora da Revista Estudos Feministas, João Pessoa, PB, Brasil.

Vera Gasparetto, Pós-doutoranda em Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina, É jornalista e divulgadora da Revista Estudos Feministas, Florianópolis, SC, Brasil.

Imagem: IV Bienal da Aprendizagem – Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática – Maputo, Moçambique, 2018.

Muito se fala nos dias de hoje sobre possibilidades de descolonização dos saberes (GOMES, 2017) e sobre os epistemicídios praticados a partir do ocultamento de conhecimentos diversos ao modelo eurocêntrico de razão e àquilo que é legitimado como ciência. Nesta perspectiva, as mulheres “africanas” ainda são situadas em zonas homogeneizantes, de opacidade e localização, quando o assunto é ciência e academia. Das várias Áfricas possíveis, e sobre as quais pouco conhecemos, iremos tratar da especificidade moçambicana, suas relações com o Brasil e os caminhos das carreiras de STEM – sigla utilizada ao se falar do campo da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática – seguidas por mulheres naquele país, como é o caso de nossas entrevistadas – Amália Uamusse, Eugénia Cossa e Tatiana Kouleshova, todas professoras da Universidade Eduardo Mondlane – UEM – localizada em Maputo.

As trocas de saberes e práticas feministas com as acadêmicas moçambicanas se estreitaram a partir do último Women’s Worlds Congress, que aconteceu em 2017 na Universidade Federal de Santa Catarina. Um grupo delas veio ao Brasil na expectativa de levar o próximo Mundos de Mulheres para Maputo. A Revista Estudos Feministas publica no volume 28, número 1, um dossiê que consolida essas relações. “Mundos de Mulheres 2021: pensamentos feministas Afro-Moçambicanos” é resultado de uma organização conjunta das brasileiras Luciana Zucco e Vera Gasparetto com a moçambicana Isabel Casimiro. Influências mútuas e positivadoras das trocas acadêmicas em âmbito Sul-Sul se fazem presentes, facilitadas pelo idioma comum e por reminiscências de um passado colonial, sem esquecer do presente, vivido nos termos das relações de colonialidade (QUIJANO, 2000; LUGONES, 2005) e das diversas concepções de gênero, atravessadas por especificidades e diferenças (OYÉWUMÍ, 2004).

Nesta perspectiva, trataremos de um tema praticamente desconhecido nos espaços acadêmicos brasileiros; estamos falando sobre as mulheres moçambicanas cientistas abordadas no artigo “A mulher em cursos de ciências, tecnologia, engenharia e matemática no ensino superior moçambicano”, escrito a seis mãos pelas autoras mencionadas. A entrevista foi realizada individualmente com cada uma delas.

1. Como foi a sua trajetória, a formação e a motivação que a levaram ao encontro das ciências naturais, e como é ser uma mulher seguindo essa profissão?

Amália: Eu sou Doutora em Química Orgânica pela Universidade de Rostock – República Federal da Alemanha -, Professora Associada em Química dos Produtos Naturais, docente e investigadora do Departamento de Química da UEM. A curiosidade de entender os fenômenos da natureza despertou minha atenção desde o início da aprendizagem das ciências naturais na escola. O fascínio pelas experiências químicas iniciou no primeiro dia que entrei num laboratório de Química e de lá nunca mais quis sair. Em Moçambique existem poucas mulheres cientistas nas ciências naturais, particularmente na Química, o que representa um grande desafio, pois é uma área tradicionalmente dominada por homens. Por isso muitas vezes as mulheres têm de esforçar-se muito mais que os homens para ter o reconhecimento e conquistar um espaço no mundo da ciência.

Eugénia: Comecei a dar aulas de Biologia em 1980, logo após concluir a 9ª classe, sem nenhuma formação pedagógica, devido à falta de professores que na altura se fazia sentir no país. Isto me motivou bastante para seguir o professorado, cursando Biologia e Química em 1982, na Faculdade de Educação da UEM. Entre 1987-1992, cursei o ensino de Biologia na Universidade de Rostock – Alemanha –, aumentando meu gosto pelas ciências naturais. Em 1998 e 2007 concluí mestrado e doutorado em ciências de educação na África do Sul, nas Universidades de Witwatesrands e Western Cape, respectivamente. Paralelamente à docência, fui me envolvendo na organização de acampamentos de ciências para as raparigas e várias formações em metodologias de ensino baseadas no gênero. Neste momento, estou envolvida na supervisão, pesquisa e lecionação [ensino], sempre com uma componente ligada às ciências naturais e gênero.

Tatiana: Durante o ensino secundário, na 8ª classe, já tinha escolhido a formação profissionalizante de reparação de automóveis [mecânica] ou pintora, numa escola na Rússia. Gostei da formação ligada com a técnica. Na nossa turma havia quatro meninas e 26 rapazes. Na Universidade Politécnica eu escolhi o curso de Química de tratamento de petróleo e gás natural. Neste caso, a turma era composta por metade de moças e metade de rapazes. Durante o estudo universitário, nós meninas nunca nos sentimos a parte mais fraca da turma. Sobre a motivação, sempre gostei de disciplinas das ciências naturais, preferencialmente matemática e química, desde o ensino secundário. Como ser mulher nestas ciências, sinto-me muito bem, porque faço o que gosto.

2. As populações africanas, ao longo da sua história, lidam com várias situações de crise, como guerras, epidemias, colonialismos. Nesse contexto de pandemia da COVID-19, quais são os desafios das ciências em África/Moçambique? Que contribuições vêm dando a partir do seu acúmulo de pesquisas e experiências para lidar com a situação e quais são as necessidades futuras?

Amália: A experiência africana de lidar com situações adversas confere uma certa motivação para enfrentar as novas crises como a pandemia do coronavírus e a COVID-19. Dentre os vários desafios das ciências em África/Moçambique neste momento, destaca-se o limitado acesso aos recursos tecnológicos e a iliteracia digital, [domínios] tão necessários para a produção e difusão de conhecimentos numa situação de distanciamento físico. O contributo tem sido na procura de soluções para que o processo educativo continue acontecendo. A disponibilidade de recursos materiais e o treinamento de recursos humanos são também as principais necessidades, não só para este contexto de COVID-19, como também para o desenvolvimento futuro das Ciências em Moçambique.

Eugénia: O desafio prende-se com a necessidade de capacidade técnica para realização de aulas práticas e laboratoriais para cursos de STEM [Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática – sigla na versão em inglês], com acesso a plataformas digitais associado à falta de recursos financeiros para aquisição de softwares de laboratórios virtuais. Com a minha experiência acumulada, contribuo na formulação de políticas, estratégias e desenho de programas de formação de professoras/es a todos os níveis de ensino em metodologias de ensino inovativas, que promovam gosto e adesão pelos alunos de cursos em STEM.

Tatiana: Os desafios encontrados são os de infraestrutura para a continuidade dos estudos. Os nossos estudantes estão afastados da universidade neste momento, ficando nas suas casas, onde não têm a possibilidade de realizar tarefas ou utilizar plataformas preparadas pelos docentes, ou mesmo google classrooms, WhatsApp, devido a ausência dos meios financeiros para acessar a internet, terem computadores ou celulares pessoais etc. Pensando no futuro, vamos elaborar projectos no sentido de minimizar tais impactos, além de procurar fundos para comprar computadores para as/os estudantes.

3. Em relação às ciências como um todo em África/Moçambique, qual tem sido o lugar das mulheres? E nas ciências naturais, que é o foco do seu artigo, que ações você sugere ou tem realizado para dar visibilidade à presença das mulheres e despertar o interesse de meninas e jovens mulheres para a área de ciência, tecnologia, engenharia e matemática?

Amália: Em África/Moçambique as mulheres têm vindo a conquistar, com muitas dificuldades, algum espaço nos últimos anos na esfera política, econômica e social. Esta dificuldade é ainda maior nas ciências naturais, onde elas estão em número bastante reduzido. Algumas ações com vista a despertar interesse de meninas e mulheres tem sido a atuação como role models [modelos], orientando palestras e grupos de conversa com alunas das Escolas, para desmistificar os estereótipos e encorajá-las a escolher cursos de C, T, E e Matemática. A supervisão e integração de raparigas no grupo de pesquisa na Universidade é outra ação que tem em vista motivá-las a ficar na carreira e tem um efeito multiplicador, pois estas jovens estudantes vão também para as escolas para mostrar às alunas que, sim, é possível, realizando experiências laboratoriais sob a orientação das tutoras. Nestas ações temos trabalhado com a Academia de Ciências de Moçambique e a Comissão Nacional da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Eugénia: O lugar da mulher nas ciências em África e Moçambique já começa a ser de destaque, embora persistam ainda alguns tabus sobre o desempenho das mulheres em ciências naturais.  As universidades, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico Profissional, realizam atividades de iniciação e olimpíadas científicas que visam motivar jovens, sobretudo raparigas, das escolas secundárias e técnicas profissionais a ingressarem em cursos nas áreas de STEM e prepará-las/os para prosseguir os estudos nessas áreas, aumentar o número de graduadas/os e a criação de novos cientistas, que chamamos “Cientista do amanhã”.

Tatiana: Desde o ano de 2011 as autoras desenvolvem os projetos na área da STEM, ligados com tentativas para despertar o interesse de meninas para a área das Ciências Naturais, em colaboração com a UNESCO de Moçambique. Estas tentativas foram baseadas na realização, junto com meninas das escolas distritais, de experiências nas áreas de química, física e biologia, usando materiais locais disponíveis. Neste contexto, as autoras publicaram em 2017 o livro “Química sem laboratório”, onde foram selecionadas as experiências químicas que podem ser feitas em qualquer lugar, sem perigo para a saúde do/a aluno/a.

4. Brasil e Moçambique têm relações históricas mediadas pelo Atlântico que os une. Como estreitar a circulação de conhecimento e pesquisas no campo das ciências, tanto sociais, quanto naturais, criando pontes que unam os dois países e os dois continentes?

Amália: Os laços históricos que unem o Brasil e Moçambique, e o idioma comum, abrem espaço para relações profundas entre os dois países e a circulação do conhecimento nos diferentes campos das ciências, tanto sociais como naturais. A criação de grupos de pesquisa conjunta, a mobilidade de cientistas e estudantes, a realização de projetos em áreas de interesse comum, assim como a participação em eventos científicos e a publicação de artigos científicos em jornais de ambos os países podem intensificar a circulação de conhecimento. Programas de intercâmbio acadêmico, que tiveram sucesso no passado, AULP/CAPES, ProÁfrica/CNPq, entre outros poderiam ser revitalizados ou usados como modelos para futuras colaborações.

Eugénia: Precisamos capitalizar a experiência que tivemos com o Programa Pró-Mobilidade Internacional da Associação de Universidades de Língua Portuguesa (AULP/CAPES) para a mobilidade de docentes e estudantes para as áreas de formação e pesquisa. Precisamos continuar com o Programa ProÁfrica, sobretudo para formação de docentes das universidades em áreas prioritárias como, por exemplo, STEM, que continua desafiante para o nosso país. Em Moçambique, estamos ainda com cerca de 50%, do total de 5.900 docentes, com nível de licenciatura, a lecionar nas universidades.

Tatiana: [Podemos] estreitar a circulação de conhecimentos e pesquisas no campo das ciências, tanto sociais, quanto naturais, pode ser através da realização de Conferências Internacionais, tanto em Moçambique como no Brasil, trocando experiências, ideias etc., workshops, encontros por interesses e muito mais, se tivermos relações permanentes.

Referências

GOMES, N.L. O movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação. Petrópolis: Vozes, 2017.

LUGONES, M. Colonialidad y género. Tabula Rasa [online]. 2008, no. 9, pp. 73-101, ISSN: 1794-2489 [viewed 5 June 2020]. Avalaible from: http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1794-24892008000200006&lng=en&nrm=iso

OYÉWUMÍ, O. Conceptualizing Gender: The Eurocentric Foundations of Feminist Concepts and the challenge of African Epistemologies. African Gender Scholarship: Concepts, Methodologies and Paradigms. CODESRIA Gender Series. Volume 1, Dakar, CODESRIA, 2004.

QUIJANO, A. Colonialidad del poder y clasificación social. Journal of World-Systems Research [online], 2000., vol. 11, no. 2, pp. 342-386. ISSN: 1076-156X [viewed 5 June 2020]. DOI: 10.5195/jwsr.2000.228. Avaliable from: https://jwsr.pitt.edu/ojs/index.php/jwsr/article/view/228

Para ler o artigo, acesse

UAMUSSE, A.A.; COSSA, E.F.R. and KOULESHOVA, T. A mulher em cursos de ciências, tecnologia, engenharia e matemática no ensino superior moçambicano. Rev. Estud. Fem. [online]. 2020, vol. 28, no. 1, e68325, ISSN: 1806-9584 [viewed 5 June 2020]. DOI: 10.1590/1806-9584-2020v28n168325. Avaliable from: http://ref.scielo.org/ztxg4r

Links externos

Revista Estudos Feministas – REF: www.scielo.br/ref

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Instagram: @refeministas

Sobre as Autoras


Amália Alexandre Uamusse é professora Associada na Faculdade de Ciências da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) – Moçambique, Doutorada em Ciências Naturais com a especialidade de Química Orgânica pela Universidade de Rostock – Alemanha. É Vice-Reitora Acadêmica da UEM. E-mail da autora: amaliauamusse@gmail.com.

 


Eugénia Flora Rosa Cossa é professora Associada na Faculdade de Educação da UEM, Doutorada em Ciências de Educação pela Universidades de Western Cape – África do Sul. Atualmente é Diretora Nacional do Ensino Superior no Ministério da Ciência e Tecnologia, Ensino Superior e Técnico Profissional. E-mail da autora: eugenia.cossa@gmail.cossa.

 


Tatiana Kouleshova é professora Associada na Faculdade de Ciências da UEM, Doutora em Ciências Naturais, com a especialidade de Química Física e Inorgânica, pela Universidade Estatal de Moscovo – União Soviética. E-mail da autora: tatianakuleshov@yahoo.com.br.

 

 


Ana Maria Veiga é professora do curso de História e do PPGH da Universidade Federal da Paraíba, com pós-doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina. É editora da Sæculum – Revista de História, editora de divulgação da Estudos Feministas e líder do grupo ProjetAH: História das mulheres, Gênero, Imagens, Sertões. E-mail: anaveiga.ufpb@gmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/5507849878186996.

 


Vera Fátima Gasparetto é pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH/UFSC), Área de Estudos de Gênero, Bolsista do Programa Nacional de Pós Doutorado/Capes, Pesquisadora do Instituto de Estudos de Gênero e do Centro de Estudos Africanos (CEA) da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) – Moçambique. E-mail: gasparettovera@gmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/1869239071282523.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

VEIGA, A. M. and GASPARETTO, V. Mulheres moçambicanas na Ciência – um desafio e uma história a ser contada [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/06/30/mulheres-mocambicanas-na-ciencia-um-desafio-e-uma-historia-a-ser-contada/

 

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