Saúde e doença de homens jovens da periferia na perspectiva interseccional

Elda de Oliveira, Enfermeira, Professora visitante da Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

Marcia Thereza Couto, Antropóloga, Professora do Departamento de Medicina Preventiva e do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

No artigo “Contribuição da interseccionalidade na compreensão da saúde-doença-cuidado de homens jovens em contextos de pobreza urbana”, publicado no periódico Interface — Comunicação, Saúde, Educação (vol. 24), foi investigado a intersecção de raça/cor, classe social, gênero nas experiências dos homens jovens da periferia da Zona Leste de São Paulo, na construção de suas masculinidades e seus impactos na produção da saúde-doença-cuidado.

O estudo original, que dá suporte às análises apresentadas no artigo, foi conduzido por meio de uma pesquisa qualitativa com a metodologia da pesquisa-ação. Neste estudo, a análise se volta para os sistemas de desvantagens sociais (ser pobre, negro e morador de periferia) que se entrelaçam e potencializam a violação de direitos sociais, como os relativos à participação social, ao acesso a áreas centrais da cidade e aos cuidados de saúde, revelando o processo histórico no qual são instituídas e perpetuadas as múltiplas desigualdades por eles vividas.

O artigo é resultado do estágio de pós-doutorado de Elda de Oliveira junto ao Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, sob a supervisão da professora Marcia Thereza Couto. A motivação do pós-doutorado foi a busca de diálogo entre a teoria da determinação social do processo saúde-doença, referencial utilizado no estudo primário e a perspectiva da interseccionalidade. A articulação entre ambas perspectivas tem grande potencial, já que a perspectiva da interseccionalidade, ao reconhecer a relevância da categoria classe social, busca articular esta categoria clássica dos estudos sociais e da saúde coletiva a outros marcadores de diferenciação social como gênero, sexualidade, geração e raça/cor.

Considerando-se a periferia como território social, o estudo apresenta as performances dos homens jovens e suas masculinidades como indissociáveis tanto das condições socioeconômicas, violência e da segregação a que estão expostos, quanto do contínuo reforço pelos que estão “de fora” em estereotipá-los, associando-os à criminalidade e violência. Tal processo retroalimenta a exclusão social e acarreta importantes impactos para a saúde e o exercício de direitos dos sujeitos individuais e destes coletivos marginalizados.

A análise, segundo o referencial interseccional, apontou que os padrões determinados pela estrutura social e as representações simbólicas hegemônicas influenciam de modo sinérgico na construção das masculinidades dos homens jovens da periferia. Com base em suas experiências vividas, ficou evidente que eles compartilham desvantagens sociais que não se reduzem a um único marcador social da diferença, mas vários, que se entrelaçam e atuam de forma complexa na produção das desigualdades.

Assim, tem-se o desafio de criar políticas sociais e de saúde envolvendo os jovens, pois estes precisam ser chamados a participar na identificação de soluções para superar as iniquidades sociais e de saúde por eles vivenciadas.

Assista no vídeo abaixo, a profa. Marcia Thereza Couto ampliando a discussão sobre o assunto.

Referências

BAUER, G. R. Incorporating intersectionality theory into population health research methodology: challenges and the potential to advance health equity. Soc Sci Med. [online].  2014, vol. 110, pp. 10-17, ISSN: 0277-9536 [viewed 4 August 2020]. DOI: 10.1016/j.socscimed.2014.03.022. Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24704889/

COUTO, M. T., et al. La perspectiva feminista de la interseccionalidad en el campo de la salud pública: revisión narrativa de las producciones teórico-metodológicas. Salud Colectiva [online]. vol. 15, e1994, ISSN: 1851-8265 [viewed 4 August 2020]. DOI: 10.18294/sc.2019.1994. Available from: https://scielosp.org/article/scol/2019.v15/e1994/#

Para ler o artigo, acesse

OLIVEIRA, E. de, et al. Contribuição da interseccionalidade na compreensão da saúde-doença-cuidado de homens jovens em contextos de pobreza urbana. Interface (Botucatu) [online]. 2020, vol. 24, e180736, ISSN: 1807-5762 [viewed 4 August 2020]. DOI: 10.1590/interface.180736. Available from: http://ref.scielo.org/fb2rzx

Link externo

Interface – Comunicação, Saúde, Educação – ICSE: www.scielo.br/icse

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

OLIVEIRA, E. and COUTO, M.T. Saúde e doença de homens jovens da periferia na perspectiva interseccional [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/09/03/saude-e-doenca-de-homens-jovens-da-periferia-na-perspectiva-interseccional/

 

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