A escola pública na linha de tiro

Libania Xavier, Professora Titular da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), RJ, Brasil

O artigo A docência entre o ideal republicano e as violências do cotidiano (Educação e Pesquisa, vol. 47, 2021) apresenta resultados de uma pesquisa desenvolvida sob a coordenação da Professora Libania Xavier, junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, contando com o auxílio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (2014-2018) e com a participação de mestrandos e doutorandos. O objetivo central foi compreender como, em nossa história recente, os docentes têm lidado com as situações de violência que marcam a vida dos moradores de territórios conflagrados do Rio de Janeiro. Teve como base os depoimentos de oito professoras da rede pública do município do Rio de Janeiro, que colaboraram com a equipe, ao longo do ano de 2014.

Para compreender como os conflitos armados no entorno da escola afetavam o trabalho das professoras e, principalmente, como elas lidam com esse tipo de interferência, foram definidas algumas condições de observação: 1) as instituições escolares nas quais nossas professoras colaboradoras atuavam estão situadas em áreas da ocupação espontânea de migrantes de vários estados do Brasil, carente de saneamento básico, segurança policial, áreas de lazer e atendimento à saúde.

Os conflitos entre traficantes e policiais eram constantes, demonstrando os desacertos das políticas de segurança em vigor, conforme os dados demonstrados por Ramos (2016), situação que levou os professores a estabelecerem suas próprias táticas de proteção; 2) foram definidos dois grupos de professores que aceitaram participar pesquisa, o primeiro formado por quatro jovens professoras atuantes em uma Escola de Educação Infantil e um segundo grupo de professoras e ex-diretoras atuantes em escolas de ensino fundamental, no período diurno e de Educação de Jovens e Adultos, no turno noturno.

O recurso à metodologia da história oral foi uma opção pelo que Loriga (2009) chamou de “memória positiva”, aquela que repousa no reconhecimento da contribuição pública dos professores. Assim, atribuímos importância às histórias que o estudo de suas trajetórias profissionais adquire para a compreensão dos modos de praticar a docência, a despeito da ausência de condições adequadas e de políticas de apoio ao desenvolvimento de seu trabalho.

Entre as professoras mais jovens, o ingresso na carreira do magistério municipal foi visto como uma conquista e um direito, além de uma garantia de estabilidade. As narrativas aparecem carregadas pela perspectiva de classe, atribuindo valor social ao exercício de uma profissão qualificada, bem como à ocupação de um cargo público. Foi claro o incômodo por não conseguirem realizar o trabalho escolar sem interrupções.

O nível de precarização do próprio prédio escolar, extremamente exposto e sem condições adequadas para se trabalhar com as crianças os hábitos de higiene, também foram mencionados. Assim, os depoimentos oscilaram entre a desilusão e o compromisso; entre a desesperança e a perseverança.

Por seu turno, as professoras mais experientes realçaram a existência de outras formas de violência, menos visíveis, tais como a violência psíquica perpetrada por “traficantes ou bandidos” que pressionavam pela liberação do prédio da escola visando ao uso provado com a realização de bailes. Mencionaram também a violência silenciosa de agentes do poder público que, encarregados da manutenção da ordem e da segurança, não cumpriam a contento suas funções.

Imagem: Arquivo da autora

Figura 1. Professoras em movimento.

Em seus estudos, Alba Zaluar (1999), destacou a violência exercida pelos alunos, entre eles próprios e contra os professores. Para essa última forma de violência, Debarbieux (1998) cunhou a noção de “incivilidade”, caracterizada por práticas cotidianas que expressam uma lógica antagônica à socialização escolar pela falta de polidez e por atos que geram irrupções de desordem constantes no ambiente escolar.

As professoras lidaram com as tais incivilidades, ou seja, com a violência de dentro, bem como com a violência de fora, percebendo as articulações existentes entre uma e outra. Evocando o diálogo, o esclarecimento e a informação; legitimando suas falas através do exemplo de conduta, assim como seguindo à risca, o princípio da igualdade de tratamento, elas foram moldando suas práticas profissionais na interação com o grupo de profissionais da escola e dos níveis gestores, mas também no diálogo com os alunos e suas famílias.

Ao final, sobressaem alguns consensos nas narrativas das professoras que colaboraram com a pesquisa. O primeiro remete-se à certeza de que a educação escolar deve se fundar em princípios que prezam o reconhecimento da liberdade e da igualdade, bem como numa ética que valoriza o bem comum e que se firma em regras ou leis que devem ser respeitadas por todos, configurando uma educação republicana, no sentido sugerido por Renato Janine Ribeiro (2000).

O segundo consenso repousa no valor social e pessoal que elas atribuem ao trabalho docente. Tal atributo, certamente contribuiu para um certo bem-estar profissional, termo a que se referiram Rebolo e Bueno (2004), sustentando a permanência do grupo nas respectivas escolas. Isto, porque o compromisso ético e político com os alunos que vivem em situação de vulnerabilidade é percebido como uma justificativa nobre, que fortalece os docentes no enfrentamento das tensões que interpelam o seu trabalho. Não podemos com isso, afirmar que o problema está resolvido. Longe disso!

Nos últimos 20 anos, os dados sobre o percentual de licenças médicas entre docentes das escolas públicas para tratamento psiquiátrico aumentaram consideravelmente no Brasil e no Rio de Janeiro. Contudo, a percepção de que a docência pode contribuir para o bem comum, gerando melhores expectativas de futuro para crianças e adolescentes socialmente vulneráveis permaneceu dando suporte e valor ao trabalho dessas profissionais.

Leia mais

DEBARBIEUX, E. Violence à l’école, incivilité et postmodernité. Revue française de pédagogie. 1998, vol. 123, no. 1, pp. 7-19.

RAMOS, S. Violência e polícia: Três décadas de políticas de segurança no Rio de Janeiro. Boletim Segurança e Cidadania. 2016, no. 21 [viewed 20 December 2021]. Available from: https://www.ucamcesec.com.br/wp-content/uploads/2016/03/boletim21violenciaepolicia.pdf

REBOLO, F.I.L. and BUENO, B. Bem-estar docente: limites e possibilidades do professor no trabalho. Actas Scientarum [online]. 2014, vol. 36, no. 2, pp. 323-331 [viewed 20 December 2021]. https://doi.org/10.4025/actascieduc.v36i2.21222. Available from: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciEduc/article/view/21222

RIBEIRO, R.J. Democracia versus República. In BIGNOTO, N. (ed.) Pensar a República. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000.

ZALUAR, A. Um debate disperso: Violência e crime no Brasil da redemocratização. Revista São Paulo em perspectiva [online]. 1999, vol. 13 no. 3, pp. 3-17 [viewed 20 December 2021]. https://doi.org/10.1590/S0102-88391999000300002. Available from: https://www.scielo.br/j/spp/a/YtDsTzWVBr8g3KRP5bCy3gs/?lang=pt

Link(s)

Sua Escola Tem História: https://suaescolatemhistoria.com.br/ – Reúne histórias e memórias de alunos e de professores, bem como das escolas do Rio de Janeiro, elaborado por alunos dos cursos de graduação da UFRJ, em projeto de extensão coordenado pela autora do artigo.

Lattes de Libania Xavier: http://lattes.cnpq.br/1009093134243267

Para ler o artigo, acesse

XAVIER, L. A docência entre o ideal republicado e as violências do cotidiano. Educação e Pesquisa [online]. 2021, vol. 47 [viewed 20 December 2021]. https://doi.org/10.1590/S1678-4634202147236303. Available from: https://www.scielo.br/j/ep/a/jnkv6tt5Nn7YpBsV6DnPrGd/?lang=pt

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

XAVIER, L. A escola pública na linha de tiro [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2021 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2021/12/21/a-escola-publica-na-linha-de-tiro/

 

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Post Navigation