Governo Bolsonaro no epicentro da articulação da extrema-direita mundial

Felipe Furini Soares, Mestrando em Ciências Humanas e Sociais na Universidade Federal do ABC (UFABC), São Bernardo do Campo, SP, Brasil

Arlene Martinez Ricoldi, Professora Adjunta e Coordenadora do Programa de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC (UFABC), São Bernardo do Campo, SP, Brasil.

rbepop_logoDiscursos contrários aos direitos humanos representam uma realidade e um risco para a historicamente insuficiente cidadania brasileira, radicalizados de maneira sem precedentes pelo governo Bolsonaro. Políticas públicas, que poderiam proteger ou garantir direitos sociais combalidos foram restringidos. Em nossa sociedade, a intensificação do autoritarismo, a negativa às conquistas de grupos sociais historicamente desfavorecidos e o ataque aos bens comuns não podem ser vistos isoladamente como uma tragédia da conjuntura nacional.

Dessa forma, o artigo A escalada neoconservadora e a agenda antigênero: o caso da participação do Brasil na Cúpula Demográfica de Budapeste” (Rebep, vol. 39, 2022) revela alinhamentos neoconservadores em uma dimensão transnacional, que articula uma dramática conjunção entre neoliberalismo e a agenda moral conservadora (BIROLI, 2020). A análise foi realizada pelos pesquisadores Felipe Furini Soares e Arlene Martinez Ricoldi, vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC.

O artigo centrou-se na participação da ministra Damares Alves na Cúpula Demográfica de Budapeste, em 2019, primeiro ano do Governo Bolsonaro. O evento, já em sua terceira edição, vem angariando apoio crescente entre lideranças mundiais e se posicionado como um contraponto ao Sistema ONU, cuja Declaração Universal de Direitos Humanos é documento basilar. Fato por si só preocupante, ainda mais, por se tratar da Hungria governada por Viktor Orban como a organizadora da cúpula – o país que tem sido um caso paradigmático de neoconservadorismo e autoritarismo na Europa.

Imagem: iStock

A participação de Damares revela como o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos tem sido estratégico para o avanço do conservadorismo no país. O enfoque familista, moralizante e alheio às concepções sobre direitos das mulheres que predominaram nas últimas décadas vai sendo incorporado nos espaços institucionais, na formulação de políticas públicas, e influenciando as ações de outras pastas ministeriais.

O trabalho revela como a participação do governo Bolsonaro na Cúpula opera uma inflexão do Brasil à atual onda neoconservadora internacional, se associando a governos de extrema-direita, fundamentalistas e contrários à defesa dos direitos humanos. Essa iniciativa rompe com a tradição histórica brasileira de participação em fóruns internacionais das Nações Unidas, como amplo debate prévio com a sociedade civil e acadêmica, como a Conferência de População do Cairo.

O artigo, em uma perspectiva histórica, revisita tensionamentos e disputas nos espaços transnacionais de direitos humanos. Na medida que revela como a perspectiva de gênero, especialmente a saúde reprodutiva, se consolidou ao longo do tempo nas mais variadas agendas, destaca como as resistências foram sendo articuladas de modo a se constituírem em uma política antigênero (CORREA, 2018), com vistas a enfrentar os avanços dos movimentos feministas e LGBTQIA+.

A partir de uma análise crítica do discurso (FAIRCLOUGH, 2001), o artigo destaca como a ministra Damares Alves situou o país como protagonista na condução internacional neoconservadora. À medida que tenciona legislar sobre moralidade pública, ataca direitos, naturaliza desigualdades e coloca em xeque sistemas democráticos. Mudança radical da participação brasileira nos espaços internacionais (MARTINS, 2019; SARDENBERG, 2018), que sinaliza à comunidade internacional o que tem sido a política interna no país nos últimos anos, após golpe parlamentar e ascensão da extrema-direita no Brasil.

Finalmente, o artigo salienta o chamamento do Brasil para um ativismo nos espaços da ONU, uma articulação em escala global fortemente marcada por princípios morais e políticos conservadores, inclusive, acenando a políticas antimigratórias e eugênicas de países europeus.

Leia mais

BIROLI, F. Gênero, neoconservadorismo e democracia: disputas e retrocessos na América Latina. São Paulo: Boitempo, 2020.

CORREA, S. A “política do gênero”: um comentário genealógico. Cadernos Pagu [online]. 2018, no. 53, e185301 [viewed 17 February 2022]. https://doi.org/10.1590/18094449201800530001. Available from: https://www.scielo.br/j/cpa/a/vwdzHh6pHS6ZBVskqfLrqrg/?lang=pt

FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.

MARTINS, R. Do Cairo a Nairóbi: 25 anos da agenda de população e desenvolvimento no Brasil. Revista Brasileira de Estudos de População [online]. 2019, vol. 36, e0094 [viewed 17 February 2022]. https://doi.org/10.20947/S0102-3098a0094. Available from: https://www.scielo.br/j/rbepop/a/MTGfGR8psRFvbSYqFWkV9Wn/?lang=pt

SARDENBERG, C. Negociando gênero em desenvolvimento: os feminismos brasileiros em destaque. Cadernos Pagu [online]. 2018, no. 52, e185201 [viewed 17 February 2022]. https://doi.org/10.1590/18094449201800520001. Available from: https://www.scielo.br/j/cpa/a/csnYMKWn8bXSwBYxMP9WcTN/?lang=pt

Para ler o artigo, acesse

SOARES, F.F. and RICOLDI, A.M. A escalada neoconservadora e a agenda antigênero: o caso da participação do Brasil na Cúpula Demográfica de Budapeste. Revista Brasileira de Estudos de População [online]. 2022, vol. 39, e0183 [viewed 17 February 2022]. https://doi.org/10.20947/S0102-3098a0183. Available from: https://www.scielo.br/j/rbepop/a/TtRcQFzh89M5tPRcxKVgYfc/

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Felipe Furini Soares: https://orcid.org/0000-0002-7997-5550

Arlene Ricoldi: https://orcid.org/0000-0002-2330-7633

Revista Brasileira de Estudos da População – RBEPOP: https://www.scielo.br/j/rbepop/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SOARES, F.F. and RICOLDI, A.M. Governo Bolsonaro no epicentro da articulação da extrema-direita mundial [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2022 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2022/02/25/governo-bolsonaro-no-epicentro-da-articulacao-da-extrema-direita-mundial/

 

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