Cadernos Pagu: trajetória e programação para a Semana Especial do Blog SciELO em Perspectiva | Humanas

Regina Facchini, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu e editora do cadernos pagu, Campinas, SP, Brasil

Cadernos pagu é um periódico científico brasileiro de acesso aberto e gratuito, publicado desde 1993 pelo Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, núcleo interdisciplinar de pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sua missão é contribuir para a ampliação e fortalecimento do campo interdisciplinar de estudos de gênero no Brasil e para o intercâmbio do conhecimento produzido em âmbito internacional. Sua existência tem marcado a constituição e a consolidação do campo de estudos de gênero no Brasil (LOPES; PISCITELLI, 2004; PISCITELLI; BELELI; LOPES, 2003), caracterizado por diversidade regional e disciplinar e por um enorme crescimento a partir dos anos 2000 (FACCHINI, 2016).

Indexado no SciELO desde 2005, e no Scopus desde 2015, cadernos pagu se destaca na área de Ciências Humanas pelo incentivo à reflexão a partir da perspectiva de gênero em articulação com outras diferenças, como classe, raça, etnia, geração, sexualidade, nacionalidade, religião. Foi até recentemente publicado com periodicidade semestral e em formato impresso e digital. A partir de 2014 passou a ser publicado apenas em formato digital e em 2016 passou a ter periodicidade quadrimestral.

Sua política editorial alia a atenção à diversidade regional, disciplinar, teórica e temática do campo científico em que se insere e de seu público leitor e sempre esteve atenta a propiciar a circulação internacional do conhecimento. Nos 24 anos de publicação ininterruptos, cerca de 30% de artigos são de autoria de pesquisadores vinculados a instituições estrangeiras (América Latina, América do Norte, Europa e África). A partir de 2015, o periódico passou a receber artigos em português, em espanhol e em inglês e ampliou a estratégia de internacionalização, tornando-se um periódico parcialmente bilíngue.

Os resultados dos esforços na direção da profissionalização, internacionalização e ampliação da visibilidade têm sido crescentemente reconhecidos pelos comitês avaliadores. Na avaliação mais recente Qualis Periódicos da CAPES, cadernos pagu é A1 para as áreas de Antropologia, Direito, Interdisciplinar, Letras/Linguística e Sociologia; A2 para Ciência Política e Relações Internacionais, Comunicação e Informação, Educação e História e B1 para Saúde Coletiva e Serviço Social.

A Semana Especial do cadernos pagu

Esta Semana Especial foi preparada com a colaboração de Carolina Parreiras e Carolina Branco de Castro Ferreira, ambas doutoras em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas, e focaliza oito artigos publicados no número 50 do cadernos pagu. A maior parte desses artigos integra o dossiê Conservadorismo, direitos, moralidades e violência, coordenado por Regina Facchini (Pagu/Unicamp) e por Horacio Sívori (IMS/UERJ) a partir de pesquisas selecionadas entre as apresentadas em simpósios organizados pelo Comitê Gênero e Sexualidade da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) no âmbito dos Encontros Anuais da ANPOCS, das Reuniões Brasileiras de Antropologia (RBA) e na Reunião de Antropologia do Mercosul (RAM) entre os anos de 2015 e 2016.

Mariza Corrêa

Mariza Corrêa

O dossiê e esta Semana Especial homenageiam o legado de Mariza Corrêa que, entre muitas contribuições à Antropologia e aos estudos feministas e de gênero no Brasil, foi uma das fundadoras do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu e das incentivadoras da criação do cadernos pagu, foi a primeira mulher a dirigir o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, onde lecionou por 30 anos, e foi presidente da Associação Brasileira de Antropologia entre 1996 a 1998.

Os temas abordados nesta semana estão relacionados a direitos sexuais e reprodutivos (aborto, reprodução assistida, políticas educacionais) e à violência, com ênfase em contextos de turismo, refúgio e processos de Estado relativos ao reconhecimento da condição de vítima.

Todos os artigos estão perpassados por processos internacionais que têm sido caracterizados como uma “virada conservadora” na política e na sociedade, que têm configurações específicas no contexto brasileiro, significativamente marcado por restrição de direitos fundamentais relativos a gênero e à diversidade sexual e de gênero. Alguns dos artigos focalizam o próprio fenômeno do “conservadorismo” e sua relação com a atuação política de segmentos religiosos de várias denominações.

A apresentação dos temas e das contribuições científicas dos artigos e pesquisas nesta Semana Especial procura favorecer o diálogo internacional, articulando trabalhos produzidos a partir de diferentes países. Insere também alguns momentos de reflexão e de balanço sobre a produção antropológica acerca de gênero e de sexualidade e os desafios atuais para a produção de conhecimento científico socialmente relevante.

Por dentro da Semana: Conservadorismo, direitos, moralidades e violência

Uma reflexão inicial articula balanços recentes da produção socioantropológica nos estudos de gênero e de sexualidade publicados nas últimas edições de cadernos pagu e uma entrevista com Sérgio Carrara, atual coordenador do Comitê Gênero e Sexualidade da Associação Brasileira de Antropologia, sobre os desafios atuais para o campo de estudos.

A seguir, um primeiro diálogo se estabelece em torno dos fenômenos do conservadorismo e do ativismo religioso e coloca em diálogo pesquisas realizadas a partir do Brasil e da Argentina, com o artigo de Ronaldo de Almeida, A onda quebrada: evangélicos e conservadorismo, focaliza o que tem sido indicado no debate público como uma “onda conservadora” e o artigo de Juan Marco Vaggione, La Iglesia Católica frente a la política sexual: la configuración de una ciudadanía religiosa. Ambos os artigos trazem importantes contribuições para as reflexões acerca das articulações entre religião e esfera pública, a partir de uma perspectiva crítica à ideia de secularização.

Outro diálogo entre Brasil e Argentina se dá em torno do tema dos direitos reprodutivos e de dois artigos que analisam processos legislativos e discursos de parlamentares: o artigo de Lia Zanotta Machado, O aborto como direito e o aborto como crime: o retrocesso neoconservador, e o artigo de Lucia Ariza, La regulación de las tecnologías reproductivas y genéticas en Argentina: análisis del debate parlamentário. Ambos os artigos trazem importantes contribuições para a produção acerca das articulações entre religião e esfera pública em cenários de disputas por direitos reprodutivos, analisando processos de articulação e de conflito entre diferentes narrativas — jurídicas, religiosas e científicas.

O artigo La “ideología de género” frente a los derechos sexuales y reproductivos: el escenario español de Mónica Cornejo-Valle e José Ignacio Pichardo Galán é base para mais um diálogo: entre o contexto espanhol de utilização da categoria acusatórica “ideologia de gênero” e o contexto brasileiro. O artigo de Cornejo-Valle e Pichardo contextualiza o surgimento dessa categoria em âmbito internacional e seus usos na Espanha, sendo debatido por Horacio Sívori e Vanessa Jorge Leite, ambos pesquisadores do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

O último conjunto de diálogos parte da temática da violência e da distribuição de justiça, bastante tradicional nos estudos de gênero no país e na atuação do Núcleo de Estudos de Gênero e do Pagu, e articula três artigos baseados em pesquisas etnográficas, um debate e três gerações de pesquisadoras/es que atuam ou foram formados na Unicamp. A entrevista em forma de debate com Guita Grin Debert e Maria Filomena Gregori contextualiza as contribuições já clássicas aos estudos sobre gênero violência e distribuição de justiça, oferecidas pelos estudos conduzidos pelas duas pesquisadoras no âmbito do Pagu e pelo legado de Mariza Corrêa.

Seguem-se, no mesmo dia, mais três artigos que exploram desafios na temática. O artigo “#queroviajarsozinhasemmedo”: novos registros das articulações entre gênero, sexualidade e violência no Brasil, de Adriana Piscitelli, tematiza a relação entre feminismos e violência a partir de casos que envolvem mulheres turistas. O artigo A reivindicação da violência: gênero, sexualidade e a constituição da vítima, de Roberto Efrem Filho, analisa narrativas que reivindicam o reconhecimento da violência, da condição de vítima e constituem a “luta por justiça” a partir de um Comitê de Solidariedade que ajuda a desvendar um desaparecimento, que envolveu o estupro e assassinato, de uma adolescente filha de uma sindicalista rural. O artigo de Isadora Lins França, “Refugiados LGBTI”: direitos e narrativas entrecruzando gênero, sexualidade e violência, aborda a articulação entre os chamados direitos sexuais e os direitos relacionados ao refúgio, no marco dos direitos humanos, na produção da categoria “refugiados LGBTI”.

O tempo não para…

Encerramos a semana com a apresentação do próximo dossiê previsto para publicação em setembro de 2017, Gênero e Estado, organizado por Adriana Vianna (Museu Nacional/RJ) e Laura Lowenkron (UERJ) e com a apresentação das estratégias que temos adotado recentemente e dos desafios que vislumbramos para estar em dia com as premissas do universo da publicação científica — aumentando a agilidade na avaliação e publicação das contribuições, a visibilidade dos artigos publicados e aprofundando o processo de internacionalização — e para manter a qualidade que tem nos permitido servir à comunidade científica e demais interessadas(os) em estudos de gênero e feministas ao longo dos últimos 24 anos.

Esperamos que gostem das postagens, que curtam e ajudem a compartilhar em suas redes, confiram os artigos e aproveitem a programação que preparamos, nos dando o prazer de nos acompanhar ao longo desta semana. Aos autores e autoras que colaboram conosco deixamos a dica: não usamos nesta semana nenhuma tecnologia que não possa ser replicada de modo faça você mesma(o) e contando com nossa colaboração na divulgação de seus próximos artigos. Para saber mais sobre o periódico, suas novidades, os artigos que publicamos, atualidades e oportunidades no campo de estudos de gênero, sigam as postagens do cadernos pagu no nosso site (www.pagu.unicamp.br), no Facebook (www.facebook.com/Pagu-Núcleo-de-Estudos-de-Gênero-Cadernos-Pagu-245059658851266/) e no Twitter (@cadpagu)

Boa semana de leituras!

Referências

FACCHINI, R. Prazer e perigo: situando debates e articulações entre gênero e sexualidade. Cad. Pagu [online]. 2016, n.47, e164714. [Viewed 22 June 2017]. ISSN: 1809-4449. DOI: 10.1590/18094449201600470014. Available from: http://ref.scielo.org/zsf7wp

LOPES, M. M. and PISCITELLI, A. Revistas científicas e a constituição do campo de estudos de gênero: um olhar desde as “margens”. Rev. Estud. Fem.[online]. 2004, vol.12, n.spe, pp.115-121. [Viewed 22 June 2017]. ISSN: 0104-026X.. DOI: 10.1590/S0104-026X2004000300013. Available from: http://ref.scielo.org/79n2jp

PISCITELLI, A., BELELI, I. and LOPES, M. M. Cadernos Pagu: contribuindo para a consolidação de um campo de estudos. Rev. Estud. Fem. [online]. 2003, vol.11, n.1, pp.242-246. [viewed 22 June 2017]. ISSN 0104-026X. DOI: 10.1590/S0104-026X2003000100015. Available from: http://ref.scielo.org/zrrss6

Para ler os artigos, acesse

Cad. Pagu  no.50 Campinas  2017

Link externo

cadernos pagu – CPA: http://www.scielo.br/cpa

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

FACCHINI, R. Cadernos Pagu: trajetória e programação para a Semana Especial do Blog SciELO em Perspectiva | Humanas [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2017 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2017/06/26/cadernos-pagu-trajetoria-e-programacao-para-a-semana-especial-do-blog-scielo-em-perspectiva-humanas/

 

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