Como o risco de perda da hegemonia e a sombra da China mobilizam a política comercial de Trump?

Leandro Heitich Fontoura, Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil

O discurso protecionista e antiglobalização que marca a administração de Donald Trump nos Estados Unidos não significa uma batalha aberta contra o neoliberalismo e o livre mercado, como uma interpretação superficial muitas vezes parece indicar. O que está em jogo é uma estratégia geopolítica mais ampla, na qual a maior economia do mundo luta em duas frentes contra fenômenos que colocam em xeque sua liderança. O desenrolar desse embate, a julgar pela história, não será suave e pode provocar crises e conflitos armados no futuro.

Essa análise é elaborada pelo pesquisador Arturo Guillén em artigo publicado no periódico Brazilian Journal of Political Economy (REP, v. 39; n. 3), sob o título de “A política comercial dos EUA no contexto da crise global e o declínio da hegemonia norte-americana”.

Professor do Departamento de Economia da Universidade Autônoma Metropolitana Iztapalapa, no México, Guillén vive em um dos países mais impactados pela política comercial levada adiante por Trump em defesa de seu mercado interno. Ao chegar ao poder, o presidente republicado atacou o Nafta (North American Free Trade Agreement) e forçou a renegociação do acordo com México e Canadá, em desvantagem às duas nações vizinhas.

Na interpretação de Guillén, movimentos com esse são consequência do esforço norte-americano de lutar contra a perda de hegemônia global e em resposta à ascensão da China. O declínio do domínio dos Estados Unidos, afirma o autor, não é algo novo, mas um fenômeno que vem ocorrendo gradualmente e sem interrupções há três décadas, após seu ápice no pós-guerra. O problema, alerta ele, é que esse processo se acelerou a partir da última crise econômica global. Mesmo tendo assegurado a manutenção da taxa de emprego, os EUA têm falhado em engrenar o crescimento econômico. “Embora mantenham larga vantagem militar e supremacia financeira, uma vez que o dólar continua sendo moeda chave no sistema, os Estados Unidos perderam terreno na produção, no comércio internacional e no investimento direto estrangeiro”, escreve Guillén (p. 405), lembrando que o cenário mundial não é favorável (ROBERTS, 2016). Estagnação, tendências deflacionárias e ações contra a globalização têm marcado a maioria das nações desenvolvidas.

Na contramão, surge a sombra da China. A partir das reformas introduzidas por Deng Xiaoping em 1979, a nação asiática se tornou nas últimas décadas o principal parque industrial do mundo e a líder em poder comercial (GOUYOU, 2010; PETRAS, 2015; ROACH, 2014). Ao trocar o modelo de “Estado socialista” pelo de “Estado capitalista nacional e popular” ou “Estado socialista de mercado”, afirma o autor, a China conseguiu ingressar na globalização mantendo sua autonomia macroeconômica e driblando as receitas do Consenso de Washington. Guillén ressalta que o motor chinês, além de garantir crescimento econômico constante nas últimas décadas, impulsiona o desenvolvimento tecnológico, militar e diplomático do país, fatores que ampliam a apreensão no outro lado do mundo.

É em reação a essas duas pressões, a perda de hegemonia e a escalada chinesa, que o governo Trump assumiu uma política comercial agressiva. Guillén diz não se tratar de uma campanha contra o livre mercado, mas sim de uma estratégia disposta a utilizar a posição ainda hegemônica para garantir benefícios em acordos bilaterais. O autor chama esse fenômeno de mercantilismo corporativo, que vem acompanhado de medidas de reforço do neoliberalismo, como desregulamentações financeiras e ambientais.

Apesar dos esforços norte-americanos, Guillén afirma não ter dúvidas de que o mundo atravessará um período de transição hegemônica, na qual a China assumirá a liderança enquanto os Estados Unidos manterão certa influência. Mas esse caminho está traçado? Não, segundo o autor. “A transição hegemônica não significa que a China vai necessariamente e suavemente tomar o lugar dos Estados Unidos. Esse automatismo não existe na história”, alerta Guillén (p. 396-397), que enxerga outros três cenários possíveis decorrentes dessa transição: a emergência de novos conflitos armados (como ocorreu durante o surgimento da hegemonia britânica no século 19), a construção de uma ordem multipolar consensual (para a qual, segundo ele, não há sinais concretos hoje) e o desabamento para um caos sistêmico global. Para o autor, essa última possibilidade é, cada vez mais, o cenário mais provável.

Referências

GOUYOU, W. Economía socialista de mercado. Brasil & China em debate. São Paulo: Perseu Abramo, 2010.

PETRAS, J. China: Rise, Fall and Re-Emergence as a Global Power. Global Research, May 20th, 2015. Available from: http://www.globalresearch.ca/china-rise-fall-and-re-emergence-as-a-global-power/29644

ROACH, S. Unbalanced. The codependency of America and China. New Haven and Londo: Yale University Press, 2014.

ROBERTS, M. The long depression. Chicago: Haymarket Books, 2016.

Para ler o artigo, acesse

GUILLÉN, A. USA’s trade policy in the context of global crisis and the decline of North American hegemony. Brazil. J. Polit. Econ., v. 39, n. 3, p. 387-407, 2019. ISSN: 0101-3157 [viewed 7 December 2019]. DOI: 10.1590/0101-31572019-3046. Available from: http://ref.scielo.org/dvxv5m

Link externo

Brazilian Journal of Political Economy – REP: www.scielo.br/rep

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

FONTOURA, L. H. Como o risco de perda da hegemonia e a sombra da China mobilizam a política comercial de Trump? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/12/16/como-o-risco-de-perda-da-hegemonia-e-a-sombra-da-china-mobilizam-a-politica-comercial-de-trump/

 

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