É possível ampliar a qualidade assistencial e reduzir os custos de saúde para os idosos brasileiros

Ana Silvia Gesteira, Editora assistente do periódico Physis, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Renato Veras, Professor titular e editor da Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia (RBGG) na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Renato Veras é médico e professor, com doutorado (PhD) no Guy’s Hospital da Universidade de Londres. Nos últimos anos, tem-se dedicado à formulação de modelos preventivos e de cuidado integral para o grupo etário dos idosos. No artigo “O modelo assistencial contemporâneo e inovador para os idosos”, publicado na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia (vol. 23, no. 1) se propõe a pensar, de forma absolutamente diferente, o cuidado prestado ao grupo etário dos idosos. Sabe-se que o mundo mudou após a pandemia da COVID-19, e mais ainda para os idosos. Nesta pandemia, aprendeu-se a importância do tratamento, mas ficou absolutamente clara a importância do cuidado, da promoção da saúde e da prevenção. O estudo apresenta todos os itens que são fundamentais para se implantar um modelo assistencial que seja eficiente e ao mesmo tempo de custo mais baixo. Confira a seguir a entrevista realizada com o professor Renato Veras para discussão do assunto.

1. No artigo, você destaca dois segmentos bastantes marcados, no modelo de assistência, que intitulou de “instâncias leves” e “instâncias pesadas”. Você poderia falar um pouco sobre esses dois níveis do modelo?

A proposta desse modelo é voltada para a promoção da saúde, a prevenção e a coordenação do cuidado, com ênfase nas instâncias leves. A transição demográfica ampliou o contingente de idosos e como consequência ocorreu, no mundo todo, maior pressão fiscal sobre os sistemas de saúde público e privado, pois com o aumento deste segmento, ampliaram-se as doenças crônicas e os gastos. Um dos resultados é a demanda crescente por serviços de saúde. As doenças que acometem os idosos são majoritariamente crônicas e múltiplas, exigem acompanhamento constante e cuidados permanentes. Deste modo, observa-se um excesso de consultas realizadas por especialistas, internações hospitalares tornam-se mais frequentes e o tempo de ocupação do leito é maior se comparado com outras faixas etárias. Por este motivo, no modelo proposto, ênfase é conferida aos idosos ainda sadios e com a capacidade funcional plena, pois assim se oferecem qualidade e mais anos de vida a um custo muito inferior, do que quando a doença evolui e o tratamento ocorre com múltiplos médicos especialistas ou no hospital, ou mesmo na UTI. Nas instâncias leves o idoso poderá ser acompanhado por seu médico assistente, o bom médico de família.

2. Uma das críticas ao cuidado da pessoa idosa ocorre porque, à diferença das demais especialidades médicas, se dá grande valor a situações que não são propriamente uma doença, e também ao fato de que nessa área são adotadas várias denominações que não são comuns na prática médica.

Possivelmente o equívoco esteja nas demais especialidades médicas, que consideram apenas a doença como seu campo de ação, e não o universo de questões que fazem parte do cuidado para o restabelecimento de uma boa condição de saúde A saúde é definida como uma medida da capacidade individual de realização de aspirações e da satisfação das necessidades, independentemente da idade ou da presença de doenças. Assim, uma avaliação geriátrica eficiente e completa, a custos razoáveis, torna-se cada vez mais importante, de modo a realizar o diagnóstico precoce de enfermidades e orientar serviços de apoio sempre que necessário, evitando internações hospitalares. A história, o exame físico e o diagnóstico diferencial tradicionais não são suficientes para um levantamento extenso das diversas funções necessárias à vida diária do indivíduo idoso. Na geriatria, a autonomia – capacidade individual de decisão e comando sobre as ações, estabelecendo e seguindo as próprias convicções – e independência – capacidade de realizar algo com os próprios meios –, permite que o indivíduo cuide de si e de sua vida. Um modelo contemporâneo de saúde do idoso precisa reunir um fluxo de ações de educação, promoção da saúde, prevenção de doenças evitáveis, postergação de moléstias, cuidado precoce e reabilitação de agravos.

3. Em poucas palavras, como você descreveria a estruturação desse modelo proposto para os idosos?

O modelo que defendemos está estruturado no atendimento que privilegia a assistência integral e a prevenção, por meio de monitoramento contínuo das condições de saúde e da coordenação de cuidados em todas as instâncias de atenção. Assim é possível estabilizar as doenças crônicas e evitar a sobrecarga no sistema. Os profissionais envolvidos nesse modelo devem ter sua formação e atualização estimuladas permanentemente, buscando a máxima qualificação. Os geriatras devem ter formação fundamental em Medicina de Família e Comunidade, concentrando-se na prestação de cuidados primários. Garante-se assim um atendimento centrado nas necessidades de cada beneficiário, percebendo-o como sujeito do processo, e em uma boa comunicação com sua família, reconhecendo suas interações. O modelo que propomos tem como base uma dupla assistencial formada por médico(a) geriatra e enfermeiro(a) gerontólogo(a). O (médico(a) faz a gestão clínica e o(a) enfermeiro(a) coordena os cuidados, monitorando as condições de saúde dos usuários e consolidando o papel de referência por meio do acolhimento e do fortalecimento de vínculo.

4. Além do médico e da enfermeira, que profissionais fazem parte da equipe de cuidado no modelo proposto?

A equipe é também composta por profissionais de fisioterapia, psicologia, assistência social e nutrição, além de oficineiros (que desenvolvem atividades dinâmicas integrativas vinculadas ao programa) no centro de convivência. O médico e o enfermeiro atendem sua carteira de clientes; os gerontólogos atendem todos os clientes da unidade de saúde referenciada pelo médico. As atividades desenvolvidas pelos centros de convivência são abertas a todos os clientes e todos os profissionais da unidade estimulam os clientes a se beneficiarem dessas atividades lúdicas e de integração. Todas as vezes que forem identificadas necessidades de atendimento dos usuários em outros níveis de atenção, os encaminhamentos serão feitos pelo(a) médico(a) generalista aos especialistas. O mesmo procedimento ocorre para a hospitalização. Médico(a) e enfermeira(o) terão a preocupação de entrar em contato com o hospital para ter conhecimento do caso, atuando para garantir o melhor atendimento e o menor tempo de internação.

5. Como se dá a remuneração dos médicos e dos demais profissionais de saúde?

O modelo hegemônico de remuneração dos serviços de saúde em muitos países, tanto em sistemas públicos como naqueles orientados ao mercado de planos privados de saúde, ainda é o de fee-for-service, que se caracteriza por remunerar a quantidade de serviços produzidos (volume) e estimular a competição por usuários. A remuneração atrelada ao desempenho é uma recompensa que contempla os resultados em determinado período de tempo. Como os requisitos técnicos e comportamentais exigidos dos profissionais são de alto padrão, pretende-se que a remuneração proposta tenha a adequada equivalência. Outro princípio básico é a resolutividade do(a) geriatra. De acordo com estudos internacionais, médicos generalistas podem resolver de 85 % a 95% das situações clínicas. Os encaminhamentos para especialidades clínicas devem ser exceção. A sinistralidade é o principal indicador econômico-financeiro estabelecido para avaliação do programa, razão pela qual foi conferido peso maior a este item na avaliação de sua performance.

6. Além da qualificação do médico e dos demais profissionais de saúde, e do estímulo através da premiação por sua performance, quais são os outros elementos para o sucesso desse modelo?

A tecnologia deve ser um diferencial. Um sistema de informação amplo e de qualidade, que seja capaz de documentar não somente a evolução clínica da pessoa idosa, mas também sua participação em ações de prevenção individuais ou coletivas, assim como o apoio dos profissionais de enfermagem e os contatos telefônicos, que devem ser resolutivos, com pessoal qualificado e total compartilhamento da informação com a equipe, em benefício de uma avaliação integral do indivíduo. O sistema de informação, que se inicia com o registro do beneficiário, é um dos pilares do programa. Trata-se de um registro eletrônico único, longitudinal e multiprofissional, que acompanha o paciente desde o acolhimento, e que se diferencia dos existentes pelo fato de incluir sua história de vida e seus eventos de saúde. Outro importante diferencial é a disponibilização de um aplicativo para celular com informativos individualizados e lembretes de consultas e ações prescritas. Por fim, um importante instrumento para ampliar a resolutividade é a segunda opinião médica, através de profissionais de altíssimo padrão, que podem oferecer seu conhecimento para determinado caso clínico. Tudo é realizado para que o médico do cliente resolva o maior número de demandas.

Referências

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Para ler o artigo, acesse

VERAS, R. A contemporary and innovative care model for older adults. Rev. bras. geriatr. gerontol. [online]. 2020, vol. 23, no. 1, e200061, ISSN 1981-2256 [viewed 15 June 2020]. DOI: 10.1590/1981-22562020023.200061. Available from: http://ref.scielo.org/hsm5rd

Links externos

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Sobre o Autor

Renato Veras é médico, professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e diretor da Universidade Aberta da Terceira Idade (UnATI/UERJ). Na Inglaterra, em 1984, concluiu seu segundo mestrado, em Saúde Coletiva (Community Medicine), na London School of Hygiene and Tropical Medicine (LSHTM), e o doutorado (PhD) no Guy’s Hospital da Universidade de Londres, em 1992. Suas principais áreas de pesquisa são “Epidemiologia e doenças crônicas na terceira idade” e “Modelos de cuidado para o idoso”.
E-mails: veras@uerj.br / unativeras@gmail.com
Lattes: http://lattes.cnpq.br/9390281442853604

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

GESTEIRA, A. S. and VERAS, R. É possível ampliar a qualidade assistencial e reduzir os custos de saúde para os idosos brasileiros [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/06/22/e-possivel-ampliar-a-qualidade-assistencial-e-reduzir-os-custos-de-saude-para-os-idosos-brasileiros/

 

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